FSP
A originalidade é a mais apreciável virtude praticada pelas forças do poder atual e seus arredores. É o partido de esquerda que governa com política econômica de direita, são parlamentares decentes que protegem corruptos nas CPIs, é a filósofa partidária que troca a racionalidade pelo emocionalismo, é o presidente-operário que deprime o valor dos salários e das aposentadorias -e vai por aí. Uma criação original a cada dia. A mais recente é particularmente sofisticada: é a explicação do fato exposta antes do fato inesperado.
O autor da explicação, é verdade que sem tal propósito, foi José Dirceu. Contou ele a meia centena de petistas da sua corrente, no sábado retrasado, que Lula "não gosta de ouvir" problemas do governo: "Eu falava: está para estourar uma crise nos transportes, ele vinha com um "olha, Zé, esse negócio aqui", e mudava de assunto" -como reportou Tatiana Farah no "Globo".
Entrou a semana passada e logo os jornais falavam em "crise no governo", vindo de tal "ataque de Dilma Rousseff a Palocci", com ameaça do ministro de deixar a Fazenda, reunião urgente no Planalto, reprimenda de Lula à Dilma, declarações de Aloizio Mercadante pró-Dilma e depois, mudado o vento, pró-Palocci.
Descontados os dois terços de especulação sensacionalista e intriga politiqueira que revestiram o episódio, o que Dilma Rousseff fez foi elaborar e fundamentar, com lucidez, algo que o próprio Lula tem resumido em frases assim: "Os juros já podiam estar mais baixos", "É preciso gastar mais", ambas ditas várias vezes, inclusive há pouco. Mas o pessoal de Palocci intrometeu no noticiário uma pretensa reação quase extremada do ministro, logo amplificada pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que é apenas linha auxiliar de Palocci.
Por que o mais relevante assunto de governo, merecedor de debate que já devia desenvolver-se há muito tempo, se abordado gera "crise", faz Lula adiar uma viagem, leva a noticiário sobre renúncia de Palocci?
A explicação para a onda palocciana já estava na semana anterior, quando confirmada a convocação, pela CPI dos Bingos, de dois integrantes da turma de negócios que integrou a equipe de Palocci na Prefeitura de Ribeirão Preto. Vê-se que Palocci escolheu a dedo os seus circunstantes lá: cada Buratti, Dourado, Poleto & Cia. chamado a depor é um espetáculo de cinismo e maus indícios. Reprise de Buratti e estréia de Poleto no mesmo dia de CPI, em seguida à descoberta 1.400 telefonemas do segundo, com seus negócios inexplicados, para o gabinete do ministro da Fazenda? Daí teriam que ressurgir, sem falta, mais razões para a convocação de Palocci, que tanto teme a ida como as CPIs temem convocá-lo. Aproveitar as ponderações de Dilma Rousseff para propalar disposições de renúncia, com suscetibilidade digna de donzela do século 19, foi uma mensagem de Palocci às CPIs. Cujos integrantes logo transferiram para mais um convescote no Senado, com o ministro como convidado, a responsabilidade de inquiri-lo.
Já vinha também da semana anterior a explicação para a interferência com que Lula impôs censura ao tema suscitado por Dilma Rousseff. Dirceu dera a explicação com quatro dias de antecedência. A derrota do Corinthians para o Boca argentino, tão pouco depois de enxovalhar o Santos com o 7 a 1, era um bom assunto para discutir.
Em falta
Sujeita-se a pelo menos um reparo a contestação de Luiz Gushiken à acusação, saída agora em "IstoÉ/Dinheiro", de que autorizou o "adiantamento" feito pela Visanet à DNA de Marcos Valério. A acusação vem de Henrique Pizzolato, então diretor de marketing do Banco do Brasil e, como tal, responsabilizado pelo "adiantamento".
Gushiken diz que a Visanet não é empresa pública, logo, não estaria sujeita a autorizações da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Mas o Banco do Brasil é acionista da Visanet. Por isso, seu diretor de Marketing detinha o poder de decisão no marketing da Visanet. E esse diretor, por sua vez, estava submetido a orientações e autorizações, centralizadas na Secom, relativas aos gastos de publicidade de setores e empresas federais.
O reparo à nota de Gushiken não avaliza a afirmação de Henrique Pizzolato, o que seria, como no caso de qualquer outra afirmação sua, uma temeridade. Apenas procura mostrar que a questão continua igualmente aberta para os dois lados. Ou seja, não há inocência evidente em mais essa trama.
Inglória
Para dizer o menos, a palavra péssima: foi uma vergonheira o empenho do governo para impedir a prorrogação da CPI dos Correios. Mais uma vez ficou claro o motivo de tanta retenção, pela Fazenda e o Planejamento, de verbas orçamentárias orientadas pelos parlamentares. Nessas horas, as possíveis liberações servem de iscas. Fazem, por exemplo, dezenas de parlamentares retirarem assinaturas de requerimentos indesejado pelo governo.
Como o que menos falta ao deputado Alberto Goldman é esperteza, ele assegurou a permanência da CPI com o truque de entregar duas assinaturas favoráveis no último prazo, invalidando as retiradas de apoio que os dois deputados apresentaram precipitadamente. Solução eficaz, mas inglória para a CPI.
O vale-tudo para tentar o fim da CPI foi determinado pelo mesmo Lula que, até em pronunciamentos no exterior, vangloria o governo por admitir três CPIs no Congresso. "Como nunca houve antes", aproveita ele para mais uma inverdade histórica.
Entrevista:O Estado inteligente
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