Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, novembro 09, 2005

O GLOBO

Miriam Leitão


   paneco@oglobo.com.br



O candidato

O presidente estava firme e demonstrando domínio dos muitos assuntos tratados na entrevista do "Roda Viva". Por outro lado, ele fez uma manobra arriscada ao negar até o já sabido e constatado. Na economia teve razão em alguns pontos, não teve em outros, mas o presidente se comporta como se não tivesse mantido uma política econômica contra a qual travou luta sem trégua.
O presidente continua com uma desconcertante falta de noção do que é o trabalho da imprensa. Perguntado sobre por que não dá mais entrevista, ele disse que fala diariamente a ponto de ficar até cansado de si mesmo. Não é apenas ele que fica cansado, mas uma entrevista de qualidade — como a que concedeu — tem a vantagem do contraditório. É bem diferente dos monólogos acríticos e auto-elogiativos que ele tem feito.


Na economia, ele tem muito o que comemorar, mas não tanto quanto diz. Segundo o presidente "o país está crescendo nestes anos o que não cresceu nos últimos 22 anos". Essa sua visão positiva não é confirmada pelos números. Os ex-presidentes José Sarney e Fernando Henrique tiveram nos três primeiros anos desempenho tão bom ou melhor do que o dos anos Lula. O problema no Brasil é a falta de constância. O país cresce e depois pára, para em seguida ter novo período de crescimento. A média das últimas duas décadas é puxada para baixo pelos anos Collor, o pior período da democracia. FHC teve fases de estagnação provocadas pelas crises externas e de energia, mas não chegou a ter recessão como a de Collor. Itamar Franco também teve um bom desempenho nos dois únicos anos em que governou o Brasil. Tomara que o país reencontre o crescimento sustentado que teve durante tantas décadas no século passado, mas é cedo para Lula se achar melhor que todos os outros dos últimos 20 anos, como tem dito.

O governo tem vários outros números a comemorar, e ontem mesmo a Standard & Poor's, a mais conhecida agência de classificação de risco, elevou a perspectiva do Brasil para positiva. Está baseada numa série grande de bons indicadores. O economista Octaviano Canuto, do Banco Mundial, disse ontem que o Brasil tem alguns indicadores de país considerado bom investimento: nas contas externas, por exemplo. O desemprego tem caído nos últimos dois anos, voltando aos níveis que estava ao fim do governo Fernando Henrique. Mas Lula, ao falar de economia, entra em uma contradição insanável: tudo isso foi conseguido pela manutenção da política econômica que ele criticou e prometeu mudar. Ele se jacta dos resultados e esquece de dizer que mudou de idéia a respeito de como conduzir a economia.

O que ficou claro ao longo de toda a entrevista concedida pelo presidente ao "Roda Viva" é que ele está em campanha. E mostrou musculatura para a campanha, exibindo um conhecimento em áreas as mais diversas de seu governo. Mostrou indignação em relação ao problema do avião, porque essa é uma questão que colou nele: o fato de viajar muito ao exterior e ter comprado para isso um avião novo. Ele tem bons argumentos na defesa da compra da aeronave, mas se não tivesse nenhum bastaria pronunciar o nome da antiga, usada tantas vezes por Fernando Henrique Cardoso: "sucatão". Era de fato um risco enorme continuar viajando num avião tão antigo. Suas informações sobre o estado de conservação do Alvorada devem corresponder inteiramente à realidade; um imóvel antigo cheio de problemas estruturais. Mas se o ex-presidente Fernando Henrique tivesse chamado empresas privadas para consertar o palácio residencial, e comprasse um avião novo para viajar, certamente o PT proporia uma CPI, e o primeiro a esbravejar seria o próprio Lula. O problema não é se Lula tem ou não razão, é como ele explica para si mesmo mudanças tão radicais de avaliação, valores e convicções.

Na política, ele entrou em contradição várias vezes entre o que estava dizendo num bloco e o que dizia em outro bloco. Ele nega a existência de irregularidades, que em outra parte diz que ocorreram e isso é uma traição a ele e aos velhos duros tempos. A tese de que sozinho o "nosso" Delúbio "terceirizou" as finanças do partido é insustentável. A acusação de que o "dinheiro fácil" é culpado leva a outra questão: Lula, que é do tempo da falta absoluta de recursos, não se deu conta de que o dinheiro ficara fácil demais? Aliás, a ninguém ocorreu perguntar ao "nosso" Delúbio por que tudo ficara tão espantosamente fácil, a ponto de o partido se comprometer com gastos extravagantes como o jatinho mobilizado para a campanha eleitoral do deputado Luiz Eduardo Greenhalgh na busca de votos num colégio eleitoral de apenas 513 eleitores, ou fechar o Blue Tree, em Brasília, para reuniões partidárias.

