Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, novembro 11, 2005

DORA KRAMER A hora e a vez de Palocci

OESP

dkramer@estadao.com.br


Depoimento negociado pode não ser suficiente para evitar convocação na CPI A oposição muniu-se de boa vontade e negociou com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, uma sessão de esclarecimentos na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado em substituição a uma convocação à CPI dos Bingos para responder a denúncias de corrupção envolvendo auxiliares e empresários muito próximos a ele. Mas nem seus mais diletantes defensores entre os oposicionistas acreditam que a solução será definitiva.

Diante do ritmo do aparecimento de indícios e da gravidade de informações sobre irregularidades eleitorais, administrativas e até criminais relativas à gestão de Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto e sua atuação nas operações de arrecadação de recursos para a campanha presidencial de 2002, a avaliação é de que a ida do ministro à comissão será um mero "paliativo".

A expressão é de um senador de oposição franca e assumidamente simpático a Palocci. Segundo o parlamentar, a tolerância oposicionista tem os fatos como limite. Ele resume numa frase a situação do ministro: "Proteger o Palocci mais do que o temos protegido, só o adotando como filho."

A aflição nem é tanto, embora seja também, relativa às acusações já postas, doações ilícitas e ligações escusas de antigos auxiliares seus, como Rogério Buratti e Vladimir Poletto, com trânsito ilegal de dinheiro, incluindo aí os recursos alegadamente enviados de Cuba.

A inquietação é com o que ainda está por surgir. Ninguém expõe as coisas com muita clareza, mas há uma preocupação, resultante de informações que circulam fora da área de influência das CPIs, mais exatamente no Ministério Público, de que novas e mais graves denúncias aparecerão nos depoimentos de Rogério Buratti e Vladimir Poletto na CPI dos Bingos e no desenrolar das investigações.

Se isso se confirmar, a oposição acredita na impossibilidade de evitar a convocação de Palocci ao ambiente severo e animoso da CPI.

Em tese, não deveria haver maiores problemas no fato de um servidor público de primeiro escalão ser chamado a esclarecer acusações numa comissão parlamentar de inquérito. O instrumento, afinal de contas, é institucional.

Na prática, porém, até os oposicionistas reconhecem, significa uma humilhação e, do ponto de vista internacional, até uma exposição com potencial de repercussão negativa para a economia do País.

Senadores do PSDB e do PFL estão cientes disso. Da mesma forma como sabem que qualquer abalo será debitado na conta dos adversários do governo sob o argumento de tentativa de desestabilização econômica.

Daí o dilema: ou a oposição assume o risco dessa responsabilização ou se expõe a ser apontada como conivente por ter deliberadamente tentado proteger um ministro envolvido em irregularidades só para posar à opinião pública como oposição responsável, diferente do PT no passado.

No balanço de perdas e ganhos, se se confirmarem mesmo as informações sobre novas denúncias, a tendência é concluir pela maior gravidade das acusações em si do que pelo simbolismo do gesto da convocação.

Por esse raciocínio, seria mais prejudicial o País firmar no exterior a imagem de que por aqui para tudo se dá um jeito, mesmo não sendo a causa nobre.

Bombardeio

Mesmo na Comissão de Assuntos Econômicos, longe do terreno espinhoso da CPI, o ministro Palocci não encontrará o abrigo risonho e franco que poderia esperar em outros tempos.

Será dura e detalhadamente questionado. Bombardeado seria o termo mais adequado ao clima.

Fio terra

Ao contrário dos devaneios de inocência que assolam espíritos governistas em geral, no gabinete do ministro da Fazenda há plena consciência das dificuldades em curso.

Antonio Palocci, testemunha colega de governo dono de percepção objetiva dos fatos, sabe que está "sob fogo cerrado" e, por isso, anda abatido.

Por ora não fala em deixar o governo, até porque ainda acredita tratar-se apenas de uma fase ruim. "Vou apanhar uns 15 dias", prevê.

Em órbita

Contrariando a constatação geral, o PT e o governo viram o presidente Luiz Inácio da Silva em grande forma na entrevista do Roda Viva.

O fato de ninguém ter acreditado na palavra do presidente não abalou as convicções governistas de que, se usarem as mesmas lentes para balizar o discurso eleitoral, podem se tornar um fator de alto risco no tocante à necessidade de o candidato conquistar a confiança do eleitor.

Pode não ser

Por mais que à oposição seja interessante afirmar e reafirmar que o presidente Lula é candidatíssimo à reeleição, isso reflete mais um desejo - baseado no pressuposto de que ele será fácil de derrotar - do que uma convicção.

Dentro do governo há conselheiros presidenciais levando em conta, a sério, a hipótese da desistência.

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