O Globo |
1/9/2006 |
A sensação de invencibilidade, com as pesquisas eleitorais francamente favoráveis à sua reeleição já no primeiro turno, e a conseqüente sensação de impunidade que essa absolvição das urnas trará consigo, têm incentivado a que o presidente Lula revele algumas facetas francamente preocupantes do que viria a ser um segundo mandato. Lula vem dando uma série de declarações para justificar o que aconteceu em seu governo, toda a corrupção que tem no mensalão sua síntese mais perfeita. Mesmo voltando a insistir que o mensalão não existiu, tentou explicá-lo, afirmando em uma reunião de intelectuais e artistas em São Paulo que a política real obriga a fazer acordos "com quem a gente tem, e não com quem a gente quer". Estamos vendo neste mês decisivo de campanha eleitoral um Lula que ora é um democrata empedernido que prega a união nacional, ou que defende a imprensa como a grande arena do debate democrático do país, ora ataca o Legislativo e os partidos oposicionistas, e lança mais uma tentativa de controlar os órgãos de comunicação, como já tentara no início de seu governo. A proposta de "democratização" dos órgãos de comunicação, com a formação de comitês populares para analisar a programação, foi abandonada em sua parte mais polêmica só depois de denunciada, mas o espírito intervencionista continua lá no programa do PT, como uma ameaça à liberdade de expressão. Lula chegou a citar a possibilidade de acordo com o PSDB, que ele mesmo já classificou de seu sonho de consumo, para taxá-lo de inviável, por que os tucanos são hoje os principais adversários dos petistas. A disputa política chega a tal ponto que, na análise de Lula, a transição do governo de Fernando Henrique se deu de maneira pacífica e civilizada porque o PSDB tinha o objetivo de cooptar o PT, mostrar para o mundo que o PSDB era um partido democrático e moderno, jogando com a probabilidade de os petistas não terem competência para governar e serem obrigados a chamar o PSDB para ajudá-los. O ex-presidente Fernando Henrique, um ex-amigo transformado em principal desafeto, revelou em seu livro de memórias que esperava, sim, com a transição, criar um clima para um governo de coalizão entre o PT e o PSDB, e lamentou que se tenha perdido essa oportunidade. A leitura petista para essa revelação é, como se vê, inversa, desidratada de sentimentos patrióticos e recheada de veneno. Essa interpretação, se já circulava nos bastidores palacianos sempre que se cogitava de uma união com os tucanos, revelada em público inviabiliza ainda mais um governo de coalizão, que o próprio Lula anunciou outro dia mesmo como um dos objetivos mais imediatos de um segundo governo. Pelo menos com relação ao PSDB, que dificilmente sairá dessa campanha em condições de pactuar qualquer coisa. Uma possível negociação política com o futuro governo petista teria como objetivo, aí sim, cooptar setores do PSDB ou, no mínimo, chegar a acordos pontuais com governadores de importância política fundamental como serão José Serra em São Paulo e Aécio Neves em Minas. O programa de governo divulgado pelo PT com a chancela de Lula incluiu ataque extemporâneo, por desnecessário, ao governo anterior, acusando-o de ter disseminado a corrupção, num movimento arriscado de trazer para o debate eleitoral justamente o seu lado mais vulnerável. Na verdade, o que se procura hoje é isolar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o adversário de língua mais ferina nas hostes tucanas. Na parte econômica, tanto o programa do PT quanto o Orçamento que o governo deve enviar hoje ao Congresso para 2007, são obras de ficção que servem para colocar interrogações quanto à política econômica de um provável segundo governo Lula. As agências de risco estão elevando o rating do Brasil - ontem a Moody's deu a melhor nota desde 1989 - devido aos bons números da economia, mas aguardam um consenso em torno da necessidade de corte dos gastos do governo, tema que não tem guarida no programa do segundo governo, nem no orçamento para o próximo ano. As agências só não ficam mais preocupadas por que, para elas, se o governo decidir aumentar a carga tributária para garantir o superávit que, por sua vez, garantirá o pagamento da dívida, o risco-Brasil continuará baixo, mesmo sem crescimento econômico. Isso até quando for possível se equilibrar nessa dubiedade de gastos crescentes e pouco crescimento econômico. O Orçamento para 2007 prevê um aumento dos investimentos sem que seja explicado de onde sairá o dinheiro. Como ele mesmo já admitiu, Lula não sabe quando é candidato e quando é presidente. A confusão fica maior ainda quando se vê que o programa do candidato não se comunica com o Orçamento do presidente, numa esquizofrenia institucional perigosa. Mesmo já sabendo que ontem seriam divulgados números nada satisfatórios do crescimento do trimestre, Lula, falando ao "Jornal da Globo" no dia anterior, disse, bem ao seu estilo, que "desde que foi proclamada a República", nunca houve momento na História do Brasil em que "a economia tenha tantos fatores positivos combinando entre si". O resultado da união de tantos fatores positivos deu o crescimento pífio de 0,5% do PIB, o que indica um crescimento anual por volta de 3%, quando Lula prometera crescimento entre 4% e 5%. A média de crescimento do PIB de seu primeiro governo seria, então, de 2,5%, exatamente a mesma do primeiro governo de Fernando Henrique. Mesmo em uma hipótese otimista, de um crescimento de 3,5%, a média de crescimento da economia do governo Lula terá sido de 2,8%. Acontece que o Orçamento para o próximo ano está montado em uma previsão de crescimento de 4,5%, assim como o deste ano previa um aumento do PIB de 4,75%. O que está sendo montado para o próximo governo é uma armadilha fiscal monumental. |
Entrevista:O Estado inteligente
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