Entrevista:O Estado inteligente

sábado, setembro 23, 2006

O Islã contra o papa

VEJA Religião

Jihad contra Bento XVI

Reação a comentário do papa
vira maré de intolerância islâmica



Diogo Schelp


Loay Abu Haykel/Reuters


Pier Paolo Cito/AP


Protesto palestino contra o papa na Cisjordânia: igrejas queimadas e ameaças de morte
Bento XVI no palácio de verão, em Roma: pedido de perdão por ter sido mal compreendido

A cena é familiar: muçulmanos em fúria pedindo, literalmente, a cabeça de alguém. Estão sedentos de sangue, desta vez, por causa de uma citação medieval feita pelo papa Bento XVI numa aula magna proferida na Universidade de Regensburg, na Alemanha, há duas semanas. O papa defendia a tese de que a fé deve andar de mãos dadas com a razão, não com a violência. Para exemplificar, citou Manuel II Paleólogo, imperador bizantino do século XIV. "Mostre-me o que Maomé trouxe de novo e encontraremos apenas coisas más e desumanas, como a ordem para espalhar pela espada a fé que ele pregava", disse o imperador a um intelectual muçulmano. Apesar de o papa ter deixado claro que não necessariamente concordava com o imperador, suas palavras foram rapidamente tiradas do contexto e divulgadas como uma ofensa direta ao Islã e seu profeta.

Antes mesmo que o texto pudesse ser traduzido para o árabe ou outra língua acessível à maioria da população muçulmana, multidões enfurecidas atiçadas pelos clérigos belicosos tomavam as ruas no Paquistão, na Indonésia e em quase todo o Oriente Médio. Na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, palestinos atacaram com coquetéis molotov sete igrejas cristãs (nenhuma delas católica), queimando totalmente duas delas. Na Somália, uma freira foi morta a tiros dias depois de o xeque Abubakar Hassan Malin, a principal autoridade religiosa do país, orientar os fiéis a matar cristãos em represália. Desde então, o papa já explicou duas vezes que foi mal interpretado, que respeita o Islã e que quer manter o diálogo com os representantes dessa religião. Os apelos e pedidos de desculpas só enfureceram ainda mais os mulás. Tudo isso parece familiar porque há poucos meses se viu uma reação igualmente exacerbada depois que um jornal dinamarquês publicou charges sobre o profeta Maomé. Os protestos então causaram a morte de mais de 100 pessoas, na maioria muçulmanos.

Há duas questões centrais na crise gerada pelas palavras de Manuel II, um imperador infeliz que foi por anos refém no castelo do sultão otomano. A primeira refere-se à intenção de Bento XVI ao escolher exatamente essa citação. É a menos relevante, pois diz respeito ao direito de o pontífice expressar suas opiniões. A segunda, mais séria, são os fanáticos que atacam embaixadas, colocam fogo em igrejas e querem a cabeça do papa. "Um imã pode dizer coisas terríveis sobre o cristianismo, mas ninguém sairá às ruas em protestos violentos, por uma razão muito simples: as liberdades religiosa e de expressão são valores elementares nas sociedades ocidentais", disse a VEJA o americano Philip Cunningham, professor de teologia do Boston College, nos Estados Unidos. Por que a recíproca não é verdadeira? As explicações para essa questão convergem para um único ponto: o pensamento moderno, que inclui os valores de liberdade, tolerância e direitos humanos, está defasado na maior parte do mundo islâmico.

O próprio Bento XVI tratou desse tema quando era cardeal e comandava a Congregação para a Doutrina da Fé. Em entrevista para o livro O Sal da Terra, de 1996, Ratzinger disse que a dificuldade de dialogar com o Islã reside no fato de a religião de Maomé desconhecer a separação entre política e fé. "Não se trata de uma confissão que possa se inserir no espaço liberal da comunidade pluralista. Quando é apresentado dessa maneira, como às vezes acontece, o Islã torna-se uma declinação de um modelo cristão e deixa de ser o que realmente é", disse o então cardeal Ratzinger. No discurso na Alemanha, o papa tocou num ponto delicado – o conceito de jihad, ou guerra santa. É perfeitamente natural que um muçulmano veja hipocrisia no discurso do papa, visto o passado da Igreja. Num episódio sempre lembrado como prova de que a barbárie em nome de Deus não é monopólio islâmico, os cruzados massacraram 30.000 muçulmanos e judeus ao tomar Jerusalém, em 1099. A diferença é que a Igreja de Cristo cumpriu toda uma lenta e dolorosa trajetória evolutiva para quebrar a adesão à conquista violenta e à intolerância religiosa. No Islã, a jihad continua a ser vista como dever básico do fiel.

O mundo cristão passou por transformações que não ocorreram no Islã: a reforma protestante e o iluminismo, que deram impulso às noções de liberdade e racionalidade. Desde o ataque às Torres Gêmeas de Nova York, há cinco anos, o mundo se pergunta se o Islã é ou não capaz de se reformar, como fez a Igreja Católica, e se tornar tolerante com a divergência de pensamento. A ira contra o papa mostra que falta do lado muçulmano um esforço maior para diferenciar a minoria de fanáticos da maioria que se supõe seja de pessoas razoáveis e pacíficas. A fúria generalizada e os gritos de guerra santa geram a impressão de que o fanatismo é a única face do Islã. "A sociedade islâmica está passando por um dos piores momentos de sua história", disse a VEJA a canadense Maya Schatzmiller, especialista em islamismo da Universidade de Ontário Ocidental. "Em parte, isso se deve ao alto nível de pobreza e analfabetismo no mundo árabe, que deixa a população vulnerável à influência de líderes radicais", entende Maya.

João Paulo II inovou ao iniciar o diálogo ecumênico com as outras religiões. Bento XVI quer continuar esse diálogo, mas já deixou claro que não abre mão de dois princípios básicos. O primeiro é a recusa do relativismo, segundo o qual toda religião contém a verdade. O papa acredita que a doutrina cristã é superior às demais (se não acreditasse nisso, não poderia ser papa). O segundo é a reciprocidade. Por esse conceito, Bento XVI argumenta que, se os muçulmanos têm liberdade religiosa no Ocidente, os cristãos devem ser tratados da mesma forma no mundo islâmico. Nesse particular, as palavras do papa, claramente, serão ignoradas.

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