Entrevista:O Estado inteligente

sábado, setembro 23, 2006

DORA KRAMER Blindagem trincada

Estado

Lula pode até ser presidente mais 4 anos, mas o será como cidadão sob
suspeita

Ganhando ou perdendo a eleição, o presidente Luiz Inácio da Silva é
um cidadão sob suspeita. Sua biografia que, ao menos para consumo
externo, foi ao longo de sua vida política um livro em branco no
tocante a malfeitorias de ordem pública, ganha máculas e poderá vir a
assumir contornos de folha corrida a depender da conclusão das
inúmeras investigações em curso.

Todas elas fazem parte do passivo que se acumula e, mais cedo ou mais
tarde, lhe será cobrado. Seja como participante ou mandante direto,
seja como responsável civil pelas ocorrências num governo sob seu
comando. E, em matéria de ocorrências, o plantel é vasto.

Vai do ainda não resolvido caso Waldomiro Diniz até o recente
escândalo do dossiê Vedoin e seus derivativos, como repasses de
verbas públicas para ONGs amigas até movimentação de dinheiro de
origem não explicada, passando pela investigação do superfaturamento
de cartilhas-exaltação aos feitos governamentais e, complicação das
complicações, o processo já na Justiça sobre a 'organização
criminosa' que, segundo o procurador-geral da República, armou-se
para manter o PT no poder.

O escândalo mais recente não é, no conteúdo, muito diferente de todos
esses outros que, em última análise, pesam sobre as costas de Lula. O
quadro agora se agravou porque, em função do acúmulo de acusações e
de reações semelhantes por parte dos acusados, a imprensa, a oposição
e boa parte da população pararam de dar tratamento condescendente ao
presidente da República. Houve uma espécie de basta no faz-de-conta
até então em vigor.

A blindagem em torno de Lula foi trincada não porque apareceram
envolvidas em ilegalidades pessoas de sua convivência profissional e
pessoal. Isso desde o primeiro caso aconteceu.

Em termos de governo, não existe nada mais próximo que a Casa Civil,
onde estava lotado o escroque flagrado tentando extorquir um bicheiro
- ou 'empresário do jogo', como prefere Carlos Cachoeira na
apresentação de suas credenciais - e, em matéria de política e poder,
ninguém mais ligado a ele que José Dirceu, o cabeça do pragmatismo
dos fins justificam os meios no PT.

De lá para cá, tudo o que aconteceu teve óbvia relação com o
presidente da República porque obviamente é ele o maior beneficiário
de todas as ações e, ao mesmo tempo, é ele quem permite aos
companheiros se beneficiarem da conquista do poder. Trata-se de uma
constatação meridiana.

Mas até o caso do dossiê havia como um acordo tácito - baseado em
parte no desejo de não se acreditar que Lula, o símbolo, pudesse ter
desvios de caráter, em parte no receio de enfrentar as coisas como
elas são por conta das conseqüências institucionais imprevisíveis -
de preservação da figura presidencial.

Isso não é mau. Ao contrário. Assunto dessa gravidade, tendo em jogo
o País, deve ser mesmo tratado com toda prudência e paciência
possíveis. Aventar a possibilidade de remoção, mesmo constitucional,
de um presidente não é assunto corriqueiro: é preciso dar tempo ao
tempo e deixar a própria dinâmica dos acontecimentos cuidar de
estabelecer os limites.

O flagrante da armação eleitoral funcionou como uma espécie de gota
d'água que, ao cair no copo cheio até a boca, transbordou, dando por
finda qualquer cerimônia no trato da questão.

As mentiras repetidas, os truques reciclados, os argumentos gastos,
tudo isso esgotou o patrimônio de tolerância de que ainda dispunha o
presidente, cuja certeza de que o mundo lhe deve a existência o levou
à exorbitância.

Isso não tem nada a ver com popularidade. Diz respeito à
credibilidade. Esta se perde aos poucos mas, ao contrário daquela,
não se recupera.

Ato ou falha

Do líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia, em artigo
ontem na Folha de S. Paulo: 'O escândalo das ambulâncias começou e
prosperou sob a guarda do governo FHC. Foi agora desbaratado, mas,
infelizmente, por ação de alguns incautos acabou respingando no PT.'

Quer dizer, o problema não foi o crime, mas o fato de os operadores
terem sido incautos. Se prudentes e eficientes, não acabaria
'respingando no PT'.


Piscou

Enquanto a lama chama atenção em Brasília, no Amapá vai se
configurando uma possibilidade política inusitada longe dos olhos da
imprensa nacional: a derrota de José Sarney para a novata Cristina
Almeida na eleição para o Senado no Amapá.

Sarney sentiu o golpe e trocou - depois que a adversária saiu de
índices pífios nas pesquisas para um quase empate de 40% a 47% - os
produtores do horário eleitoral na televisão. Convocou profissionais
para substituir os 'amigos jornalistas de Macapá' que vinham fazendo
o programa.

Oligarca da política no Maranhão que faz do Amapá uma espécie de
'puxadinho' eleitoral para assegurar seus mandatos, o senador achou
que era fácil, foi surpreendido e a desafiante pôs o dedo na ferida:
'Sarney nunca levou o Amapá a sério mesmo. Ele sempre nos considerou
um curral eleitoral sem importância.'

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