Entrevista:O Estado inteligente

sábado, novembro 12, 2005

VEJA Tales Alvarenga Inferno em Paris


"O extremismo islâmico poderá eventualmente fornecer algumas idéias e uma causa a esses novos radicais. Aí, será o inferno. Em Paris"

Eles usam celular e internet, moram em conjuntos habitacionais e não em favelas, suas famílias têm carros e recebem ajuda financeira do governo. Podem freqüentar de graça escolas relativamente boas. Vivem com mais conforto do que a maioria dos habitantes do Terceiro Mundo. Por que se revoltam então esses rapazes árabes e negros que estão pondo fogo em carros, lojas e prédios em uma centena de cidades francesas?

São filhos de imigrantes, em geral muçulmanos, que saíram das ex-colônias francesas na África. Os franceses não os aceitam como iguais, mas manifestam complexo de culpa devido a essa rejeição. As autoridades estão atônitas, não sabem o que dizer. Alguns analistas romantizam a revolta, inebriados como sempre com qualquer sinal vago de explosão revolucionária.

O que acontece é de outra natureza. Uma multidão de jovens delinqüentes joga coquetéis molotov dentro de carros e lojas dos próprios vizinhos. Estão com raiva pela discriminação racial que sofrem. Ponto. Aí, vem a retórica malpassada da imprensa e da academia fazendo referências aos protestos estudantis de maio de 1968 e à tradição libertária da França, expressa pela Revolução de 1789. Oh, céus! Na verdade, esses rebeldes não têm líderes nem ideologia.

O francês tem alergia a diferenças de raça e cultura. A França não está sozinha entre os grandes países da Europa que perseguiram judeus durante o nazismo alemão e hoje discriminam árabes, negros, turcos e pobres provenientes de países como a Albânia. O desemprego é muito maior entre os 6 milhões de islâmicos da França, que falam um francês de baixa extração, costumam fugir da escola na adolescência e, quando jovens, tendem a se meter em gangues.

Os franceses educados não explicitam sentimentos de preconceito. É uma questão de finesse. Nicolas Sarkozy, ministro do Interior, quebrou a etiqueta. Chamou os revoltosos de "escória", "gentalha", e agora quer deportar os garotos presos em arruaças. Com essa manifestação, Sarkozy provocou um recrudescimento dos incêndios criminosos. Talvez tenha conquistado mais apoio entre a maioria silenciosa dos seus compatriotas. Sarkozy sonha substituir Jacques Chirac na Presidência. Seu direitismo explícito pode ter-lhe rendido mais popularidade.

A revolta na França apresenta um interesse sociológico óbvio. Legiões de imigrantes progridem nos países de adoção sem precisar incendiar automóveis. Japoneses, chineses, hispânicos, italianos, portugueses, libaneses, armênios são alguns deles. Quanto aos países que os recebem, lugares como o Brasil ou os Estados Unidos parecem mais flexíveis no processo de assimilação do que as nações européias, tão orgulhosas de suas conquistas sociais. No Brasil, demos um passo adiante. Fizemos também a miscigenação, uma glória nacional.

As revoltas coletivas deixam mensagens. Nesse caso, a primeira é a de que a França falhou. A segunda, que a cultura e a religião desses novos radicais são um elemento com potencial de risco, vivendo eles em comunidades segregadas. O extremismo islâmico poderá eventualmente lhes fornecer algumas idéias, uma identidade e uma causa. Aí, será o inferno. Em Paris.

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