O presidente Lula volta a comandar a reação do governo no caso do dossiê contra os tucanos, dando o tom e a medida certos para os interesses petistas, assim como fez no caso do mensalão, ao assumir a tese de que se tratava de caixa dois de campanha eleitoral. Como quem repudia a ação, Lula insiste em duas teses, que estão nas bocas de todos os governistas: não interessava a ele, que já estaria com a eleição ganha, provocar nenhuma turbulência política, e o conteúdo do dossiê precisa ser investigado.
Com isso, ao mesmo tempo que apresenta uma afirmação aparentemente lógica para isentarse de culpa, Lula mantém no ar insinuações, principalmente contra José Serra, o candidato do PSDB a governador de São Paulo que também tem a eleição praticamente garantida.
Mas, se aparenta ser um comentário lógico, é muito simplista para um problema tão grave. Para começar, ninguém fez nada propositalmente contra a candidatura de Lula à Presidência. Ela foi atingida por esse novo escândalo simplesmente porque a operação deu errado e foi abortada.
Se tivesse dado certo, não haveria prejuízo para Lula, ao contrário, a candidatura tucana de Alckmin estaria definitivamente enterrada — como, aliás, escreveu em seu blog o ex-todo-poderoso do governo, e ainda poderoso petista José Dirceu, logo após a divulgação da entrevista da “IstoÉ” arranjada por um membro de seu grupo político.
Ao mesmo tempo, PT teria uma chance de derrotar o PSDB em São Paulo, onde se disputa o poder nacional palmo a palmo, com ampla vantagem para os tucanos nos últimos anos. O presidente Lula não precisa ter dado a ordem, nem ter sido consultado sobre a operação, para ser responsável por ela.
No caso da tentativa de assassinato de líder udenista Carlos Lacerda, planejada pelo chefe da guarda de segurança de Getúlio Vargas, o “anjo negro” Gregório Fortunato, não há dúvida de que o presidente não sabia do que estava sendo tramado nos bastidores do Palácio do Catete.
Mas não há dúvida de que, como acontece agora com os assessores de Lula, Gregório usufruía de poder muito maior do que a importância de seu cargo.
Gregório nomeava e demitia, fazia negócios envolvendo o governo e ganhava comissões, sem que o presidente Vargas soubesse do que se passava, alheio a tudo naqueles momentos. Mesmo que Lula não tenha sabido de nada nesse caso específico do dossiê, ele certamente não emitiu sinais claros o suficiente para seus auxiliares mais próximos de que não toleraria transgressões à lei.
Especialmente depois do mensalão. Ontem, na entrevista ao “Bom dia, Brasil”, o presidente disse que em sua vida pública nunca aceitou esse tipo de atitude.
No entanto, tantas transgressões ocorreram nos gabinetes mais próximos do seu, e com assessores que privavam de sua mais íntima convivência há tantos anos, que não é possível imaginar que em algum momento, nesses anos todos, o presidente tenha dado exemplo de não compactuar com esse tipo de ação. Ao contrário, o que se tem são relatos desde os anos 90 de um Lula liderando pessoalmente as ações do PT, e até mesmo a arrecadação de contribuições partidárias nas prefeituras petistas.
O ex-petista Paulo de Tarso Wenceslau, dos primeiros a denunciar os métodos ilegais de arrecadação de recursos nas prefeituras paulistas, conta que uma vez Lula entrou em seu gabinete com um charuto na boca para cobrar mais eficiência nessa arrecadação.
E quando seu compadre Roberto Teixeira foi denunciado por estar fazendo negociatas com diversas prefeituras, foi Lula quem tratou de abafar o caso pessoalmente. Aliás, é por esse tipo de negociata com a máfia do lixo em Ribeirão Preto, quando era prefeito da cidade, que o ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, está sendo denunciado.
Quanto às insinuações de Lula e demais petistas de que o tal dossiê contra Alckmin e Serra tem que ser investigado, a atitude do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, de permitir a divulgação dos vídeos e das fotos acabou favorecendo que se soubesse do que se trata: flagrantes de solenidades públicas em que especialmente Serra aparece, quando ministro da Saúde, entregando ambulâncias ladeado de diversos deputados envolvidos com a máfia dos sanguessugas.
Nada mais natural que um ministro da Saúde participar de uma cerimônia dessas.
Não há um documento que prove algum tipo de envolvimento do Ministério da Saúde da época com o esquema que foi denunciado agora. O CDRom que conteria os tais documentos estava vazio, isso dito em depoimento na Polícia Federal por um dos “compradores” do PT.
O que montaram, na verdade, foi uma operação casada, que só teria algum sentido se os pseudo-fatos fossem divulgados em seqüência: primeiro uma entrevista dos Vedoin acusando Serra, depois de terem tido todas as oportunidades para fazê-lo na CPI, inclusive com perguntas diretas feitas por deputados petistas, e terem inocentado o ex-ministro completamente. As fotos e vídeos seriam uma complementação da entrevista, como a atestar a plausibilidade das denúncias.
O esquema furou, a bomba estourou na cara dos que armaram a trampa, e não há dossiê algum a divulgar, e muito menos a analisar. A única coisa que falta desvendar é a procedência do dinheiro.
Mas isso o ministro Thomaz Bastos, por maior que seja a sofisticação tecnológica de nosso sistema bancário, considera difícil de descobrir antes das eleições.
E também para não “contaminar” as eleições, ele guardou na própria gaveta as fotos da montanha de dinheiro vivo que formava a quantia de R$ 1,7 milhão que os petistas pagariam pela armação. As fotos e os vídeos que supostamente prejudicariam os candidatos tucanos, e, portanto, também poderiam interferir nas eleições, foram liberados pela Polícia Federal. Dois pesos e duas medidas sintomáticos.
Entrevista:O Estado inteligente
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