Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, dezembro 21, 2005

ZUENIR VENTURA Duas caras

O GLOBO

Triste do país que necessita de heróis, disse o dramaturgo Bertold Brecht. Mais triste ainda é aquele que parece precisar dos dois, dos heróis e anti-heróis, para descobrir sua identidade e o seu caráter. Se é verdade que a nossa civilização visual já se acostumou a pensar pela imagem, as duas fotos publicadas na primeira página do GLOBO de ontem, dialogando entre si, nos levam a perguntar qual é a nossa cara, o que tem mais a ver conosco: Ronaldinho Gaúcho ou Edmundo Animal?

Talvez os dois. Não há hoje outra usina tão pródiga em fabricar craques capazes de ganhar duas vezes seguidas (ou três, como Ronaldo Fenômeno) o prêmio de melhor do mundo. Em compensação, é raro encontrar um país que estimule tanto a formação de edmundos em geral, seja no esporte, seja na política. Aqui é tão demorado cassar um deputado corrupto quanto cassar a habilitação de um condenado por homicídio culposo como o Animal, tricampeão de bandalhas no trânsito e que há dez anos, por excesso de álcool e velocidade, causou a morte de três jovens e ferimentos em outras cinco pessoas.

O seu caso alimenta a sensação generalizada de que alguns crimes compensam — ou porque ficam impunes ou porque, na pior da hipóteses, quando são punidos, gozam das regalias e privilégios de leis feitas por quem deveria estar temendo que um dia chegaria a sua vez. Como os jovens das favelas dividem sua admiração entre os líderes do tráfico, as estrelas do showbizz e os ídolos do esporte, há o risco de acharem mais prático e tentador adotar o modelo de comportamento de um Edmundo no que tem de pior do que o do grande craque gaúcho.

O antropólogo José Carlos Rodrigues acredita que o Brasil só vai dar certo quando realizar a síntese do impulso dionisíaco — da intuição e da festa —, com o rigor apolíneo — da ordem e da disciplina. Para ele, o encontro já se deu em Pelé, que passava horas chutando com o pé esquerdo ou treinando cabeçadas contra o sol para se aperfeiçoar, como se precisasse. É possível que esse encontro esteja se dando também em Ronaldinho.

Além de promover essa união, porém, vai ser preciso desmanchar outra, a da conivência de dirigentes (não foi o presidente da CBF Ricardo Teixeira quem aconselhou Felipão a convocar "um time de bandidos"?) com o fanatismo de torcedores, para quem um belo gol absolve os crimes fora de campo. E tudo isso com a complacência de certa mídia esportiva, que às vezes exalta os bad boys e suas antivirtudes de tal maneira que eles acabam sendo vistos como impunes e sedutores vilões.



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