Onde está a 'frouxidão moral'
Numa conjuntura política já dominada pelo escândalo da Caixa, que custou o cargo ao mais prestigiado ministro do governo Lula e ameaça transformá-lo em réu de um crime punido com até seis anos de prisão, as ondas de choque levantadas pela absolvição do deputado-mensaleiro João Paulo Cunha, em votação secreta, parecem contradizer o relator do processo contra ele no Conselho de Ética da Câmara, Cezar Schirmer, quando faz uma generalização, diagnosticando uma "frouxidão moral no País". A crise moral é grave, atinge setores vitais do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, mas não se pode dizer que tenha se disseminado "no País". Qualquer que seja o grau de tolerância de uma sociedade à corrupção - impossível, aliás, de aferir com certeza matemática, a ponto de respaldar generalizações -, ele não é invariável nem imune às circunstâncias.
Mesmo que a história e a cultura política nacional tenham habituado a população a esperar sempre o pior das autoridades no plano ético, do guarda da esquina aos governantes de turno, não se pode inferir que a maioria dos brasileiros é também moralmente frouxa. Isso significaria que a maioria dos brasileiros, na maior parte do tempo, exibe o comportamento dos que entram para a máquina administrativa ou enveredam pela política para se servir do povo e do Estado. Decerto existem aqueles que tratam de tirar vantagem da venalidade de um agente público. Mais comum, porém, é render-se a ela por absoluta falta de alternativas.
É fato também que políticos de notória folha corrida em matéria de improbidade no exercício do poder e no manuseio do dinheiro alheio se elegem para cargos executivos sob a égide do infame "rouba, mas faz". No entanto, mesmo esse voto descrente dos que pensam que a eficiência do governante compensa e sua improbidade não se distribui por igual pelo território ou pelos grupos sociais, nem aumenta a cada eleição - se algo se pode dizer com segurança é que o contrário parece ser verdadeiro. Uma coisa é fora de dúvida: em regra, os brasileiros gostariam de ver banida a corrupção. Prova disso é que elegeram para a mais alta função da República figuras que fizeram da honestidade a sua grande bandeira: Jânio, Collor... e Lula.
Frustrações passadas entre parênteses, isso remete ao tema da frouxidão moral apontada pelo deputado Schirmer. No quesito ética pública, três anos e três meses de governo do PT deixaram o País pior do que estava no dia da posse de Lula. Isso nem os próprios petistas ousam contestar sem enrubescer: negam o mensalão, falam em conspiração das elites e da mídia, mas tiveram que se aferrar a delito "menor" - o uso do caixa 2 - para acobertar o crime sem precedentes da compra de deputados por atacado. Com isso, admitiram o inadmissível em tempos idos - "errando", fizeram o que os outros fazem -, embora tudo tenha sido para o bem do povo.
Ouçam-se os cotidianos comícios do presidente Lula. Jogando com o peso de sua peculiar biografia e do seu não menos extraordinário carisma, ele proclama - e tornará a proclamar até aparecer pela última vez no horário de propaganda eleitoral - que nunca antes um governo fez tanto pelos brasileiros mais necessitados. Ele não proclama que nunca antes um governo fez tanto pela moralidade pública no Brasil. O assunto é um fio desencapado que a oposição aguarda ansiosamente que ele ouse tocar, para lançar contra as suas palavras os fatos abrumadores que o poder petista não cessa de produzir. Mas é sabido que a questão sensibiliza menos do que o discurso social as parcelas desvalidas do eleitorado.
Nesses estratos, cujo cotidiano é dominado pelo convívio com a escassez, nos muitos sentidos do termo, os ecos de Brasília chegam enfraquecidos, quando não filtrados por um juízo cínico sobre os políticos em geral. No limite, se reconhecerá que Lula foi obrigado a lhes fazer concessões - preço a pagar para aliviar o fardo da população carente. Nessa percepção esquizóide - políticos e corrupção de um lado, Lula e a vida real de outro - reside, em última análise, o trunfo reeleitoral do presidente.
É de filigranas a diferença entre isso e o "rouba, mas faz" que elegeu prefeitos e governadores, mas não ainda um presidente. Esse o legado ético do atual governo. E essa a verdadeira frouxidão moral que deixa os brasileiros cada vez mais desesperançados da política.