Vencer ou vencer: uma análise da difícil situação em se meteram o governo e a oposição no Brasil
(19/12/05 09:11)
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http://www.e-agora.org.brLula e o PT estão numa situação difícil. Mas a oposição também está. Para ambos, só existe uma alternativa: vencer. Agora é vencer ou vencer.
Segundo a pesquisa CNI/Ibope, em junho de 2003 apenas 19% não confiavam neste presidente chamado Lula. Agora, em dezembro de 2005, são 53% os que não confiam nele; ou seja, a maioria dos brasileiros não confia mais em Lula. Com tal grau de desconfiança – e que aumenta progressivamente – é muito difícil alguém ser reeleito.
Se tivesse juízo e respeito pela República, Lula renunciaria ou, pelo menos, não concorreria à reeleição. Por que, entretanto, ele insiste?
Porque Lula só sabe fazer isso. Não sabe administrar, não sabe planejar e não gosta de política (democrática). Não é por acaso que foi um medíocre parlamentar e não via a hora de sair daquela casa representativa maior da República, onde não tinha privilégios adicionais, perdido no meio de mais de quinhentos iguais.
Lula especializou-se em montar esquemas, bandos, patotas para controlar máquinas e aparelhos que fossem fontes de recursos e, também, em discursar em palanques. Essas são suas duas grandes habilidades. Então, para Lula, se ele não puder ter o controle de um aparato qualquer e não puder fazer campanha, não há qualquer sentido em participar da esfera pública.
Lula não desiste de ficar no governo e de se recandidatar porque seria o mesmo que abandonar um aparelho e uma campanha que estão nas suas mãos, coisas para as quais, aliás, foi especialmente talhado. Sim, ele está no comando e está em campanha, desde que assumiu a presidência. E sempre estará. Assim, seu potencial se resume nessas duas coisas: controle da máquina e palanque. Sem isso, a vida não tem sentido para ele.
As outras hipóteses, não colidentes entre si, são as seguintes:
1 – Lula imagina que virará o jogo até meados do ano que vem, às custas de distribuição massiva de dinheiro para os pobres e de outros expedientes irresponsáveis, sobretudo no campo das decisões econômicas e do marketing, na linha da mistificação das massas pela propaganda política. Quando ele diz que não cederá ao populismo pré-eleitoral, deve-se ler – e isso vale para quase tudo o que Lula fala – exatamente o contrário. Essa é a chave para decifrar o código: basta inverter o sinal lógico da sentença (verdade = mentira). No discurso lulista, salvo raras exceções, toda verdade é mentira e vice-versa.
2 – Lula tem a esperança de que, na reta final, usando a militância petista, dos movimentos sociais e alguns mercenários, conseguirá instalar um clima de guerra – tipo uma grande "Capela do Socorro", ampliada no nível nacional, capaz de constranger as oposições – podendo ainda virar o jogo na base do vale-tudo (dossiês falsos, intimidações, uso do aparato de segurança e de inteligência do Estado etc.). Conta, para isso, com a pouca disposição das oposições para o enfrentamento, com sua tibieza e com sua incrível capacidade de se deixar impressionar.
3 – Lula sabe que se desistir agora (de permanecer ou de concorrer novamente), sairá antecipadamente do baralho e amargará um longo ostracismo, tal como ocorreria se fosse derrotado. Perdido por perdido, irá até o fim.
4 – Lula guarda, como última carta na manga, a possibilidade de negociar a sua retirada em troca de alguma vantagem: a paralisação das investigações (que podem avançar a ponto de comprometê-lo), uma anistia ou um "exílio" interno ou externo em condições favoráveis.
5 – Lula talvez imagine poder fazer ainda algum movimento de ruptura das regras do jogo caso se instale uma comoção no país. É uma hipótese pouco provável, quer porque as oposições estão decididas a manter a normalidade morna, sustentando Lula até o final haja o que houver e não permitirão qualquer comoção maior, quer porque as chances são mínimas de dar certo a aplicação de uma manobra chavista num país como o Brasil. Mas nunca se sabe. Permanece na cabeça de alguns setores do governo, do PT e de movimentos sociais alinhados, a hipótese de armar um escândalo – quem sabe uma falsa confissão de um oposicionista, quem sabe uma prova material forjada – para mostrar que tudo não passou de tentativa de golpe da oposição, da direita, das elites, dos conservadores.
A verdade é que para chegar até às eleições em condições minimamente competitivas Lula conta com uma aliança, com um apoio tácito das oposições.
Pode-se avaliar que para as oposições, ganhar em 2006, não era uma questão de vida-ou-morte, tal como sempre foi para Lula e para o PT. Lula contava com isso, acenando vez por outra com uma transição pacífica e negociada, tão a gosto dos tucanos, em 2010 (e boa parte das lideranças do PSDB se preparou para isso, não adianta negar). No entanto, essa condição não vale mais. Depois dos descalabros do atual governo e em virtude da tática adotada pelas oposições, não lhes resta agora senão vencer.
