Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, novembro 15, 2005

Luiz Garcia O direito de denunciar

O GLOBO


Zeca Borges não tem o que os franceses chamam de físico do papel. Parece um senhor bonachão, tomador de chope e bom de papo. Pode até ser tudo isso — mas, principalmente, é a personificação da melhor coisa que a sociedade civil fez até hoje neste país pelo combate ao crime.


Ele é o criador e administrador do Disque-Denúncia, que deu ao cidadão uma arma eficiente de colaboração com a polícia. No caso particular dos seqüestros, a Secretaria de Segurança do Estado do Rio tem aproveitado a ajuda com eficiência: as grandes quadrilhas especializadas em seqüestros de gente graúda foram varridas do mapa. O que não beneficiou apenas os diretamente interessados: o crime em geral perdeu rica fonte de financiamento, e isso é bom para todo mundo.

O seqüestro é crime particularmente vulnerável à denúncia de cidadãos. Exige um cárcere, e isso tende a fazer com que o seqüestrador se torne alvo de suspeitas. Ele é sempre um novo inquilino (não se conhecem casos de seqüestradores que levem o trabalho para casa) com hábitos peculiares e pouco rotineiros. Expõe-se à desconfiança dos vizinhos, e daí à denúncia é um passo.

Para que os cidadãos disquem para denunciar é importante, claro, que saibam que seqüestros andam acontecendo. O que ocorrerá se os meios de comunicação o informarem disso. No Rio, há muitos anos jornais e emissoras de rádio e TV decidiram não dar ouvidos a pedidos de sigilo feitos por famílias de vítimas por exigência de seqüestradores. A experiência mostrou que isso não aumentava os riscos para os seqüestrados, e sim criava um risco insuportável para os bandidos. E, literalmente, esse crime deixou de compensar. Graças, principalmente, à iniciativa e à capacidade de organização de Zeca Borges. Mas também devido a uma decisão acertada da mídia regional. Infelizmente, isso é comprovado também pelo confronto com a atitude dos meios de comunicação de São Paulo, que não apenas atendem a todos os pedidos de sigilo sobre seqüestros como dão pouca importância ao registro de crimes em geral. E lá, mesmo sem o problema das favelas enquistadas em todos os cantos da cidade, crimes como o seqüestro estão em alta. Cada um publica o que acha relevante, e não estou aqui para ensinar o ofício a ninguém. Seria presunção além da quota permitida pela Providência Divina a palpiteiros em letra de fôrma.

Mas tenho certeza de que quase sempre publicar o que mexe com a vida do cidadão é melhor do que abusar de um suposto dever de o proteger de pedaços desagradáveis da realidade. Principalmente quando a proteção excessiva reduz o número daqueles que discam para exercer o direito de denunciar.

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