Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, julho 19, 2006

Clóvis Rossi - Emoções e o resto




Folha de S. Paulo
19/7/2006

Volto de quase 50 dias fora, caio no meio da campanha eleitoral, teoricamente importante. Não é todo dia que um país elege seu presidente, todos os governadores, toda a Câmara de Deputados, um terço do Senado, todas as Assembléias Legislativas.
Logo, encontro o Brasil fervendo de discussões instigantes sobre os problemas da pátria, certo? Certíssimo. Há uma ferveção em torno do orgasmo da senhora que descobriu tardiamente que os homens somos inúteis. Há outra ferveção em torno da nudez de Ana Paula Arósio em horário nobre (a nudez torna o horário menos nobre ou o horário é nobre exatamente porque exibe cada vez mais nudez?).
Ah, tem também o "minuto a minuto" do julgamento de Suzane von Richthofen e dos irmãos Cravinhos, criminosos confessos capazes, mesmo assim, de monopolizar a atenção do público.
Talvez porque não há "mocinhos" à disposição, são os criminosos que ditam a agenda.
Até porque há uma imbricação entre criminalidade e eleição: afinal, 90 deputados são suspeitos de envolvimento com a máfia dos sanguessugas, o que não os impede de serem candidatos à reeleição, assim como um bando de "mensaleiros", que confessaram o crime de caixa dois (fora o que falta apurar). Aboliu-se na política brasileira a regra segundo a qual da mulher de César exige-se não apenas que seja honesta mas que também pareça honesta. Aqui, é o contrário. Quanto mais desonesto parecer tanto mais longa a carreira política à frente.
Enquanto isso, o Deic (o departamento que deveria enfrentar o crime organizado) vira um "bunker" ao estilo da "linha verde" em Bagdá, atrás da qual se protegem os norte-americanos e as autoridades, enquanto a população, bom a população que se dane. Emoções, portanto, não faltam à pátria. O resto é o resto.

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