Agora é vencer ou vencer, pois se a aliança PSDB-PFL perder as eleições de 2006 será responsabilizada pela continuidade do governo corrupto e desastroso de Lula e do PT. Sua tática contemporizadora e seu esforço para sustentar Lula apesar de todas as evidências dos crimes cometidos no seu governo, será desmascarada pelo resultado.
É isso o que dá errar em pontos tão fundamentais da estratégia. Fica-se depois sem saída, quer dizer, sem opções táticas. Ou seja, fica-se apenas com uma saída (no caso, vencer). O PSDB entrou nesse tipo de beco. Ao jogar todas as fichas na sanção eleitoral, ficou obrigado a vencer. Se perder, dificilmente se recuperará pois será diretamente responsabilizado pela prorrogação do infortúnio. Outras forças políticas em ascensão terão todo o interesse em evidenciar esse erro, destruindo o sonho de algumas lideranças tucanas e petistas de estabelecer um bipartidarismo de facto PSDB X PT, capaz de criar uma espécie de oligopólio (regressivo em substância) da política no Brasil.
Em suma, a disputa eleitoral de 2006 virou questão de vida-ou-morte tanto para PT quanto para PSDB-PFL. Pode-se imaginar como será tal campanha. No vale-tudo que se instalará, todavia, Lula e o PT têm muitas vantagens sobre as oposições: têm gente mais aguerrida, têm militância, têm menos escrúpulos para assalariar asseclas e cometer ilicitudes, têm mais cara de pau para mentir, têm mais experiência em montar aparelhos, têm mais coragem para o enfrentamento e têm a máquina federal nas mãos.
Aquilo que a oposição tucana bem-comportada não queria que acontecesse, vai acontecer de qualquer jeito. Só que agora ela corre um risco que não corria. Deixou de comprar uma briga estando aliada ao Direito e vai ter que entrar na mesma briga como alguém que está num dos lados de uma guerra, ou seja, como alguém que não tem a priori razão (pois na guerra não há direito nem razão).
Pessoas inteligentes que habitam os círculos oposicionistas já devem ter percebido a posição complicada a que foram levadas como conseqüência de incorretas escolhas, mas agora não podem nem falar, emitir um juízo crítico, pois que isso contribuiria para deslegitimar e quebrar a coesão de um grupo que precisa desesperadamente de espírito de corpo para enfrentar as batalhas que se anunciam.
Segundo a pesquisa CNI/Ibope, em junho de 2003 apenas 19% não confiavam neste presidente chamado Lula. Agora, em dezembro de 2005, são 53% os que não confiam nele; ou seja, a maioria dos brasileiros não confia mais em Lula. Com tal grau de desconfiança – e que aumenta progressivamente – é muito difícil alguém ser reeleito.
Se tivesse juízo e respeito pela República, Lula renunciaria ou, pelo menos, não concorreria à reeleição. Por que, entretanto, ele insiste?
Porque Lula só sabe fazer isso. Não sabe administrar, não sabe planejar e não gosta de política (democrática). Não é por acaso que foi um medíocre parlamentar e não via a hora de sair daquela casa representativa maior da República, onde não tinha privilégios adicionais, perdido no meio de mais de quinhentos iguais.
Lula especializou-se em montar esquemas, bandos, patotas para controlar máquinas e aparelhos que fossem fontes de recursos e, também, em discursar em palanques. Essas são suas duas grandes habilidades. Então, para Lula, se ele não puder ter o controle de um aparato qualquer e não puder fazer campanha, não há qualquer sentido em participar da esfera pública.
Lula não desiste de ficar no governo e de se recandidatar porque seria o mesmo que abandonar um aparelho e uma campanha que estão nas suas mãos, coisas para as quais, aliás, foi especialmente talhado. Sim, ele está no comando e está em campanha, desde que assumiu a presidência. E sempre estará. Assim, seu potencial se resume nessas duas coisas: controle da máquina e palanque. Sem isso, a vida não tem sentido para ele.
As outras hipóteses, não colidentes entre si, são as seguintes:
1 – Lula imagina que virará o jogo até meados do ano que vem, às custas de distribuição massiva de dinheiro para os pobres e de outros expedientes irresponsáveis, sobretudo no campo das decisões econômicas e do marketing, na linha da mistificação das massas pela propaganda política. Quando ele diz que não cederá ao populismo pré-eleitoral, deve-se ler – e isso vale para quase tudo o que Lula fala – exatamente o contrário. Essa é a chave para decifrar o código: basta inverter o sinal lógico da sentença (verdade = mentira). No discurso lulista, salvo raras exceções, toda verdade é mentira e vice-versa.
