O GLOBO
BAKU. No segundo dia do seminário da Academia da Latinidade, dois dos maiores pensadores europeus, o sociólogo Alain Touraine e o filósofo Jean Baudrillard, deram ontem, cada um a seu modo, o testemunho do pessimismo que toma conta da Europa nos dias tumultuados por que passa o mundo moderno. A começar pela definição do papel que nós, os habitantes do planeta, temos (ou não) na construção de um mundo melhor. Contraditando uma definição de Marx, segundo quem, em vez de interpretar o mundo como os filósofos, caberia transformá-lo, Jean Baudrillard afirmou que hoje em dia não se trata mais de transformar o mundo, o que acontecerá de qualquer maneira, mas sim entender essas transformações para que elas não aconteçam dispensando a participação humana.
Para ele, estamos diante de uma revolução verdadeiramente antropológica, muito diferente das revoluções históricas precedentes, a revolução que trará a desqualificação definitiva do homem diante da perfeição tecnológica.
Para Baudrillard, diante da hegemonia tecnológica, o homem perde não apenas sua liberdade, mas a imaginação de si mesmo. A obsolescência do homem diante da máquina é uma revolução que marca, ela sim, o fim da História na concepção de Baudrillard, não no sentido da superação dialética de que falou Francis Fukuyama, mas, ao contrário, da inauguração do mundo sem o homem: "Se houve o sujeito da História, não haverá o sujeito do fim da História", ironiza Baudrillard o conceito hegeliano.
O sociólogo Alain Touraine chegou à mesma visão pessimista do mundo através de angústia diametralmente oposta: qual será o papel do homem moderno, já que o Ocidente vem perdendo progressivamente seu poder de transformação, de inquietação, responsável por conquistas tão importantes para a humanidade como a derrota das monarquias absolutistas; o avanço do direito dos empregados nas relações trabalhistas; a liberação dos povos colonizados e a conquista dos direitos femininos?
Para Touraine, o mundo ocidental se aproveitou mais que o resto do mundo, por um tempo talvez longo demais, de um alto padrão de vida, de criatividade e liberdade, e agora perdeu seu dinamismo.
Enquanto Baudrillard acha que já não há mais sentido em tentar mudar o mundo, Touraine ainda tenta encontrar respostas para o enfraquecimento da Europa diante da hegemonia dos Estados Unidos e do crescimento acelerado da ditatorial China.
Touraine acha que a União Européia transformou os países-membros em parceiros apenas econômicos, mais preocupados em reduzir o déficit do sistema de seguridade social, ou reassumir um crescimento econômico modesto que seja, sem levar em conta sua missão histórica, com uma vida pública medíocre. Já Baudrillard descrê de finalidades históricas para o homem moderno, tornado obsoleto pelo automatismo da tecnologia.
Baudrillard vê nas decisões tomadas cada vez mais pela lógica dos computadores do que pela decisão humana um seqüestro da inteligência humana em benefício da inteligência artificial que marca o ponto em que o homem renuncia definitivamente a seu destino em benefício da instância técnica, cuja superioridade reconhece.
O príncipe da Jordânia, El Hassan bin Talal, em uma análise da situação mundial, disse no primeiro dia da conferência que a Europa estava paralisada por três tipos de receios: dos imigrantes; dos islâmicos e dos países emergentes, especialmente os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), que teoricamente tomarão o lugar dos europeus na economia mundial em 30 anos. Ontem, Touraine nomeou os "medos" que dominam a sociedade européia no momento: o medo de perder o estado de bem-estar social; o medo da imigração, o medo do terrorismo.
Mas enquanto Jean Baudrillard aprofunda seu pessimismo afirmando que o homem moderno passou a ser medido pela perfeição de seu aparato tecnológico e, confrontado com seu próprio ideal realizado, se desmorona, Alain Touraine vai buscar na utopia da latinidade uma saída para a crise. Latinidade desprendida de idéias econômicas ou realidades territoriais, que pode fazer a diferença no diálogo das civilizações segundo a idéia central dos seminários promovidos pelo sociólogo Cândido Mendes, secretário-geral da Academia da Latinidade.
Para começar, diz Touraine, a idéia da latinidade tem a vantagem de ser artificial, no sentido de que não representa uma cultura, uma tradição ou uma linguagem, permitindo enfoque criativo e independente para a Europa, num sistema mundial dominado pela crescente pluralidade e modernização dos modelos.
A idéia da latinidade está ligada principalmente à idéia da não-força, e deve ser definida, antes de tudo, pela oposição ao modelo competitivo de modernização que destrói a separação de poderes, os princípios da secularização e o respeito aos direitos humanos que tiveram lugar central no sistema politico das primeiras democracias na Europa e na América do Norte.
Mas Touraine adverte: não se trata de reinventar um passado sem quase nenhuma relação com a realidade brutal do presente. Latinidade é uma idéia importante perfeitamente viva, que não designa um país imaginário ou limita sua ação a pessoas nascidas nas fronteiras de países que têm raízes no império romano.
Os intelectuais que dão importância a temas como liberdade e democracia devem ser incorporados à latinidade, que é mais um apelo ao congraçamento e à capacidade por propostas coletivas.
As fronteiras da latinidade podem ser estendidas para incorporar homens e mulheres de boa-vontade e coragem em qualquer parte do mundo, finalizou um esperançoso Alain Touraine.
Entrevista:O Estado inteligente
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