Sua defesa da tese de que não houve mensalão não convence o eleitor médio. O mensalão, como se viu até agora, não é o pagamento de propinas em bases mensais, é a transferência de recursos sem origem definida a inúmeros integrantes da base parlamentar. E sobre isso há um acúmulo impressionante de provas, confissões e testemunhas.

A entrevista mostrou um presidente aguerrido, seguro, e com respostas para todas as perguntas. Sobre o dinheiro de Cuba, por exemplo, é bastante convincente o argumento do "miserê" do país, e ele defendeu democracia para o país de Fidel. Mas na substância do que diz e de como apresenta seu governo há uma série de falhas e contradições. Será uma campanha e tanto.

 

MERVAL PEREIRA

 

Fatos e versões

O presidente Lula tem toda razão de não conceder entrevistas coletivas, especialmente as que, como a do "Roda Viva" da TV Cultura, permitem o contraditório. A última entrevista que concedera no Palácio do Planalto teve como regra a proibição de réplicas, o que o deixou muito à vontade, quase que falando sozinho. Na segunda-feira, o ambiente estava muito cerimonioso, os jornalistas ficaram afastados do presidente, com uma separação psicológica e até mesmo física, com um tapete que dividia seu ambiente do dos entrevistadores.

Mas quando esses replicavam suas respostas, ficava claro que elas não correspondiam inteiramente à realidade. Como na letra de Cazuza, suas idéias não correspondem aos fatos. Como quando tentou negar que dinheiro do caixa dois tenha sido usado em sua campanha presidencial, e foi confrontado por Heródoto Barbeiro com o fato de que seus próprios aliados, como o presidente do PL Valdemar Costa Neto, haviam confessado. Lula foi ao ponto de perguntar a Heródoto "por que você acredita nele e não em mim?", numa demonstração clara de que não tinha mais argumentos. Ou quando chegou a fazer um apelo a Augusto Nunes para que parasse de citar frases suas para confrontá-las com suas atitudes.

O presidente só foi poupado deliberadamente em poucos momentos da entrevista: quando Rodolfo Konder deixava de lado a crise política para filosofar sobre os caminhos da História, ou quando Matinas Suzuki introduziu o futebol na discussão, dando chance ao corintiano Lula de respirar um pouco. Houve momentos em que respostas vagas ou imprecisas do presidente Lula passaram sem contestação, como quando negou que tivesse declarado que daria um cheque em branco ao seu então aliado Roberto Jefferson.

De fato, nunca se ouviu da boca do presidente tal frase, mas Jefferson fez a declaração depois de um encontro com o presidente e demais líderes da base aliada, e o Palácio do Planalto não o desautorizou. Quando, no início do programa, Lula admitiu que o presidente é sempre responsável pelo que acontece no governo, mesmo que não saiba de nada, para em seguida dizer que o que cabe ao presidente "é mandar apurar" as denúncias, não foi contestado. Ora, na política ou em uma empresa, ser responsável pelos atos praticados por seus subordinados implica assumir as conseqüências desses atos, e poder ser punido por eles.

O presidente Lula se coloca o tempo todo à parte dos acontecimentos, e chega a duvidar de fatos que já foram confessados por seus aliados. Assim, caixa dois em sua campanha cheira a "fantasia"; mensalão na Câmara é "folclore". Traiu-se em determinado momento ao se referir ao ex-tesoureiro do PT como "nosso Delúbio", a indicar o que todos já sabem: que Lula era o verdadeiro suporte de Delúbio dentro do PT. Mesmo assim, atribuiu a Delúbio todos os malfeitos petistas, assim como, parecendo estar defendendo José Dirceu, deu-lhe o tiro de misericórdia ao fazer uma análise política que culminou com a constatação — correta, aliás — de que a Câmara está "condenada" a cassá-lo.

Se Lula está convencido de que não há qualquer prova contra Dirceu, por que o tirou do Palácio do Planalto em cima das acusações de Roberto Jefferson? E se de fato acha que sua cassação será exclusivamente por questões políticas, por que não orienta sua base aliada a defendê-lo na Comissão de Ética, onde foi derrotado quase por unanimidade?