2 – Lula tem a esperança de que, na reta final, usando a militância petista, dos movimentos sociais e alguns mercenários, conseguirá instalar um clima de guerra – tipo uma grande "Capela do Socorro", ampliada no nível nacional, capaz de constranger as oposições – podendo ainda virar o jogo na base do vale-tudo (dossiês falsos, intimidações, uso do aparato de segurança e de inteligência do Estado etc.). Conta, para isso, com a pouca disposição das oposições para o enfrentamento, com sua tibieza e com sua incrível capacidade de se deixar impressionar.
3 – Lula sabe que se desistir agora (de permanecer ou de concorrer novamente), sairá antecipadamente do baralho e amargará um longo ostracismo, tal como ocorreria se fosse derrotado. Perdido por perdido, irá até o fim.
4 – Lula guarda, como última carta na manga, a possibilidade de negociar a sua retirada em troca de alguma vantagem: a paralisação das investigações (que podem avançar a ponto de comprometê-lo), uma anistia ou um "exílio" interno ou externo em condições favoráveis.
5 – Lula talvez imagine poder fazer ainda algum movimento de ruptura das regras do jogo caso se instale uma comoção no país. É uma hipótese pouco provável, quer porque as oposições estão decididas a manter a normalidade morna, sustentando Lula até o final haja o que houver e não permitirão qualquer comoção maior, quer porque as chances são mínimas de dar certo a aplicação de uma manobra chavista num país como o Brasil. Mas nunca se sabe. Permanece na cabeça de alguns setores do governo, do PT e de movimentos sociais alinhados, a hipótese de armar um escândalo – quem sabe uma falsa confissão de um oposicionista, quem sabe uma prova material forjada – para mostrar que tudo não passou de tentativa de golpe da oposição, da direita, das elites, dos conservadores.
A verdade é que para chegar até às eleições em condições minimamente competitivas Lula conta com uma aliança, com um apoio tácito das oposições.
Pode-se avaliar que para as oposições, ganhar em 2006, não era uma questão de vida-ou-morte, tal como sempre foi para Lula e para o PT. Lula contava com isso, acenando vez por outra com uma transição pacífica e negociada, tão a gosto dos tucanos, em 2010 (e boa parte das lideranças do PSDB se preparou para isso, não adianta negar). No entanto, essa condição não vale mais. Depois dos descalabros do atual governo e em virtude da tática adotada pelas oposições, não lhes resta agora senão vencer.
Agora é vencer ou vencer, pois se a aliança PSDB-PFL perder as eleições de 2006 será responsabilizada pela continuidade do governo corrupto e desastroso de Lula e do PT. Sua tática contemporizadora e seu esforço para sustentar Lula apesar de todas as evidências dos crimes cometidos no seu governo, será desmascarada pelo resultado.
É isso o que dá errar em pontos tão fundamentais da estratégia. Fica-se depois sem saída, quer dizer, sem opções táticas. Ou seja, fica-se apenas com uma saída (no caso, vencer). O PSDB entrou nesse tipo de beco. Ao jogar todas as fichas na sanção eleitoral, ficou obrigado a vencer. Se perder, dificilmente se recuperará pois será diretamente responsabilizado pela prorrogação do infortúnio. Outras forças políticas em ascensão terão todo o interesse em evidenciar esse erro, destruindo o sonho de algumas lideranças tucanas e petistas de estabelecer um bipartidarismo de facto PSDB X PT, capaz de criar uma espécie de oligopólio (regressivo em substância) da política no Brasil.
Em suma, a disputa eleitoral de 2006 virou questão de vida-ou-morte tanto para PT quanto para PSDB-PFL. Pode-se imaginar como será tal campanha. No vale-tudo que se instalará, todavia, Lula e o PT têm muitas vantagens sobre as oposições: têm gente mais aguerrida, têm militância, têm menos escrúpulos para assalariar asseclas e cometer ilicitudes, têm mais cara de pau para mentir, têm mais experiência em montar aparelhos, têm mais coragem para o enfrentamento e têm a máquina federal nas mãos.
Aquilo que a oposição tucana bem-comportada não queria que acontecesse, vai acontecer de qualquer jeito. Só que agora ela corre um risco que não corria. Deixou de comprar uma briga estando aliada ao Direito e vai ter que entrar na mesma briga como alguém que está num dos lados de uma guerra, ou seja, como alguém que não tem a priori razão (pois na guerra não há direito nem razão).
Pessoas inteligentes que habitam os círculos oposicionistas já devem ter percebido a posição complicada a que foram levadas como conseqüência de incorretas escolhas, mas agora não podem nem falar, emitir um juízo crítico, pois que isso contribuiria para deslegitimar e quebrar a coesão de um grupo que precisa desesperadamente de espírito de corpo para enfrentar as batalhas que se anunciam.