Entrevista:O Estado inteligente

domingo, abril 02, 2006

CELSO MING O fator político

ESTADÃO

Mesmo que as próximas pesquisas mostrem alguma deterioração nas posições do presidente Lula na preferência do eleitor, a probabilidade de vitória para um segundo mandato tende a continuar elevada. O maior problema não é reeleger-se; é governar depois.

O ministro Palocci vai fazer falta no comando da política econômica. No entanto, mesmo sem ele, e mesmo que não se conte com outro avalista do mesmo porte para manutenção da austeridade fiscal, não há nenhuma turbulência à vista. A destituição de Palocci e sua substituição pelo ministro Guido Mantega provocou alguma marola, mas não passou disso. Há apenas quatro anos, por muito menos, o mercado financeiro virou um pandemônio. O prêmio de risco Brasil saltou para 2.443 pontos e o dólar, para R$ 4. Ficou demonstrado que a propalada blindagem da economia não é mera figura de retórica; é real.

Nesse clima, é improvável que os fundamentos da economia sejam prejudicados. A inflação está sob controle, os juros estão em queda, o prêmio de risco oscila ao redor dos 230 pontos, já não há a antiga vulnerabilidade externa, há sinais de que o grau de investimento para a dívida pública está cada vez mais próximo. Estes não são apenas indicadores técnicos. Refletem-se no bolso do povo, na medida em que o salário, embora ainda ralo, tem o maior poder de compra dos últimos 30 anos. E, não é nada, a cada mês estão sendo distribuídas 9 milhões de Bolsas-Família (que chegarão a 11 milhões), iniciativa assistencialista que haverá de exercer um certo impacto eleitoral. Enfim, como esta coluna tem repetido, a força do presidente Lula não pode ser desprezada.

Enquanto isso, o presidente Lula está cada vez mais só. Um após outro, vai perdendo os companheiros com alguma experiência de administração pública. Já não conta com José Dirceu, Palocci, Gushiken, José Genoino, Cristovam Buarque e outros oito ministros, que agora não farão outra coisa senão paparicar o eleitor. As dificuldades que enfrentou na remontagem do Ministério comprovam o isolamento. Tarso Genro, que há seis meses não servia para coordenar politicamente o PT, agora é guindado a ministro da Integração Política.

E, se ganhar as eleições, como Lula governará? Os analistas da área política calculam que o PT deverá perder entre 30% e 40% das atuais cadeiras no Congresso. E é provável que outros partidos da base aliada também saiam escalpelados. São votos que tendem a migrar para a atual oposição. A sofreguidão com que setores oportunistas do PMDB estão mudando de lado dão boa indicação do que pode acontecer.

Apesar da forte melhora na economia, o problema de fundo, que é o desequilíbrio fiscal, não está equacionado. Quem assumir a Presidência em 2007 terá de enfrentar duríssima pauta política: reforma da Previdência, reforma tributária, reforma do Judiciário, reforma das leis trabalhistas e a reforma política. Apenas uma sólida base de sustentação poderá garantir sucesso nessa empreitada. Como evitar que o fator político contamine o desempenho da economia a partir de 2006 ou mesmo antes?

O ideal seria a formação de uma grande aliança nacional, nos moldes do Pacto de Moncloa, que em 1977 permitiu a decolagem da Espanha em direção à modernização das instituições e da economia. No entanto, não há hoje no Brasil ninguém que consiga antever esse desfecho, especialmente diante da campanha eleitoral selvagem que se prepara. Em todo o caso, política é como nuvem...


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