Ruy Fabiano, blog do Noblat (20/04/06)
Em conversa recente com um influente personagem da sociedade civil, o presidente Lula mandou o recado: "Se vierem com essa conversa de impeachment, vou para as ruas denunciar que querem dar um golpe de Estado".
Politicamente isolado, o presidente agarra-se com unhas e dentes aos índices de popularidade ainda altos, e faz menção a organizações populares sobre as quais exerce influência.
No caso desse interlocutor, citou especificamente o Movimento dos Sem-terra (MST), que, não por acaso, tem dado, com alguma freqüência, nestes tempos pré-eleitorais, o ar de sua graça, renovando invasões a terras produtivas e ocupando prédios públicos.
Claro está que Lula não descarta – muito pelo contrário – o recurso à estratégia chavista de dividir a sociedade. Dividir para continuar reinando. Há três anos, Hugo Chávez, presidente da Venezuela, sentindo-se politicamente acuado, dirigiu-se diretamente ao lumpesinato venezuelano, colocando massas de trabalhadores e desempregados nas ruas, em atitude de hostilidade à classe média e às elites. O país viveu meses de turbulência e insegurança. Mostrando comando sobre as massas, Chávez intimidou seus adversários e deu seqüência a seu governo.
Lá está até hoje, gerindo um país internamente dividido e economicamente fragilizado. Lula, naquela ocasião, recém-eleito e politicamente prestigiado, inclusive externamente, foi um de seus mais valiosos interlocutores. Continua sendo.
Transposta para o Brasil, aquela estratégia de "botar o bloco na rua" teria conseqüências bem mais danosas. Numa cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, flagelada pelo narcotráfico e o crime organizado, não é difícil imaginar a extensão dos danos.
Já tivemos insights disso. De vez em quando, os moradores da Zona Sul, região onde moram as classes média e alta – e onde também estão encasteladas algumas das principais favelas da cidade -, vivem o tormento da voz de comando dos morros.
Tornam-se reféns do narcotráfico, que, por meio de seus aviõezinhos (os meninos que levam encomendas e recados ao povo do asfalto), manda fechar o comércio e cumprir outras determinações, como se fora um governo paralelo.
Apesar de todo o desgaste político decorrente dos crimes que seu alto comando praticou, o PT ainda possui forte interlocução com os segmentos populares organizados – inclusive os organizados na contramão.
Lula, de maneira ainda misteriosa para os analistas sociais e políticos, conseguiu descolar-se da crise. Não é com ele. O procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, chama o comando do PT – partido que ele fundou e no qual sempre mandou – de "organização criminosa". Diz que o ministro-chefe da Casa Civil de Lula, José Dirceu, era "o chefe da quadrilha", diz que essa organização, que freqüentemente se reunia na Casa Civil da Presidência da República, assaltou o Estado. Mas, apesar de tudo, Lula não é citado e muito menos indiciado. Não é mesmo com ele.
Prevalecem, diante da população economicamente mais desfavorecida – imensa maioria, que só ganha relevo em período pré-eleitoral –, dois pontos de vista distintos, e espantosos. Uma parte acha que o presidente não sabia de nada, que foi enganado por assessores mal-intencionados (Lula adora e estimula essa versão).
A outra é mais explícita – e menos defensável: todos roubam, desde sempre, e não seria justo punir apenas Lula, sobretudo porque ele é o povo no Poder. Teria então essa licença informal para delinqüir, com a legitimidade de sua origem social. Lula, por motivos óbvios, não menciona essa interpretação, mas claro está que não a ignora e não a rejeita, pois é beneficiário dela.
A Igreja Católica, que sempre brandiu a bandeira da ética na política, divide-se na questão: Dom Geraldo Majela, presidente da CNBB, mostra-se escandalizado com as denúncias e pede apuração. Não fala em impeachment, nem cita diretamente o presidente. Mas claro está que se decepcionou com ele.
Já a ala mais à esquerda, de que Dom Tomás Balduíno é um ícone, não quer nem saber se Lula roubou ou não. Sustenta que os seus adversários, que disputarão com ele a sucessão presidencial, são "de direita" – e basta isso para legitimar a permanência de Lula, independentemente do que diz a denúncia formal do Ministério Público ao Supremo Tribunal Federal.
Diluiu-se o escândalo. Ninguém mais parece chocado com as palavras do procurador-geral da República, nomeado pelo próprio Lula – e, portanto, isento de qualquer suspeição golpista. Nenhum outro presidente – nem mesmo Fernando Collor - esteve no centro de denúncias formais tão duras, em toda a história republicana do país.