Se ontem Lula tivesse se declarado esperançoso na absolvição de Dirceu, teria pelo menos dificultado a posição de deputados de sua base. Mas, aceitando como certa sua cassação e, mais que isso, compreendendo que essa decisão é a única resposta que os deputados podem dar à sociedade, Lula deu o sinal verde para a cassação de Dirceu. Ou o "beijo da morte", como definiram líderes oposicionistas.

Ontem, a senadora Heloísa Helena disse no plenário do Senado que o presidente Lula "tem mel na boca e bílis no coração", e que é capaz de dar um abraço, ao mesmo tempo em que apunhala pelas costas. Dirceu, Delúbio e Heloísa Helena conhecem Lula há muito tempo, saberão interpretar suas palavras melhor do que ninguém. A entrevista do "Roda Viva" deu ainda um roteiro do que será a campanha de reeleição, embora Lula tenha insistido em que não se decidiu se concorrerá. E Gilberto Carvalho, seu chefe de gabinete, tem razão quando disse que a campanha da reeleição será "dolorosa".

O presidente mostrou que não tem condições de enfrentar debates sobre questões delicadas como o contrato de seu filho com a Telemar ou a compra do AeroLula, dois casos que o tiraram do sério durante a entrevista. Se estiver bem colocado nas pesquisas, Lula poderá até evitar os debates. Mas não escapará dos programas de seus adversários, que colocarão no ar declarações e noticiário que desmentem suas versões.

Quando garantir que quer apurar tudo nas CPIs, bastará que mostrem as manobras dos petistas para tentar impedir a criação das CPIs — a dos Bingos fora engavetada e só saiu por decisão do Supremo — e depois, a tentativa dos petistas de desqualificar as testemunhas contrárias ao governo e as manobras para evitar convocações desagradáveis.

Na entrevista do "Roda Viva", sempre que acuado pelos fatos, o presidente Lula alegava que as investigações ainda estão em curso, e o relatório final das CPIs ainda não saiu. E indo mais além na tentativa de ganhar tempo contra as denúncias, lembrava que o Ministério Público ainda tem que aceitar as denúncias, e o Supremo Tribunal Federal terá que julgá-las. Na campanha eleitoral, provavelmente algumas dessas etapas estarão concluídas, reduzindo a margem de manobra do presidente. Mas, por esse raciocínio, ele acabará chancelando a tese de que o Supremo Tribunal Federal absolveu o presidente cassado Fernando Collor.

 

 

Tereza Cruvinel


Blog do Colunista    cruvinel@bsb.oglobo.com.br



A fala e as falhas

O mérito maior da entrevista do presidente Lula ao programa "Roda Viva" é a entrevista em si, o fato de ele ter se disposto a responder a todas e quaisquer perguntas sobre a crise e seu governo. Do que disse, o mais importante foi que tem sim responsabilidades diante da crise. Lula se saiu bem ainda ao demonstrar conhecimento sobre diversas questões administrativas, mas cometeu tropeços importantes ao responder sobre os fatos que geraram a crise. Mais grave, o de negar o mensalão, na forma descrita por Roberto Jefferson, sem reconhecer que partidos aliados receberam recursos do valerioduto.

Tomando-se o valerioduto como um caixa dois terceirizado, para usar sua expressão, houve pelo menos seu compartilhamento com os partidos aliados. Mas Lula pareceu ignorar as grandes cifras que saíram das contas de Valério para o PP e o PL, principalmente. Foi sobre esta omissão que a oposição deitou e rolou ao criticar a entrevista, chegando o líder pefelista Rodrigo Maia a chamar o presidente de Pinóquio da Silva. Houve também a contradição, apontada pela manchete de ontem do GLOBO, entre o que disse em tom indulgente em Paris — que o PT fez "o que se faz sistematicamente no Brasil" — e a condenação do caixa dois como prática inaceitável. Ricardo Berzoini, presidente do PT, sai em sua defesa:

— Quando negou a existência do mensalão, o presidente referiu-se à acusação original de Roberto Jefferson, de que o PT comprava deputados para votar a favor do governo. Isso não ocorreu, embora tenha havido repasses de recursos irregulares para os aliados, a título de ajuda de campanha. Em relação ao caixa dois, faltou mesmo repetir que tal prática, embora condenável, por uma série de distorções do nosso sistema político-eleitoral é corrente no país. Precisa ser combatida, com fiscalização e com reformas.

