Entrevista:O Estado inteligente

domingo, outubro 05, 2008

Pacote restabelece confiança e ajuda a economia Alberto Tamer

O Congresso americano aprovou, afinal, o pacote de US$ 700 bilhões de ajuda ao sistema financeiro. Todo mundo aplaudiu, mas ninguém se entusiasmou, porque já era esperado desde a votação do Senado e é mais que evidente que os resultados das empresas devem ser lentos. A aprovação já estava nos preços dos ativos, principalmente ações, que são mais sensíveis, líquidas e voláteis. Tanto que as bolsas americana e brasileira subiram de manhã, com as apostas no sim, e caiu após a aprovação, com vendas para realizar lucros.

Outro motivo foi que na mesma sexta-feira saíram indicadores negativos mostrando que a economia americana está sendo mais atingida do que se previa. O número de desempregados cresceu, mesmo com o índice mantido em 6,1%; isso se explica pelo fato de que muitos que perderam recentemente o emprego ainda não se inscreveram para receber o auxílio. E os economistas esperam mais dados negativos nas próximas semanas.

ATRASO PESOU MUITO

Mas esse atraso de duas semanas provocado pela politicagem da maioria dos deputados americanos pesou muito. "É provável que isso (a aprovação do pacote) veio um pouco tarde. Se tivesse vindo mais cedo, provavelmente teria havido impacto muito maior no restabelecimento da confiança. Nas duas últimas semanas o que vimos foi uma acumulação de relatórios fracos", afirma à Reuters Anna Piretti, economista do BNP Paribas em Nova York, refletindo a impressão de muitos.

MAS O PACOTE É DECISIVO

Mesmo assim, todos em Wall Street, na tarde de sexta-feira, concordavam que, atrasado ou não, o pacote veio em tempo e vai ajudar a restabelecer a confiança no sistema e o crédito. "Todos sentem que tinha de ser feito. O pacote não cura os males da economia, mas estabiliza o mercado", afirma ao Wall Street Journal Frank Lesh, analista da Futurepath Trading. Agora, diz ele, vamos cuidar dos fundamentos. Quais?

As condições do crédito pioraram muito nas últimas três semanas (duas das quais travadas pela Câmara dos EUA), afirma Lorenzo Di Mattia, gerente de um grande fundo de hedge.

Alguns estimavam que o Tesouro e o Fed teriam tudo regulamentado em 40 dias, mas o efeito tranqüilizador da medida deverá ser sentido logo, pois já se sabe que os títulos tóxicos sairão do mercado pelo menos em dois anos. No fundo, diziam, o grande mérito da aprovação do pacote foi dar ao governo um instrumento de ação novo e de efeito imediato, ajudando a elevar o nível geral de confiança nas instituições.

NÃO SERÁ FÁCIL, MAS POSSÍVEL


Os dados mostram que será uma tarefa hercúlea. O Fed, banco central americano, informou na quinta-feira que, na semana, a situação do crédito havia piorado muito. Os bancos reduziram em US$ 94,9 bilhões seus empréstimos em curto prazo a empresas.Nas últimas quatro semanas, esse tipo de crédito caiu nada menos que US$ 208 bilhões. E é exatamente o tipo de dinheiro que as empresas precisam para operações diárias. Ainda de acordo com o Fed, citado pelo Wall Street Journal, há um ano esses empréstimos totalizavam US$ 2,2 trilhões, e agora apenas US$ 1,6 trilhão, coisa nunca vista no mercado. Grandes empresas, inclusive automobilísticas, têm sido obrigadas a recorrer ao governo. E, para agravar, na sexta-feira, até o Estado da Califórnia, um dos mais ricos do país, informou ao Tesouro que ia precisar de uma linha de crédito, o que repercutiu negativamente no humor do mercado.

Os bancos e demais instituições só deverão voltar a restabelecer as linhas de crédito quando tiverem a certeza de que, se necessário, podem contar com o Tesouro e o Fed. E isso está garantido com a aprovação do pacote de US$ 700 bilhões, pelo qual poderão tirar títulos duvidosos de seus passivos. O restabelecimento dessa mesma confiança vai permitir também que, além dos bancos, empresas voltem a lançar títulos no mercado. Com isso, o pacote aumenta a credibilidade do governo, do sistema, das empresas e a confiança do consumidor.

JURO MENOR TAMBÉM

Na tarde de sexta-feira, falava-se em Wall Street de nova redução da taxa de juros do Fed, o que poderia ocorrer mesmo antes da próxima reunião, no fim do mês. Isso será marginal no alívio das tensões financeiras, mas pesará muito nas decisões de compra do consumidor, com reflexos posteriores sobre a retomada do crescimento.

E a inflação? Aqui, há - enfim - uma boa noticia.Os preços das commodities, principalmente o petróleo, estão recuando por causa da própria dinâmica da desaceleração econômica. Com isso, vem se reduzindo as pressões sobre a inflação.

NÓS? VAMOS QUE VAMOS...


Então está tudo bem? Não. O pacote foi decisivo, é o início do bom caminho, mas cheio de obstáculos. A economia mundial terá de passar por uma forte retração, mas ainda resiste. Há, agora, novos instrumentos para conter o processo de contaminação.

Quanto a nós, vamos crescer 5% este ano, bem menos no próximo, Mas a grande e feliz novidade é que Lula rejeitou o seu passado e está seguindo o que os técnicos, dentro e fora do governo, recomendam. Errou horrivelmente quatro anos, mas agora acertou. E, cá entre nós, já não é muita sorte?....

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