Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, julho 21, 2006

Sanguessugas nas urnas

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EDITORIAL - Visão do Correio
Correio Braziliense
21/7/2006

Afinal, quantos são os sanguessugas? À divulgação da lista com 57 nomes de parlamentares suspeitos de ligação com a máfia flagrada assaltando os cofres da saúde pública no país, seguiu-se declaração do vice-presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga o crime, Raul Jungmann (PPS-PE), de que podem chegar a 105 os congressistas subornados para apresentar emendas destinadas à compra de ambulâncias superfaturadas. Antes, a ex-funcionária do Ministério da Saúde Maria da Penha Lino, que seria o elo do governo no esquema, com a responsabilidade de facilitar a aprovação dos convênios que permitiriam a liberação do dinheiro, já declarara, em depoimento, que mais de um terço dos deputados federais, 181 deles, estariam envolvidos.

A dança dos números não é boa para ninguém. Sem que se saiba ao certo quem são os beneficiários da fraude, as acusações recaem sobre os 513 mandatários com assento na Câmara, dos quais apenas 16 não se submeterão ao crivo da sociedade nas eleições de outubro. Urge, pois, separar o joio do trigo, para alívio dos candidatos inocentes e segurança do eleitor, angustiado com a possibilidade de mandar um corrupto de volta ao Congresso, o escolher para governar ou assumir a vice-governança do estado, ou entregar-lhe uma cadeira na assembléia estadual.

A transparência, contudo, deve tardar. Por um lado, pode ser facilitada pela farta documentação das fraudes feita por ninguém menos do que aquele apontado como um dos chefes da quadrilha, o empresário Luiz Antônio Trevisan Vedoin, sócio da Planam, empresa encarregada de transformar os veículos em ambulâncias. Em sete dias consecutivos de depoimentos à Justiça Federal em Mato Grosso, ele detalhou o esquema, identificando comparsas e apresentando comprovantes de pagamento de propina. Na próxima semana, deverá ser ouvido pela CPI.

Os parlamentares terão, pois, na inquirição de Vedoin pela CPI, grande oportunidade de lançar alguma luz sobre a questão. Mas, ainda assim, dificilmente haverá tempo hábil, até as eleições, para que os verdadeiros crápulas sejam revelados ao país. Aqui entra o outro lado. Se o fio da meada está à mão, o número de suspeitos, o acirramento da disputa política com a proximidade das eleições e a farta impunidade vigente na atual legislatura — a maioria dos mensaleiros escapou ilesa — são complicadores consideráveis.

Nessa conjuntura, recomenda-se ação imediata do Tribunal Superior Eleitoral. Importa no momento serenar o ambiente pré-eleitoral. A única forma de amenizar as inquietações do eleitor é assegurar-lhe que eventual vitória nas urnas não servirá de blindagem a sanguessugas. Daí o mérito da provocação do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) para que o TSE se manifeste sobre a possibilidade de um partido entrar com ações para impedir a posse de eleitos contra os quais existam provas irrefutáveis de corrupção.

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