Se desse mais entrevistas, Lula já poderia ter respondido, e bem, como fez, a críticas que muito o desgastaram, como as que trataram da compra do avião presidencial. Em seu momento de maior indignação, reclamou de falarem no "avião do Lula" como se ele fosse levá-lo consigo ao deixar a Presidência. O sucatão era realmente um avião de risco e outros presidentes não tiveram disposição para enfrentar as críticas que viriam com a compra de um novo avião. Sobre entrevistas, Lula mostrou que não entende a importância delas, ao lembrar que fala todos os dias, a ponto de se cansar da própria voz. Discursar é diferente de responder a perguntas da imprensa.

Ao defender a associação da Gamecorp, empresa de seu filho, com a Telemar, que apontou como uma empresa privada, minimizando o fato de ser uma concessionária de serviço público, cutucou Fernando Henrique ao dizer que todos se lembram de como foi a privatização das teles.
Ontem levou uma bordoada do antecessor.

Há outros pontos discutíveis, como a afirmação de que o governo não tentou evitar as CPIs. Tentou, assim como o governo passado evitou todas, embora os líderes tucanos ontem também falassem no grande número das que funcionaram. Algumas foram mesmo instaladas, mas todas desimportantes e não relacionadas como denúncias de irregularidades no governo. Mas a entrevista foi mais importante que seus pontos fracos. E, se incomodou tanto a oposição, é porque de alguma forma ela favoreceu Lula.

Tiros em Palocci

A oposição não dará mais refresco ao ministro Palocci. Hoje, o líder do PFL, Rodrigo Maia, deve representar contra ele junto ao STF, acusando-o de cometer crime de responsabilidade. Isso porque Palocci vem ignorando as convocações de comparecimento ao Congresso para dar explicações diversas. Num sinal de que o PFL e o PMDB de oposição vão se aproximando, a iniciativa de Rodrigo Maia foi tomada com base em reclamo do presidente da Comissão de Finanças da Câmara, o deputado peemedebista Geddel Vieira Lima.

Vidas desperdiçadas

O toque de recolher foi baixado ontem na França, pátria da liberdade. A periferia de Paris está em chamas há dez dias, com jovens revoltados enfrentando a polícia e queimando carros. Lá não se vê igualdade nem fraternidade. Já houve cenas de violência no centro e mesmo em outros países da União Européia. "A República enfrenta um momento da verdade. A França está ferida. Não pode se reconhecer nas ruas e nas áreas devastadas, nesses rompantes de ódio e violência que destroem e matam", disse ontem o primeiro-ministro Dominique de Villepin ao anunciar medidas, também de cunho social, para conter os bárbaros da periferia, jovens desempregados e sem esperança de oportunidades. Parte deles, descendente de imigrantes.

Suspeita-se que estejam sendo manipulados, mas são movidos sobretudo pela revolta contra a exclusão. Os jovens da periferia de Paris têm o que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chama de "vidas desperdiças" em seu livro de mesmo nome. São produto do crescimento incontrolável do lixo humano, de pessoas descartáveis, que não têm oportunidade para produzir e nem consumir. Refugadas por uma sociedade seletiva que dá chances apenas a uma minoria. Um dia o refugo humano explode. E aqui, como em países mais pobres, ele é bem maior que na França.

A MP QUE CRIA a Super-Receita Federal enfrentava sua prova de fogo na noite de ontem. Uma emenda dos deputados Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e Sergio Miranda (PDT-MG), acolhida pelo relator, protegerá os recursos da combalida Previdência: mesmo com arrecadação unificada, não irão para o caixa único.
Nem será permitido fazer compensações tributárias com as contribuições previdenciárias.

EDITORIAL DO GLOBO

Na contramão


Com a crise política deflagrada pelas denúncias de um aliado — o deputado petebista Roberto Jefferson — o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou a distância que já mantinha da imprensa. Antes do escândalo, havia concedido uma entrevista coletiva, mas sem direito a réplicas. A descoberta do propinoduto do PT o fez recuar ainda mais.
Optou por pronunciamentos inflamados proferidos de palanques quase eleitorais e por frases ditas no exterior, em corredores e saguões de hotéis, enquanto transitava entre reuniões protocolares.

