Entrevista:O Estado inteligente

sábado, setembro 23, 2006

Míriam Leitão - Dados e política

O Globo

Desde o início desta campanha, o ponto fraco do ex-governador Geraldo
Alckmin tem sido a violência, e o do presidente Lula, a corrupção.
Nesta semana, o noticiário favoreceu a oposição: o governo divulgou,
a contragosto, dados mostrando queda de violência em São Paulo; e o
escândalo "dossiegate" mostrou o governo Lula e o PT mais afundados
em atividades irregulares.

A segurança tem sido um tema da campanha por fortes motivos. A
população da maior cidade do país foi aterrorizada quatro vezes por
ataques coordenados por bandidos dentro das cadeias. O ex-governador
Alckmin, na defensiva, explicou que o fato de ter sido bem-sucedido
no combate ao crime provocou uma reação dos criminosos. Ele não podia
ter previsto e tomado medidas preventivas? Foi o que perguntei na
entrevista do "Bom Dia Brasil", e Alckmin repetiu que derrubou os
números da violência.

Durante a semana, a confirmação dos bons resultados da sua gestão na
segurança veio de onde menos se esperava: do governo, que teve de
divulgar dados que tentava guardar para depois das eleições. A
Secretaria Nacional de Segurança Pública, que havia tido uma
excelente iniciativa de construir um Mapa das Ocorrências Criminais,
compilando dados das polícias civis e militares do Brasil inteiro,
não divulgou a contabilização feita quando ela ficou pronta em
relação ao ano de 2004.

A explicação dada pela Secretaria era que estava esperando completar
os dados de 2005 para então divulgar os números de janeiro de 2004 a
dezembro de 2005. Pouco crível a explicação. A mim, o secretário de
Segurança Pública, Luiz Fernando Corrêa, disse que divulgaria em três
semanas, e passaram-se três meses. Na quinta-feira, ele me telefonou
e disse que entrasse no site: lá estavam os dados.

Esse atraso levantou a dúvida sobre a escolha política do cronograma
de divulgação. Olhados politicamente, pode-se dizer que os números
mostram um bom quadro para São Paulo no pior dado de violência, os
"crimes violentos letais e intencionais". Houve queda de 18%, quando,
no Brasil, nada melhorou. O Rio é o pior caso. No ranking das mais
violentas cidades com mais de 100 mil habitantes, nenhuma é de São
Paulo. Mas há uma informação estranha no mapa. Segundo o relatório,
São Paulo não informou o número de seqüestros, um crime que aumentou
bastante no Brasil todo. Nós da coluna conversamos com os dois lados
e as versões são opostas.

A Secretaria Nacional de Segurança Pública diz que São Paulo não
forneceu os dados de extorsão mediante seqüestro, nem os de atentado
violento ao pudor. Já o responsável pela Coordenadoria de Análise e
Planejamento da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, Túlio
Khan, contesta a informação dizendo que os dados são enviados
mensalmente à Secretaria Nacional. Na página da Secretaria de São
Paulo, de fato, é possível ver os dados trimestrais até o meio deste
ano, porém a Secretaria Nacional afirma que isso não tem nada a ver
com a informação que deve ser pas$através do programa do Ministério
da Justiça. Em suma: o Ministério diz que São Paulo não entregou os
dados e São Paulo diz que, sim, enviou as informações. A guerra de
dados entre grupos políticos diferentes é nociva ao país,
principalmente com um tema delicado e preocupante.

O professor Gláucio Soares, do Iuperj, acha que, olhando os dados, é
difícil entender as razões da demora na divulgação do mapa pelo
governo federal. Havia uma irritação entre outros especialistas em
violência, mas Gláucio esteve particularmente irado com o atraso e as
desculpas que sempre recebia quando cobrava a divulgação:

— É difícil entender a demora na divulgação dos dados sobre crime e
violência no Brasil. Buscando motivações políticas, o que encontramos
é a situação deplorável de alguns estados administrados pelo PMDB —
comenta o professor.

Ele ressalta que algumas cidades administradas pelo PT saem-se bem na
relação, como a sempre falada Diadema (SP). Mas que nove dos dez
municípios mais violentos com mais de 100 mil habitantes ficam em
estados administrados pelo PMDB: Paraná, Rio de Janeiro e Pernambuco.

— Na lista, vemos que, entre as 35 cidades mais violentas do país em
2005, não há uma só em São Paulo ou em Minas Gerais, dois importantes
estados administrados por tucanos. Por outro lado, 13 estão no Rio de
Janeiro, seis estão em Pernambuco e outras seis no Paraná; 25 das 35
nesses três estados. É a concentração da catástrofe em três estados e
em um partido — diz Gláucio Soares.

Nos outros crimes, não-letais, há grande concentração em São Paulo,
mas, quando se olha o dado relativamente ao tamanho da população, ou
seja, na taxa de crimes por 100 mil habitantes, São Paulo não está
entre os primeiros. Por exemplo: tentativa de homicídio, estupro,
tortura, atentado violento ao pudor: 30% dos crimes acontecem em São
Paulo e Minas. Mas na lista por cidades com mais de 100 mil
habitantes, não existe nenhuma cidade de São Paulo entre as dez mais
violentas e apenas uma cidade mineira, Governador Valadares, que é a
terceira depois de Rondonópolis e Rio Branco.

Quando se comparam os dados de 2004 e 2005, explica Gláucio, nota-se
um forte aumento dos crimes no Paraná, que subiram de 36,4 para 57,4
por 100 mil habitantes nos dois anos. Já em São Paulo, houve queda de
23,9 para 18,9 por 100 mil habitantes. Mas a taxa do Rio é de 61,5, o
que é 325% mais alta que a taxa de São Paulo. É tão absurdo que,
apesar da diferença de população, em números absolutos há mais crimes
violentos letais intencionais no Rio que em São Paulo.

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