Entrevista:O Estado inteligente

sábado, julho 22, 2006

Zuenir Ventura Cortar na própria carne

Zuenir Ventura Cortar na própria carne
O GLOBO

Apublicação do ranking nacional dos sanguessugas, no qual aparecem, em primeiros lugares, o Rio de Janeiro, com 13 deputados, e São Paulo, com dez, entre os até agora 57 parlamentares envolvidos oficialmente, serviu para desfazer a ilusão de que ao progresso econômico ou cultural corresponde necessariamente um avanço político. Em outras palavras, o tão esclarecido eixo Rio-SP é um fiasco na hora de escolher seus representantes em Brasília. Se já não bastasse a competição no terreno da violência urbana, eis que surge agora essa outra, para saber quem está mais enrolado com a máfia das ambulâncias.

Do Rio podemos dizer que merece o primeiro lugar, e não apenas pelo que exporta para Brasília. Nos últimos anos, a nossa Assembléia Legislativa foi farta em escândalos, com vários de seus integrantes metidos com tráfico de influência, CPI da Loterj, adulteração de gasolina, fraudes, suspeita de enriquecimento ilícito etc. O ex-deputado Roberto Jefferson chegou a dizer que o esquema de pagamento de propina na Alerj, supostamente comandado pelo deputado Carlos Rodrigues, teria servido de modelo para o mensalão da Câmara dos Deputados.

O que consola é que são do Rio dois dos mais atuantes membros da CPI: Antonio Carlos Biscaia, presidente, e Fernando Gabeira, sub-relator, os quais, ao lado do deputado Raul Jungmann, de Pernambuco, vêm trabalhando para cortar exemplarmente na própria carne, com coragem e sem complacência. Nessa direção, outro sinal positivo foi a iniciativa do deputado carioca Miro Teixeira, de buscar num artigo da Constituição a brecha para impedir que candidatos corruptos sejam eleitos ou reeleitos. Desapareceria a figura do “transitado em julgado”, ou seja, uma condenação com provas irrefutáveis não ficaria na dependência do julgamento de todos os recursos e apelações.

Os interessados alegam sempre que não se pode condenar previamente. E absolver, pode? Para os representantes do povo deveria valer não o postulado jurídico de que todos são inocentes até prova em contrário, mas o consagrado princípio da mulher de César, adaptado aos tempos modernos: não basta ser honesto; é preciso também parecer e convencer, sem direito a ser suspeito.

Romper a barreira do corporativismo não é fácil, mas é a única saída. Para os desvios de conduta de um Congresso tão infeccionado como o atual, a reação tem que começar lá dentro. É fundamental que haja rejeição do próprio organismo, de sua parte sã. Sem a formação urgente de uma espécie de frente ampla capaz de colocar as afinidades éticas acima das diferenças partidárias e ideológicas, continuará a repetição impune dos escândalos, e isso só aumentará na sociedade a percepção, embora injusta, de que a banda podre contaminou toda a instituição.

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