Fez, ainda, um pedido formal de desculpas à nação, quando se declarou traído — mas sem revelar o agente da traição. Salvo a desastrada, mas reveladora, entrevista dada a uma freelancer brasileira em Paris, em que procurou desqualificar o crime de caixa dois político e eleitoral, o presidente Lula ainda não havia se colocado à frente de câmeras de TV para responder a perguntas.

A oportunidade surgiu com a comemoração pelo milésimo programa "Roda Viva", da TV Cultura. Gravada a partir do fim da manhã de segunda-feira e levada ao ar à noite, a minicoletiva de Lula, como na entrevista parisiense, gerou um resultado desastroso para ele. E, como daquela vez, também não deixou de ser uma entrevista reveladora.

Lula aproveitou a oportunidade para tentar reparar o grave erro de Paris, quando curiosamente antecipou a linha de defesa do companheiro Delúbio Soares e do financista e traficante de interesses Marcos Valério que eles adotariam dias depois ao depor na CPI dos Correios. Agora, o presidente voltou atrás e disse considerar inaceitável o caixa dois na política. Poderia também ter aproveitado para ser mais preciso sobre quem o traiu — embora a referência feita a companheiros que adotaram práticas que "não se coadunam com a história do PT" já tenha sido um avanço.

Mas, como se tivesse entrado numa máquina do tempo, Lula retornou ao passado para rejeitar a existência do mensalão, termo usado por Jefferson nas denúncias e espertamente tomado ao pé da letra por petistas e aliados. Ao frisar que até agora não ficou provada a existência do tal mensalão, o presidente exumou uma discussão já soterrada pelas inúmeras provas e evidências surgidas no andamento das investigações.

E elas indicam o trânsito farto de milhões de reais em dinheiro ilegal através do propinoduto criado por Marcos Valério e administrado, entre outros, pelo companheiro Delúbio Soares, em direção ao bolso de políticos e ao caixa dois de legendas coligadas. Não se duvida mais já há algum tempo que esse dinheiro atraiu aliados na campanha de 2002, financiou gastos eleitorais em 2002 e 2004, comprou apoios em votações importantes no Congresso e azeitou trocas de legendas. O presidente repele — verbo da moda — que também sua campanha tenha sido abastecida por caixa dois, apesar de haver testemunhos (Valdemar Costa Neto) e fatos (pagamento a Duda Mendonça no exterior) que apontem nessa direção.

Seja como for, perdeu importância a questão de saber se o propinoduto abastecia as finanças dos beneficiários mensalmente. Bastaria uma única transferência de dinheiro ilegal para configurar crime.

Na entrevista, Lula assumiu a postura de militante do PT no poder, sem qualquer preocupação em manter-se à margem da crise e preservar-se na condição de presidente da República. Assim, mesmo considerando José Dirceu condenado, adotou o discurso de defesa do ex-ministro, autodeclarado vítima de perseguição política pela biografia e a história que tem, interpretação benevolente compartilhada por Lula. Escapa à compreensão do presidente aquilo que seu ex-companheiro Chico Alencar, deputado recém-chegado ao PSOL, bem resumiu: Dirceu é alvejado por causa dessa mesma biografia, pois seria impossível alguém como ele nada saber do que ocorria no PT.

Reapareceu na entrevista o Lula militante que, em reunião recente com a bancada do partido, procurou defender todos da acusação de corrupção. Ali, mais uma vez, pairava a idéia inaceitável de que há crimes maiores e menores quando se manipula dinheiro sujo na política.

Não faltou, também, a repetição do bordão de que "é preciso tudo apurar", entremeado de acusações de "denuncismo" contra as oposições e as CPIs — o que não deixa de ser um prejulgamento que inocenta os atingidos.

O pedido repetitivo de provas, outra tática petista, denota a intenção de desqualificar as evidências e os depoimentos já colhidos, com valor não apenas político mas também jurídico.

O presidente Lula entrou em rota de colisão com fatos apurados e indiscutíveis, e dessa forma voltou ao centro da crise.

O Brasil sob o olhar de Paris

RUBENS BARBOSA

Em um mundo globalizado e de comunicação imediata, é regra do jogo a competição em todos os campos, econômico, financeiro, por espaço na mídia, no mundo das artes e por aí afora.

Em recente passagem por Paris, pude constatar como uma ação planejada conjuntamente pelos governos da França e do Brasil pode ampliar e diversificar a percepção dos franceses sobre nosso país.
Trata-se do "Ano do Brasil na França". Uma iniciativa do governo francês em homenagem ao Brasil.

