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Aos políticos é dada certa licença para adaptar as respostas e os pronunciamentos ao que lhes convenha. Lidar intuitivamente com os limites dessa licença é um fatores que mais distinguem os políticos craques e os outros. Lula viciou-se em estourar todos os limites. Talvez nem seja vício, se considerada sua afirmação de que só "eram bravatas" todas as coisas que disse nos 20 anos antes de eleger-se. Mas, como a afirmação foi feita já com sua nova face política e pública, não se sabe se é verdadeira ou parte do exagero de licença ilusionista que o tem caracterizado.
Ilusionista em termos. O objetivo promocional de toda entrevista política deu resultado inverso, no caso das duas a três horas que Lula afinal concedeu, sem restrições prévias, a perguntas de jornalistas. O teor do vasto espaço dado ao assunto nos jornais não permite dúvida de que, para a opinião pública e portanto politicamente, seu desempenho saiu-lhe muito mais desastroso do que benéfico, supondo-se ter sobrado algum benefício. Em cinco das suas páginas mais importantes, "O Globo" dedicou espaços nobres às inverdades ditas por Lula, seguindo-as das respectivas correções. A Folha você viu. São, aí, apenas dois exemplos de uma repercussão generalizada, que nem se interessou muito pela habitual consulta a políticos oposicionistas.
Lula disse barbaridades. Mais de uma vez, chegou a parecer que estivesse fazendo ironia. Não, era apenas o ridículo, no absurdo das inverdades e distorções deliberadas com que parecia, ou supunha mesmo, estar falando a pessoas, além de gentis, idiotas -as sentadas à sua frente e as que se mantiveram, apesar de tudo, sentadas diante da TV. Não praticou a licença admitida nos políticos, mas algo muito mais grave.
Ainda mais grave por ser um comportamento que se repete com freqüência crescente e cada vez maior despropósito. A entrevista, nesse sentido, não mostrou nada de novo. Deu seguimento, só isso, a atitudes idênticas. Na manhã daquela mesma segunda-feira, Lula anunciava no radiofônico "Café com o Presidente" um programa de auxílio financeiro a pescadores que já existe há 13 anos. Mais um dos seus lançamentos de velhas inovações.
Se foi a Assis para mais uma solenidade dispensável, não perdeu a ocasião de dizer que o projeto energético do seu governo vai equiparar-se "a 21% de tudo que se investiu em 122 anos no setor de energia no país". De 1500 a 1622, supõe-se. Ou Lula ignora o que foram, entre outros, os gigantescos investimentos em Furnas e Três de Marias no governo JK, e em Itaipu na ditadura, sem falar na pesquisa e exploração de energia petrolífera? Não ignora, não. O que decidiu dispensar, admitido que não faltasse antes, não é o conhecimento da realidade óbvia.