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A reação de Lula está sendo quase tão desastrosa quanto seu governo. Até agora, por sinal, não enfrentou uma entrevista individual, ou ao menos uma coletiva na qual o entrevistado exerce o direito de contestar em detalhes a resposta. Mesmo assim, deu um espetáculo de contradições e evasivas. Disse, por exemplo, que nenhuma denúncia está sendo provada, a começar pela do mensalão. Então o que são todos aqueles depósitos feitos nos bancos Rural e BMG para parlamentares ou seus assessores, por meio de Marcos Valério, um empresário cujos contratos com o governo deram um salto neste mandato e que freqüentava a sala de José Dirceu no Palácio do Planalto? Há provas documentais e testemunhais de cada um desses fatos. Valério falava com Dirceu e em seu nome o tempo todo, inclusive para beneficiar a ex-mulher do ministro.
Em seguida, Lula criticou Delúbio Soares - o sujeito do caixa é sempre quem vai ao sacrifício no lugar dos chefes da máfia - por ter "terceirizado", com Genoino, as finanças do PT. Disse também que caixa 2 é "intolerável". Mas, como mostrou naquela famigerada entrevista de Paris, ele mesmo tolerou tal prática no partido que comanda. Se todos os partidos fazem isso, como supomos que façam, Lula não é menos inimputável. Já a transferência ilegal de recursos para outros partidos, provada neste caso, é outro crime. E o uso de dinheiro público para tanto, outro maior ainda. O único julgamento que cabe a tudo isso é a cassação "política" de Dirceu? E Dirceu já não deveria ter sido demitido quando um de seus principais assessores foi flagrado cobrando propina? Ninguém perguntou, Lula nem precisou enrolar uma resposta.
Lula também disse que não manobra contra as CPIs, o que voltou a fazer no dia seguinte à entrevista. E confirmou que ouviu de Roberto Jefferson a história do "mensalão". Então por que nada fez? Voltou a soltar o bordão de que todos são inocentes até prova em contrário, mas disse ter certeza não só de que o mensalão não existe, mas também de que o assassinato de Celso Daniel foi um crime comum. Como pode ter certeza, se não investigou? Também se mostrou bem familiarizado com as produções da empresa de seu filho, Gamecorp, que recebeu aporte inabitual da Telemar de R$ 2,7 milhões; citou presumidos índices de audiência como se fossem explicações. Nos assuntos econômicos, também não poupou distorções numéricas, como os dados do Caged (que passou a computar as notificações de vagas como se fossem empregos criados), mas não se lembrou de mencionar outro dado: o crescimento do PIB deste ano mal passará de 3%.
Nem é preciso falar dos seus incontáveis erros de português. Ele erra quase todas as concordâncias de número e gênero, troca palavras (o Palácio da Alvorada, por exemplo, precisava de reforma porque tinha "problemas hidrelétricos"), não domina os conceitos. Essas são apenas traduções do contínuo ataque à lógica e à realidade que sai de sua boca. É comum ouvir a justificativa de que isso acontece porque ele não teve oportunidades na vida para ser claro, honesto e bem informado. Não; apenas achou mais conveniente seguir o caminho habitual da política - o caminho da falsa promessa, do assalto à máquina pública, do populismo latino-americano. E durante décadas a "esquerda" jurou que ele era de "esquerda"...
O curioso é como ele se revelou mais indignado com as críticas aos seus deslumbres de poder do que com a má gestão delubiana. Ninguém disse que o AeroLula é seu, presidente. Tal ato falho é significativo. O que se criticou foi o custo do negócio, para não falar da ironia existente na aquisição de um produto das multinacionais que o PT sempre considerou espoliadoras da riqueza nacional. Lula também nada falou sobre educação e saúde. Citou apenas iniciativas aprimoradas do governo FHC, como o Bolsa Família (agora espertamente confundido com o Fome Zero) e a estabilidade monetária. Por fim, reconhece agora que Cuba vive num "miserê" e que falta democracia ao regime de Fidel Castro. "Foi tudo ilusão passageira/ que a brisa primeira levou"? Lula subiu ao poder pela simbologia. Por ela está descendo.
RODAPÉ
Por falar em sonhos que a roda do destino leva, a eclosão de revoltas de jovens descendentes da África árabe (do Magreb; chamados pelos franceses de "pieds-noirs") nos subúrbios de Paris tem sido comparada com os movimentos estudantis de 1968, tema de um excelente livro que estou lendo no momento, 1968 - O Ano Que Abalou o Mundo, de Mark Kurlansky (José Olympio). Mas não tem muito a ver, porque nasceu de uma reação à truculência policial e correu como faísca no rastro do desemprego e da discriminação a que são submetidos. Não é propriamente política, não se volta contra valores de uma geração anterior. É um grito de vontade de integração, ou uma espécie de cobrança histórica semiconsciente pelos séculos de colonialismo europeu.
Por outro lado, como mostra Kurlansky, os acontecimentos em maio de 68 também não foram "orquestrados", como supunham os conservadores; nasceram em reação a medidas punitivas das universidades e do governo, e os líderes foram se estabelecendo informalmente, com destaque para Cohn-Bendit, "Danny le Rouge", o menos ideológico deles, um ruivo libertário, não socialista, dotado de humor e ardor, que não se portava como chefe de ninguém. No livro, ele nota que foram "a primeira geração da televisão", que foi ao ver os outros na tela que o relacionamento se imaginou e se internacionalizou. A energia dos ressentimentos sociais está sempre aí, disponível; quanto mais se fecham os olhos para ela, mais estará à mercê de ideologias e/ou religiões.
Às vezes, por sinal, vejo pessoas dizendo que os grandes crimes contra a humanidade no século 20 não foram cometidos por religiões, e sim por ideologias como o nazismo e o comunismo. Mas a força do nazismo estava justamente em advogar por um "povo eleito", destinado a comandar os outros; e o que era o comunismo senão a promessa de uma sociedade sem conflitos, plenamente igualitária, como um paraíso terreno? A contracultura foi ao mesmo tempo a expressão de uma fase utópica que terminava, para dar lugar a outras utopias, e a renovação de um sistema contra o qual dizia ser, a "democracia burguesa", de consumo, em que o "I can't get no satisfaction" foi convertido em "just do it". Ninguém escreve ironias como a história.
POR QUE NÃO ME UFANO (1)
Olho nos jornais os anúncios de apartamentos em São Paulo e fico pasmo com o padrão de vida que tantas pessoas - das classes média e alta, sobretudo - parecem sonhar para si, ou ao menos se deixar convencer pelas incorporadoras. São quase todos prédios com fachada dita "neoclássica", vidros espelhados, espaço social com cara de clube, dormitórios apertados, domínio do aparelho de TV na sala, número de vagas na garagem superior ao de quartos, etc. Toda a ideologia paulistana da fuga ao convívio em espaços públicos, com sua exaltação do automóvel, com seu gosto pela ostentação, com sua jequice de nomes estrangeiros, se estampa ali.
POR QUE NÃO ME UFANO (2)
Ainda sobre a cultura novo-riquista paulistana: por que praticamente todos os espetáculos - shows, concertos, musicais, óperas, peças - são aplaudidos de pé ao final, como se fossem uma apoteose de talento?
Aforismos sem juízo
Todo gênio é quente e isento.