Entrevista:O Estado inteligente

sábado, abril 07, 2007

Miriam Leitão Febre do milho

Os Estados Unidos comem milho no café da manhã, almoço e jantar. Os cereais matinais são corn (milho), os refrigerantes são adoçados com xarope de milho.

A carne que comem é de animais que foram alimentados com ração também de milho. No fim de semana, vão ao cinema e comem baldes de milho, a pipoca ou popcorn. Com o etanol, que lá é de milho, os preços do grão subiram, e a soja está indo junto.

O presidente George Bush disse, tempos atrás, que os Estados Unidos são viciados em petróleo. E são. O problema é que o etanol, que vai reduzir essa dependência, é feito exatamente de outro produto largamente consumido. Os americanos são também milho-dependentes. É o que a própria imprensa americana tem dito. “Existe cor n flakes, corn chips, corn nuts e centenas de outros alimentos que nem têm ‘corn’ no nome. Há milho na cerveja e no whisky. E não se esqueçam do xarope de milho, um adoçante que é usado em refrigerantes e balas”, registrou uma divertida reportagem da Associated Press.

Como o governo tem dado o incentivo de US$ 0,51 por galão de etanol, há uma febre de produção de milho para fazer combustível. O resultado é que o milho dobrou de preço ao longo de 2006 e continua subindo.

Isso afeta outros produtos; não existem compartimentos estanques em economia.

O Departamento de Agricultura já avisou que os preços das carnes bovina e suína e das aves vão subir graças à demanda por milho para etanol. Esta semana, o departamento divulgou seu relatório mostrando que a área de plantação de milho avançou sobre a da soja em cinco milhões de hectares. Isso explica a alta da soja. O algodão também pode ser afetado, segundo especialistas americanos.

Os efeitos do aumento da demanda pelo milho atingem vários setores. Segundo o economista Bruno Levacov, da Investidor Profissional, o mercado de milho não é tão internacional como o da soja. Assim sendo, o preço subiu forte lá, mas não subiu aqui na mesma proporção.

Isso faz com que o nosso frango tenha chance de ficar mais competitivo.

A maior parte do milho produzido nos Estados Unidos é para alimentação e uma pequena parcela para os outros usos. Isso deve mudar agora que eles vão produzir combustível de milho. Essa é uma das várias razões da irracionalidade da decisão americana: o milho é pouco produtivo quando comparado à canadeaçúcar; precisa de doses maciças de subsídio, numa conta que tende a ficar cada vez mais alta quanto mais se produza, e tudo isso em torno de um produto do qual dependem diretamente para a alimentação.

A tendência, portanto, de preço de milho em alta e, em conseqüência, de soja também. Os EUA são o maior produtor de milho do mundo com cerca de 42% da produção mundial, mas são os maiores exportadores também, responsáveis por algo como 63% do comércio global de milho (veja gráfico).

A febre do milho vai mais longe. Ela afeta, por tabela, os mexicanos, que também são grandes comedores de milho, com o qual preparam as tor tillas. O popular alimento subiu tanto que isso afetou a inflação do país fez o governo negociar um acordo de manutenção dos preços com os produtores.

O álcool de celulose é nova fronteira, mas, até ser comercial, vai demorar. Enquanto isso, a produção americana vai crescendo, o país vai virando um enorme milharal. Não apenas o estado de Iowa, centro do corn belt, mas ele se espalha por vários outros estados do meio oeste.

Na capital do livre comércio e da economia privada, situação é assim: o governo subsidia fortemente a produção de milho para fazer energia, barra com muros tarifários gigantescos o etanol brasileiro e põe todo o seu esforço de substituição de combustível fóssil em cima de uma matéria-prima que está profundamente presente nos seus hábitos alimentares. Se a chamada “mão invisível” fizer seu trabalho livremente, os preços só tendem a subir.

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