Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, novembro 08, 2005

Luiz Garcia - Sonhar e poder fazer





O Globo
8/11/2005

Há uma diferença entre ser contra a Alca e ser pessimista em relação à Alca. Não faz muito sentido ser contra o livre comércio: não somos todos a favor da liberdade? A resposta para essa pergunta aparentemente retórica talvez seja um incisivo e definitivo "depende". Principalmente se a idéia parte do leão e precisa ser aprovada por uma assembléia de, com todo o respeito, Bambi e demais bichinhos da floresta.

Na Europa, o movimento que começou como uma união entre alguns países em torno do comércio apenas do carvão e do aço evoluiu para uma união de quase todos em relação a quase tudo. O estágio lá atingido implicou a abdicação do que certamente é um dos mais fortes símbolos nacionais: a moeda própria. E isso aconteceu entre países com sólida identidade, defendida em guerras que duraram até cem anos e além disso protagonistas de dois conflitos mundiais que, francamente, deixam-nos muito mal na opinião de outros planetas. O nosso Hemisfério ainda não deu sinais de que pode repetir esse processo; com certeza, não com alguma rapidez.

Em tese, o livre comércio nas Américas deve ser bom para todos. Desde que o conceito de "livre" seja sinônimo, tanto quanto possível, da idéia de "igual".

Esse raciocínio não é a preparação de uma denúncia das intenções de Washington. Bush pode não merecer confiança, mas a Alca não nasceu com ele, que daqui a pouco tempo sairá de cena, com todos os seus conselheiros da extrema-direita. E a oposição pode estar entregue a um absolutamente inconfiável Chávez — mas, de novo, ela não veio à luz com ele, que também não é eterno.

O governo brasileiro parece ser contra a Alca por ser crítico do governo Bush, admirador do presidente da Venezuela e simpático em relação ao moribundo regime cubano. Mas é bem diferente condenar uma administração em Washington que acaba daqui a pouco e pôr pedras no caminho de uma idéia teoricamente ideal.

Para quem nada entende de economia, faria algum sentido dizer que aceitamos a idéia da Alca, desde que, por favor, sejam-nos dadas garantias de que ela beneficiará o combalido Mercosul.

Também não está determinado até que ponto a falta de perspectivas é provocada pela pouca consistência da diplomacia brasileira. Não ajuda muito achar a Venezuela de hoje um aliado digno de maior atenção do que o Chile — ou mesmo a Argentina. Mesmo que, numa análise diplomática e isenta de preconceitos, Chávez fale alto demais e Kirchner seja um chato de galochas, não?

Enfim, há razões suficientes para pessimismo. Alguns sonhos são impossíveis mesmo — tanto para adolescentes ingênuos como para governos desprovidos de senso prático.

 

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