O que menos importa no caso do decálogo de comportamento eleitoral para a campanha de reeleição de Lula é o desmentido oficial do PT. O decálogo não nasceu do vazio e a única coisa que não podia ter acontecido com ele era ser divulgado. Na prática, já vem sendo adotado, e é a negação de tudo o que o PT não só pregou, mas também praticou, em termos de campanha política, ao longo de sua história. Na eleição de 2002, houve um momento da campanha em que o então candidato do PPS, Ciro Gomes, apareceu na frente de Lula. O presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, dizia que sua situação era tão confortável que, se Ciro tivesse viajado com a mulher, Patrícia Pillar, e desaparecido da campanha, poderia ter sido eleito.
Esfriar ao máximo a campanha, não entrar em polêmicas, exercer o papel de presidente mais do que o de candidato, como sugere o decálogo petista, seria a melhor estratégia para consolidar a vantagem que Lula tem atualmente nas pesquisas eleitorais. Numa metáfora futebolística, jogar na retranca para garantir o placar.
É uma estratégia montada em cima das falhas da legislação eleitoral brasileira, mas que revela também uma esperteza política que define bem a posição em que Lula e o PT se encontram hoje: quando era favorável fazer campanha sem ser candidato oficialmente, Lula saiu viajando e falando pelos cotovelos, inaugurando até bica de água como se diz no jargão político. Sua superexposição na mídia surtiu efeito, e ele disparou nas pesquisas de opinião, superando os escândalos de corrupção que o haviam derrubado.
Agora, que pela lei ele já é candidato, se queixa das restrições eleitorais, pretende ser mais presidente, freqüentar reuniões como as do G-8, ao lado dos grandes líderes mundiais. É uma estratégia arriscada para um candidato que quer evitar o segundo turno, onde os contrastes certamente surgirão, e o embate cara a cara será inevitável.
Mas a campanha de contrastes começará antes mesmo de um eventual segundo turno, e virá, sobretudo, de antigos companheiros, como os integrantes do PSOL, cuja candidata a presidente, a senadora Heloísa Helena, vem mostrando na pré-campanha um potencial eleitoral antes inimaginável.
O deputado federal Chico Alencar pergunta como os militantes do PT vão defender um projeto “encarnado por um candidato que não comparece a debates, evita as ruas, não aborda temas polêmicos, só fala com a imprensa o que quiser e quando quiser, não tenta unificar aliados, quer esfriar ao máximo a campanha?”
Para ele, o decálogo demonstra que o PT “quer ganhar na anomia, no desinteresse, no conformismo, no ‘já que está aí, que continue’, na negação da cidadania, na captação do sufrágio pelo clientelismo. Como FHC em 98. Até nisso se parecem”, espanta-se.
Alencar lembra que “o PT, na sua escalada de adaptação ao sistema, também abriu mão de combater a corrupção: quando Lula falava sobre temas espinhosos, transitou da ‘traição’ ao ‘erro humano’, e aí estão os mensaleiros com suas candidaturas, como que a dizer: ‘sou, mas quem não é?’.”
De fato, na campanha de sua reeleição, em 1998, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso utilizou-se dessa tática e ganhou no primeiro turno por uma diferença menor do que a que obtivera no primeiro mandato: teve 53,1% dos votos válidos na reeleição, contra 54,3% em 1994. A certa altura, havia a dúvida no comando da campanha tucana se a vitória viria mesmo no primeiro turno, e o temor era que mais quinze dias de campanha eleitoral pudessem permitir a Lula virar o jogo, ainda mais que, a cada dia, ficava mais claro que a desvalorização do real, que chegou no início do segundo mandato, poderia ser inevitável.
Lula, em seu melhor momento em 2002, quando tudo levava para a vitória, teve 46,4% dos votos válidos no primeiro turno, em uma eleição em que havia pelo menos três candidatos competitivos: José Serra, do PSDB/PMDB, que teve 23,2% dos votos e foi para o segundo turno; Garotinho, do PSB, que teve 17,9% e Ciro Gomes, do PPS, que acabou a eleição com 12% dos votos válidos.
Hoje, apenas a senadora Heloísa Helena se aproxima dos dois dígitos de intenção de votos (onde já está Alckmin), e mesmo assim Lula não tem a vitória no primeiro turno garantida, como mostram as últimas pesquisas. Isso significa que sua situação atual é pior do que a anterior, mesmo Lula sendo presidente e contando com as vantagens que a lei oferece a quem é candidato à reeleição no cargo.
Também está encontrando pela frente uma candidatura adversária que vem conseguindo unificar a oposição mais do que foi possível em 2002. Resta saber se essa união de líderes do PSDB, do PFL e alguns importantes setores do PMDB, conseguirá reverter o quadro no nordeste, onde a eleição está sendo desequilibrada pela enorme vantagem que Lula tem sobre Alckmin, graças aos efeitos do Bolsa-Família e à repercussão na economia local dos aumentos reais do salário-mínimo.
Lula venceu em 2002 por que atraiu para sua candidatura as dissidências do PMDB e até mesmo líderes do PFL que não concordavam com a candidatura de José Serra. Teve uma votação nos grotões do país que nunca obtivera anteriormente. Desta vez, a vitória de Lula vem dos mesmos grotões, mas por conta de seu carisma pessoal e dos programas assistencialistas de seu governo.
Não há entre os líderes do PFL e do PSDB quem acredite que os números continuem tão favoráveis a Lula como estão no Nordeste, onde esses partidos têm forte representação. Por enquanto, as pesquisas mostram que Lula se emancipou da tutela dos caciques partidários regionais, e está montando sua própria rede de influências. Resta saber se mais uma vez Lula conseguirá quebrar regras não escritas da política brasileira, mesmo que para isso tenha ele mesmo se tornado um cacique político, e o PT um partido dos grotões.
Entrevista:O Estado inteligente
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