Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, julho 21, 2006

VINICIUS MOTA Onde o jogo se decide

FOLHA
SÃO PAULO - Digamos que se estabeleçam cotas de 20% para estudantes que se declarem pretos ou pardos nas universidades públicas brasileiras. Em uma década, a política teria graduado um contingente de pessoas que, mesmo atribuindo um forte incremento de vagas ao longo dos anos, não chegaria a 5 para cada grupo de mil brasileiros.
Ainda que as barreiras do debate político e do jurídico-constitucional fossem vencidas, a política de cotas raciais (ou mesmo as "sociais") esbarraria na escala diminuta do ensino superior no país. Mesmo na população branca, diplomados representavam só 6,5% das pessoas com 10 anos de idade ou mais em 2000 -cinco vezes mais que o índice apurado entre os pretos.
O argumento ajusta o foco das ações afirmativas. Falamos de algo que vai aumentar discreta e paulatinamente a fatia de negros entre os egressos da universidade, com efeitos menos óbvios nos postos de status mais elevado em outros setores sociais. Seu impacto será efetivo para um pequeno grupo de indivíduos que tem tido chances restritas de freqüentar um bom curso, tende a ser neutro sobre a qualidade das instituições de ensino e positivo para a diversificação do corpo discente. Para a esmagadora maioria da população, a mudança será inócua.
Sobra na discussão das cotas -embates acalorados, mobilização na mídia e no Congresso- o que falta ao debate de reformas sociais para retirar da ignorância dezenas de milhões de jovens. Eles chegam à 8ª série incapazes de decifrar um texto ou um problema matemático simples. Completam o ensino médio tendo acumulado, desde o início do fundamental, um déficit de 740 horas (31 dias) de presença em sala de aula em relação a seus concidadãos nas escolas privadas.
Por compaixão, senhores, dediquem um terço da energia com que defendem ou negam as cotas para pregar a duplicação, em quatro anos, do tempo médio que um aluno da escola pública passa em contato com seus professores.

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