Collor, diante do que está dito do PT e do alto comando do governo Lula, no relatório de Antonio Fernando Souza, foi um punguista. Mau punguista, inexperiente, que mordeu (ou mandou morder) alguns cofres públicos menores, em operações artesanais desastradas. Já o governo Lula mordeu todos os cofres, sobretudo os maiores, dentro de uma operação sistêmica, que mobilizou estruturas bancárias poderosas (incluindo bancos estatais) e chegou ao patamar assombroso dos bilhões de reais.
Isso, claro, até onde se sabe – e não se sabe tudo. Sabe-se, aliás, relativamente pouco. O histórico bancário de Paulo Okamotto, tesoureiro da família real, permanece intocado. Não se mexeu ainda a fundo (sem trocadilho) nos fundos de pensão. E assim por diante.
Mesmo com tudo isso, o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, após atribuir as manifestações pró-impeachment de Lula a "esquentamento do clima eleitoral", muniu-se de imensa cara-de-pau para a seguinte e solene declaração:
"Não há nenhuma racionalidade jurídica, nenhum fundamento ético ou político para falar em impeachment."
Genro é advogado. Conhece as leis do país. Leu a denúncia do procurador-geral. Sabe, portanto, que há, sim, e como, racionalidade jurídica e fundamento ético e político para o impeachment. O que não há é o contrário: racionalidade jurídica e fundamento ético-político para não se fazer nada.
Dia oito próximo, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil se reúne, em Brasília, para examinar proposta de impeachment encaminhada por um de seus membros.
O relator da matéria, advogado e jurista Sérgio Ferraz, já informou que se pronunciará pela abertura do processo. Mas a tendência predominante entre os 81 membros do Conselho, se nenhum fato novo ocorrer, é pelo arquivamento da matéria.
Não por considerá-la, como Tarso Genro, "infundada", mas pelo temor dos desdobramentos político-sociais que o impedimento presidencial traria. O tal "bloco na rua". Lula é beneficiário não de sua inocência, mas do desfavorável custo-benefício de demonstrar (e cobrar) sua culpa.
Diante disso, ele fica – e, se a oposição não lançar alguém em condições de impor-lhe o impeachment moral pelo voto, se reelege. Nessa hipótese, as projeções são de um segundo mandato pior que o atual, já que o PT em hipótese alguma reeditará sua performance eleitoral de 2002 e deixará o presidente ainda mais frágil no Congresso. Num Congresso onde já não haverá espaço para expedientes geradores de maiorias artificiais como o Mensalão.
Ruy Fabiano é jornalista
Politicamente isolado, o presidente agarra-se com unhas e dentes aos índices de popularidade ainda altos, e faz menção a organizações populares sobre as quais exerce influência.
No caso desse interlocutor, citou especificamente o Movimento dos Sem-terra (MST), que, não por acaso, tem dado, com alguma freqüência, nestes tempos pré-eleitorais, o ar de sua graça, renovando invasões a terras produtivas e ocupando prédios públicos.
Claro está que Lula não descarta – muito pelo contrário – o recurso à estratégia chavista de dividir a sociedade. Dividir para continuar reinando. Há três anos, Hugo Chávez, presidente da Venezuela, sentindo-se politicamente acuado, dirigiu-se diretamente ao lumpesinato venezuelano, colocando massas de trabalhadores e desempregados nas ruas, em atitude de hostilidade à classe média e às elites. O país viveu meses de turbulência e insegurança. Mostrando comando sobre as massas, Chávez intimidou seus adversários e deu seqüência a seu governo.
Lá está até hoje, gerindo um país internamente dividido e economicamente fragilizado. Lula, naquela ocasião, recém-eleito e politicamente prestigiado, inclusive externamente, foi um de seus mais valiosos interlocutores. Continua sendo.
Transposta para o Brasil, aquela estratégia de "botar o bloco na rua" teria conseqüências bem mais danosas. Numa cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, flagelada pelo narcotráfico e o crime organizado, não é difícil imaginar a extensão dos danos.
Já tivemos insights disso. De vez em quando, os moradores da Zona Sul, região onde moram as classes média e alta – e onde também estão encasteladas algumas das principais favelas da cidade -, vivem o tormento da voz de comando dos morros.
Tornam-se reféns do narcotráfico, que, por meio de seus aviõezinhos (os meninos que levam encomendas e recados ao povo do asfalto), manda fechar o comércio e cumprir outras determinações, como se fora um governo paralelo.
Apesar de todo o desgaste político decorrente dos crimes que seu alto comando praticou, o PT ainda possui forte interlocução com os segmentos populares organizados – inclusive os organizados na contramão.
