Miriam Leitão Chance e dúvida
O GLOBO
O petróleo continuará sem substituto, disseram-me no programa “Espaço Aberto”, da Globonews, três entrevistados com origem e pensamento diferentes: um produtor de álcool, uma engenheira e um economista. A energia dispõe para a Humanidade desafios tremendos nos próximos anos. O Brasil é o mais competitivo produtor de uma das alternativas a um dos derivados de petróleo, o álcool, ou etanol, que substitui a gasolina em veículos leves.
A revista “The Economist” comparou a competitividade da produção de bioenergia em diversos países. O Brasil é disparado o campeão. Mas há várias questões levantadas por especialistas no país sobre um ponto que é considerado pacífico pelos produtores: o álcool é apresentado pelos que o produzem como a alternativa limpa. Ao ser usado pelos veículos leves, o álcool não polui. Porém, isso não é ponto pacífico para os críticos. Eles argumentam que, ao ser produzido, o álcool polui, pelo desmatamento, pelas queimadas.
Eduardo Carvalho, presidente da Unica, que reúne os produtores de álcool de cana de São Paulo, que, juntos, representam 60% da produção nacional, diz que o Brasil pode aumentar muito a produção de álcool. O economista Carlos Eduardo Young, da UFRJ, que estuda a relação entre economia e meio ambiente, tem suas dúvidas sobre as vantagens de um crescimento dessa produção em nome do meio ambiente:
— Não faz sentido promover um programa em prol da luta contra o aquecimento global se esse produto tem efeitos nocivos quando se queima a cana ou quando se desmata para plantar, por exemplo.
A engenheira Suzana Kahn, também da UFRJ, diz que, sem dúvida, o álcool vai participar da matriz energética do Brasil e que, pelos dados da Embrapa, existem 90 milhões de hectares agricultáveis, não sendo necessários, portanto, novos desmatamentos.
O presidente da Unica garante que não será necessário desmatar, em primeiro lugar, porque na Amazônia não dá cana. A região não tem o necessário tempo seco para a concentração dos açúcares. Melhor para a Amazônia, mas a soja está se expandindo na região e é uma das matérias-primas para o biodiesel.
— A cana-de-açúcar ocupa 5,5 milhões de hectares, o que dá 10% de toda a área cultivada do Brasil. Além disso, existem 300 milhões de hectares ocupados com pastagens. Qualquer redução de 3% a 4% por racionalização do uso da terra na produção de carne vai nos liberar a área necessária para aumento da produção — afirma Eduardo.
Suzana lembra que há um grande ganho de produtividade possível no uso da cana e de outras matérias-primas para a produção de bioenergia:
— É preciso usar a biomassa como um todo. A Europa, que não tem a nossa disponibilidade de terra, está investindo muito nisto, em aumento do ganho de produtividade da energia da biomassa. Não é apenas expansão da fronteira agrícola.
Eduardo Carvalho discorda da preocupação de Young de que a queima da cana-de-açúcar para a colheita seja muito poluente, mas admite que queimar é não fazer o que Suzana Kahn está dizendo que é preciso fazer: aproveitar toda a biomassa.
— Hoje 70% da cana-de-açúcar de São Paulo são colhidos manualmente e, para isso, é preciso queimar a palhada por exigência até dos acordos coletivos. A palha da cana não queimada machuca o trabalhador. Mas, com isso, nós estamos perdendo um terço da energia que a cana poderia nos dar — comenta o presidente da Unica.
Ele conta que um terço da cana é o caldo com o qual se faz açúcar e álcool. O outro terço é aproveitado como bagaço na produção de energia. Mas Eduardo Carvalho admite que esse é muito mal aproveitado e que novas tecnologias permitiriam aumentar em três a quatro vezes a produção de energia do bagaço. O outro terço da energia que poderia ser produzido é perdido quando se queima a cana. O problema é que, para evitar a queima, seria necessário mecanizar a lavoura, mas com isso se perde emprego. Young acha que é preciso um modelo de desenvolvimento que crie empregos de qualidade.
— Ser cortador de cana-de-açúcar não é o sonho de carreira de ninguém. A região do Nordeste, onde sempre houve produção de cana-de-açúcar, não se tornou mais rica com os empregos criados pela lavoura de cana. Precisamos ter um modelo de longo prazo que traga menos impacto ambiental e que crie empregos de boa qualidade.
— Eu respondo pela cultura da cana de São Paulo. Lá não existe um emprego na lavoura de cana que não seja com carteira assinada. O crescimento das atividades na produção de energia está criando empregos de qualidade. Estamos agora instalando 50 novas unidades industriais. A produção de energia na região vai criar, em quatro ou cinco anos, de 100 mil a 150 mil novos empregos de qualidade — respondeu o presidente da Unica.
O ponto de vista de críticos como Young é que a queimada, como é feita hoje, em nome da conservação de empregos, está poluindo e, portanto, reduzindo a vantagem da cana-de-açúcar. Eduardo Carvalho admite que a queimada emite “partículas” que prejudicam os moradores de regiões próximas, mas afirma que a “queimada é rápida, dura apenas dez minutos”.
Como se vê, a questão da energia é complexa, mesmo quando se fica apenas nos detalhes de uma das alternativas a um dos usos do petróleo, que é o álcool. Pelas projeções da Agência Internacional de Energia, as duas grandes fontes energéticas do mundo continuarão sendo os altamente poluentes petróleo e carvão
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