A temporada cultural parisiense reservou os espaços mais prestigiosos da cidade para o Brasil.

Fui ao Louvre e, sob a imponente pirâmide de vidro de I.M. Pei, eu me deparo com uma instalação do artista plástico Tunga. Em sala especial, vi o Brasil em 14 das paisagens que Frans Post pintou em Pernambuco no século XVII, inclusive uma parte doada pelo Príncipe de Nassau a Luiz XIV.

O Parque e o Trianon de Bagatelle estão ocupados por exposição de esculturas de Krajcberg. O trabalho de Nise da Silveira e parte da marcante coleção do museu das Imagens do Inconsciente são mostrados em Halles Saint Pierre. Sebastião Salgado está na Biblioteca Nacional e Miguel Rio Branco, na Maison Européenne de la Photographie. Há uma mostra de Pierre Verger no Jeu de Paume e outra de Marc Ferrez no Carnavalet, que nos remete ao Rio antigo.

Nossa herança africana está exposta no Museu Dapper. Chiara Banfi, Tiago Rocha Pita e Mana Bernardes, na Fondation Cartier; Victor Brecheret, no Parc Floral; Mauricio Dias & Walter Riedweg, em Le Plateau; Marepe, no George Pompideau; Julio Villani, na Maison de l'Amérique Latine. A Galeria de Arte Denise Renée inaugura esta semana exposição de Waltércio Caldas.

Lucio Costa, Affonso Eduardo Reidy, Oscar Niemeyer, Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha, Marcio Kogan, Isay Weinfeld e todos os grandes nomes da arquitetura contemporânea têm sua produção mostrada ao público francês no Palais de la Porte Dorée.

A Orangerie do Luxemburgo faz exposição botânica brasileira e a estação do metrô contígua expõe o projeto "Favelité", com fotos monumentais do projeto e reurbanização da Favela da Providência, no Rio de Janeiro, de autoria dos arquitetos Pedro Évora, Pedro Rivera e Laura Taves.

Santos-Dumont é homenageado no Museu do Espaço e do Ar. O Musée de la Vie Romantique, instalado em uma casa oitocentista, mostra a coleção Brasiliana, recolhida por Jacques Kugel, da Pinacoteca de São Paulo.

A música brasileira é tocada por todo lado. Nelson Freire, Sonia Rubinsky, Cristina Ortiz, Marlos Nobre, João Carlos de Assis Brasil e jovens como Luiz Gustavo Carvalho na música erudita e Carlos Lyra, Roberto Menescal, Marcos Vale entre dezenas de outros representantes de nossa MPB ocupam espaços na disputada noite parisiense. As missas barrocas de Nunes Garcia, Lopo de Mesquita e José Maurício são tocadas e ouvidas, inclusive na Catedral de Notre Dame de Paris, que teve a imagem do Cristo Redentor do Rio de Janeiro projetada em sua fachada.

Espetáculos de teatro e dança lotam platéias para ver Grupo Corpo, Lia Rodrigues, Márcia Milhases, Ivaldo Bertazo, Enrique Diaz.

O Cinema brasileiro vem sendo mostrado com retrospectivas completas de Glauber Rocha e Humberto Mauro, além da produção recente exibida com destaque.

O Ano do Brasil na França não se limita a Paris. Lygia Clark é apresentada no Museu de Belas Artes de Nantes; Ernesto Neto, no Centro de Arte Contemporânea de Kerguéhennec; Jac Lerner, em Saint Nazaire, Rivane Neueunschwander, em Lyon; Cildo Meireles, em Brest.

Até o momento, mais de 4 milhões de pessoas estiveram presentes aos eventos do Ano do Brasil na França.

Um dos resultados concretos dessa iniciativa, segundo a Embratur, foi o incremento de mais de 25% no fluxo turístico francês em direção ao Brasil, embora o número de franceses que viajam ao exterior permaneça estagnado.

A presença cultural do Brasil numa cidade irradiadora de informação, como Paris, e visitada por um enorme número de turistas de todas as nacionalidades, mostra como é possível, querendo e sendo criativo, ajudar a projetar nosso país como um parceiro moderno, dinâmico e não apenas o país do carnaval.
RUBENS BARBOSA é consultor e presidente do conselho de comércio exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

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