Lula, de maneira ainda misteriosa para os analistas sociais e políticos, conseguiu descolar-se da crise. Não é com ele. O procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, chama o comando do PT – partido que ele fundou e no qual sempre mandou – de "organização criminosa". Diz que o ministro-chefe da Casa Civil de Lula, José Dirceu, era "o chefe da quadrilha", diz que essa organização, que freqüentemente se reunia na Casa Civil da Presidência da República, assaltou o Estado. Mas, apesar de tudo, Lula não é citado e muito menos indiciado. Não é mesmo com ele.
Prevalecem, diante da população economicamente mais desfavorecida – imensa maioria, que só ganha relevo em período pré-eleitoral –, dois pontos de vista distintos, e espantosos. Uma parte acha que o presidente não sabia de nada, que foi enganado por assessores mal-intencionados (Lula adora e estimula essa versão).
A outra é mais explícita – e menos defensável: todos roubam, desde sempre, e não seria justo punir apenas Lula, sobretudo porque ele é o povo no Poder. Teria então essa licença informal para delinqüir, com a legitimidade de sua origem social. Lula, por motivos óbvios, não menciona essa interpretação, mas claro está que não a ignora e não a rejeita, pois é beneficiário dela.
A Igreja Católica, que sempre brandiu a bandeira da ética na política, divide-se na questão: Dom Geraldo Majela, presidente da CNBB, mostra-se escandalizado com as denúncias e pede apuração. Não fala em impeachment, nem cita diretamente o presidente. Mas claro está que se decepcionou com ele.
Já a ala mais à esquerda, de que Dom Tomás Balduíno é um ícone, não quer nem saber se Lula roubou ou não. Sustenta que os seus adversários, que disputarão com ele a sucessão presidencial, são "de direita" – e basta isso para legitimar a permanência de Lula, independentemente do que diz a denúncia formal do Ministério Público ao Supremo Tribunal Federal.
Diluiu-se o escândalo. Ninguém mais parece chocado com as palavras do procurador-geral da República, nomeado pelo próprio Lula – e, portanto, isento de qualquer suspeição golpista. Nenhum outro presidente – nem mesmo Fernando Collor - esteve no centro de denúncias formais tão duras, em toda a história republicana do país.
Collor, diante do que está dito do PT e do alto comando do governo Lula, no relatório de Antonio Fernando Souza, foi um punguista. Mau punguista, inexperiente, que mordeu (ou mandou morder) alguns cofres públicos menores, em operações artesanais desastradas. Já o governo Lula mordeu todos os cofres, sobretudo os maiores, dentro de uma operação sistêmica, que mobilizou estruturas bancárias poderosas (incluindo bancos estatais) e chegou ao patamar assombroso dos bilhões de reais.
Isso, claro, até onde se sabe – e não se sabe tudo. Sabe-se, aliás, relativamente pouco. O histórico bancário de Paulo Okamotto, tesoureiro da família real, permanece intocado. Não se mexeu ainda a fundo (sem trocadilho) nos fundos de pensão. E assim por diante.
Mesmo com tudo isso, o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, após atribuir as manifestações pró-impeachment de Lula a "esquentamento do clima eleitoral", muniu-se de imensa cara-de-pau para a seguinte e solene declaração:
"Não há nenhuma racionalidade jurídica, nenhum fundamento ético ou político para falar em impeachment."
Genro é advogado. Conhece as leis do país. Leu a denúncia do procurador-geral. Sabe, portanto, que há, sim, e como, racionalidade jurídica e fundamento ético e político para o impeachment. O que não há é o contrário: racionalidade jurídica e fundamento ético-político para não se fazer nada.
Dia oito próximo, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil se reúne, em Brasília, para examinar proposta de impeachment encaminhada por um de seus membros.
O relator da matéria, advogado e jurista Sérgio Ferraz, já informou que se pronunciará pela abertura do processo. Mas a tendência predominante entre os 81 membros do Conselho, se nenhum fato novo ocorrer, é pelo arquivamento da matéria.
Não por considerá-la, como Tarso Genro, "infundada", mas pelo temor dos desdobramentos político-sociais que o impedimento presidencial traria. O tal "bloco na rua". Lula é beneficiário não de sua inocência, mas do desfavorável custo-benefício de demonstrar (e cobrar) sua culpa.
Diante disso, ele fica – e, se a oposição não lançar alguém em condições de impor-lhe o impeachment moral pelo voto, se reelege. Nessa hipótese, as projeções são de um segundo mandato pior que o atual, já que o PT em hipótese alguma reeditará sua performance eleitoral de 2002 e deixará o presidente ainda mais frágil no Congresso. Num Congresso onde já não haverá espaço para expedientes geradores de maiorias artificiais como o Mensalão.
Ruy Fabiano é jornalista