Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, abril 21, 2006

Política e economia LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

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Foi com grande prazer e atenção que li recentemente uma entrevista do cientista político italiano Giovanni Sartori. Aos 81 anos de idade, depois de uma longa carreira como pensador e professor na Itália e nos Estados Unidos, nos brinda com uma análise que só os sábios são capazes de proporcionar. Embora a motivação de sua entrevista tenha sido a situação italiana às vésperas de uma eleição nacional, seus comentários sobre os conflitos entre economia e política neste início de século são universais. E, portanto, também válidos neste nosso canto da América Latina.
Refletindo sobre a situação dificílima em que se encontra a sociedade italiana, com a economia estagnada e dividida ao meio em termos de direção política, Sartori nos abre os olhos para os grandes desafios que hoje o mundo enfrenta. O principal deles é o conflito criado por uma dinâmica econômica de dimensão global e situações políticas com cores nacionais. Nos últimos dez anos, a organização das economias nacionais convergiu para um modelo hegemônico baseado em uma integração de mercados nunca conhecida anteriormente.
As causas dessa verdadeira revolução capitalista são várias, mas o que está permitindo sua realização é uma grande mudança tecnológica na área das comunicações e do processamento eletrônico dos dados. Com isso, as limitações de natureza física, que separavam os mercados nacionais, estão desaparecendo de forma muito rápida. E nesse espaço econômico sem fronteiras as forças centrais que movem os mercados estão forçando uma convergência incrível nos campos macro e microeconômico. Alguns chamam esse fenômeno de um processo global de arbitragem entre os vários espaços nacionais de produção de bens e serviços.
Arbitragem no sentido econômico quer dizer a busca, por parte das empresas que produzem bens e serviços, das condições mais eficientes para realizar suas atividades. Nessa corrida, a questão dos salários é o primeiro item a ser considerado, em razão do peso elevado que têm na estrutura de custos da grande maioria das empresas modernas. Além disso, outros itens como o regime cambial e a taxa de juros também exercem influência nessa decisão.
Mas Sartori, com muita sabedoria, nos lembra que, nesse caminhar em busca das condições mais eficientes de produção ao redor do mundo, também a estrutura social e seu produto natural nas democracias, que são os processos eleitorais, exercem influência decisiva. E essa é uma fonte de tensão que precisa ser considerada para os que estão pensando de maneira integrada esse fenômeno social. E isso não está ocorrendo, pois a lógica econômica está sendo considerada à parte, sem levar em conta os conflitos sociais e políticos associados a essas mudanças.
Nesse processo econômico, a dinâmica adjacente é que ocorra, ao mesmo tempo, uma arbitragem entre as condições de proteção social no mundo desenvolvido e no mundo emergente, principalmente a China. Assim, deveria ocorrer uma redução nos salários e direitos trabalhistas nas regiões mais avançadas socialmente até que, consideradas as diferentes produtividades do fator trabalho, caminhássemos para uma nova situação de equilíbrio. Enquanto isso não ocorre, há um grande desequilíbrio nos investimentos produtivos em direção aos países com menor custo de produção, com expansão do emprego nessas regiões e contração nas outras.
Se do ponto de vista econômico isso aponta para um mundo mais eficiente, do ponto de vista social temos o nascimento de uma grande tensão nos países que perdem com essa nova ordem. As pressões de natureza política, que nascem antes que esse processo de arbitragem ocorra, estão criando as condições objetivas para um contra-ataque dos países mais desenvolvidos. Sartori dá o nome claro do que essa contra-ofensiva pode criar: uma política protecionista que interrompa, ou diminua, esse movimento de arbitragem.
Caso esse caminho passe a ser, por pressões políticas e sociais, mais intenso e sincronizado, teremos um grave problema pela frente.


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