Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, setembro 22, 2006

Luiz Garcia - Henrique II, Vargas, Lula?

A História tem o hábito preguiçoso de se repetir — como já se disse repetidas vezes.

A inacreditável trapalhada (talvez seja mais adequado adjetivá-la também como sinistra) da compra de um dossiê fajuto pelo assessor íntimo Freud Godoy lembra, como já se disse, o atentado contra Carlos Lacerda, em 1954. E tem outro precedente mais ilustre. Nos dois casos, o parentesco só será aceitável caso Freud tenha mesmo tentado adivinhar os desejos do chefe. E não cumprido uma missão recebida.

Meio século atrás, Lacerda fustigava o Catete com pesadas acusações de corrupção. Membros importantes do governo (isso foi comprovado, até com nomes) diziam, em desabafos nos corredores do palácio, que alguém precisava dar um jeito naquele sujeito insuportável. Gregório Fortunato era o chefe dos guarda-costas de Getúlio Vargas, totalmente devotado ao caudilho. Tomou a si executar a missão que ninguém realmente encomendara.

O atentado fracassou, mas um major da FAB foi assassinado, e investigações conduzidas pela Aeronáutica, com quartel-general na base do Galeão, desvendaram a trama.

Na prática, embora acusações e boatos fossem bem mais longe — ajudando a provocar o suicídio de Getúlio —, só Gregório e seus auxiliares foram processados e condenados.

O outro episódio tem crônica mais ilustre. Em 1170, na Inglaterra, o rei Henrique II estava por aqui com o arcebispo de Canterbury, Thomas Becket, ex-amigo íntimo que cobrava uma insuportável obediência às exigências de Roma.

Dizem as crônicas (e também uma maravilhosa peça de T. S. Eliot) que o rei se lamentava aos brados: “Ninguém me livrará desse padre turbulento?” Quatro nobres da corte — erradamente, segundo os historiadores mdash; entenderam as queixas como encomenda, e despacharam o arcebispo em sua catedral.

Os dois episódios poderiam ser pano de fundo para uma defesa do presidente Lula no caso do dossiê. Amigos e subordinados teriam desejado poupar o chefe da frustração de ver São Paulo, berço do PT, continuando nas mãos do PSDB.

Talvez tenham ouvido o chefe se lamentando, alta madrugada, nos corredores do Alvorada: “Quem me libertará desse turbulento Serra?” Por isso, e só por isso, teriam encomendado o dossiê (que se revelou pateticamente inofensivo, mas o que vale é a intenção) pressurosamente publicado pela “IstoÉ”. O problema é que uma mistura de dólares e reais equivalente a 1,7 milhão de reais foi usada para pagar a montagem de um feixe de acusações, ilustradas com fotos e um vídeo, de constrangedora fragilidade. Era dinheiro do PT, de candidatos do PT, de amigos do PT (valem qualquer uma ou todas as possibilidades), para fazer um servicinho sujo em benefício do PT.

Mais grave, era uma dinheirama. A facilidade com que foi obtida é agravante sério — mas é sempre possível que o presidente escape ileso. Não pela primeira vez, tem a opção, que já está exercendo, de alegar ignorância sobre ações de companheiros e subordinados, todos com perigoso vezo: fidelidade demais, cega demais.

Pode dar certo, mais uma vez. Mas, quem sabe, talvez esteja ficando mais difícil encontrar quem assuma sua parcela designada de responsabilidade a cada escândalo que explode, e vá para casa resignado. Principalmente, mudo.

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