
Sempre inventiva, a Câmara acaba de criar a versão legislativa do "amigo secreto". Todos os deputados participam, mas só um é presenteado. Ou não: o prêmio será entregue se a maioria assim desejar. Quem não quiser entrar no grupo dos amigos secretos precisa deixar claro que prefere o eventual contemplado longe do Congresso. A fórmula foi testada pela primeira vez na sessão de quarta-feira. O candidato ao presente era o deputado Romeu Queiroz (PTBMG), com o mandato ameaçado pela cassação. O Conselho de Ética aprovara o relatório do deputado Josias Quintal, que recomendou a degola do colega beneficiado por R$ 450 mil jorrados do valerioduto. O parecer do relator conseguiu o apoio de apenas 161 parlamentares. A bancada majoritária de 250 amigos secretos decidiu que o mineiro esperto merecia o presente de Natal. O resultado é inquietante.
Primeiro, por avisar que o corporativismo continua musculoso. Depois, por sugerir que a Câmara acredita numa falácia: a guilhotina se satisfez com as cabeças de Roberto Jefferson e José Dirceu. Enfim, por estimular com o possível perdão os réus restantes. Os parlamentares não sabem o que fazem. Tanto não sabem que, enquanto deputados brincavam de "amigo secreto", os presidentes da Câmara, Aldo Rebelo, e do Senado, Renan Calheiros, acertavam a convocação extraordinária do Congresso. Os motivos oficiais da decisão seriam até comoventes se fossem verdadeiros. Os pais da pátria pretendem, em tese, "acelerar cassações e os trabalhos das CPIs". Conversa fiada: a desonrosa sessão de quarta-feira atestou a ressurreição da insensatez.
Muitos integrantes das CPIs têm trabalhado exemplarmente. Mas as descobertas das CPIs e os pareceres do Conselho de Ética começaram a esbarrar no clube dos amigos secretos (como se não bastassem as pedras no caminho regularmente espalhadas pelo Supremo Tribunal Federal). A absolvição de Romeu Queiroz informa que seria mais inteligente devolver os parlamentares às origens. Ouviriam o ronco das ruas. A convocação extraordinária é uma imposição de tumores antigos. Os congressistas pousam em Brasília na terça-feira. Fazem reuniões e discursos na quarta e na quinta de manhã. À tarde, começam o retorno às bases. Inventaram a semana de três dias. Vai acabar reduzida a um e meio. O Congresso quer fazer agora o que poderia ter feito há tempos. Votar o Orçamento, por exemplo. Vão garantir um bom começo de ano: o povo terá de pagar quase R$ 100 milhões. É mais que desperdício. É uma afronta ao país.
Seis artistas e uma cueca
Como os jurados dos concursos de calouros, a coluna lamenta não ser possível premiar a tur ma toda. O espaço só abriga sete fotos. Foram homenageados sete personagens do novelão. Todos brilharam no desfile inverossímil produzido pela única crise da história que não será associada ao mês em que ocorreu, mas ao ano que consumiu. E não tem prazo para terminar. Seja qual for o desfecho da crise de 2005, os personagens abaixo homenageados serão lembrados para sempre. Sem os sete artistas e uma cueca, o novelão não seria o que foi – e será.
Foi o estopim da grande explosão. Pilhado em bandalheiras nos Correios, transformou- se de acusado em acusador, popularizou o neologismo mensalão e produziu a frase do ano: "Sai daí, Zé!". Cantou no Programa do Jô e foi alvejado com laranjas por estudantes paulistanos antes de ter o mandato cassado. De volta à advocacia, anda perdendo causas em tribunais dos grotões.
"Querido Zé", começa a carta em que Lula comunicou ao companheiro que a ordem de Jef ferson fora cumprida. "Sei lutar no Planalto e na planície", gabou-se José Dirceu ao sair da Casa Civil. Não sabe. No Planalto, perdera o emprego. Na planície, conseguiu adiar por seis meses a cassação inevitável. Agora com tempo de sobra, janta com colunistas sociais e ameaça escrever um livro.
Tesoureiro do PT, distribuiu malas de dinheiro entre companheiros, aliados e até desconhecidos. Nas CPIs, contou mentiras com voz de Lexotan e repetiu centenas de vezes a expressão "não sei". Seu nome batiza o método criado para avaliar sur tos amnésicos: a "Escala Delúbio". Expulso do par tido, descansa ou bebe com amigos no sítio em Goiás que comprou para o pai.
Até junho, poucos brasileiros sabiam quem era Marcos Valério de Souza. As sessões das CPIs apresentaram ao país o criador do "valerioduto", uma espantosa fonte de dinheiro sujo. Terminado o ano, o vigarista que formou com Delúbio a parceria mais pródiga da história virou celebridade. No momento, vigia a reforma da casa em Belo Horizonte e tenta apagar provas, evidências e pistas.
O caminho que levou Severino Cavalcanti à presidência da Câmara foi aberto pela incompetência dos governistas e pavimentado pelo oportunismo da oposição. Em sete meses, espancou o decoro do primeiro minuto no cargo ao ponto final no discurso em que renunciou ao mandato. Extorsionário comprovado, deser tou para voltar à Câmara nas eleições de 2006. Já está em campanha.
O ex-deputado Nelson Jobim atravessou o ano embalado pela idéia de tornar-se presidente da República. Esse sonho improvável induziu o presidente do Supremo Tribunal Federal a acumular, com freqüência, a chefia do Poder Judiciário e o comando do Poder Legislativo. É muita coisa para uma toga só. O ministro foi um político desastrado. O político foi um ministro insensato.
Poucos brasileiros sabem quem é José Adalberto Vieira da Silva. O país inteiro conhece a história que protagonizou. Assessor de um deputado cearense que é irmão de José Genoino, então presidente do PT, foi detido em São Paulo com US$ 100 mil escondidos na cueca. José Adalberto está refugiado no ser tão cearense. A cueca aguarda a abertura do Museu Nacional da Corrupção.

Depois de ler nos jornais que os gastos com os funcionários federais aumentaram notavelmente este ano, o Cabôco anda intrigado. Quer saber que fim levou o "choque de gestão" anunciado em junho por Dilma Rousseff. Ao assumir a Casa Civil, a ministra prometeu acabar com a farra dos cargos de confiança. O Perguntadô acha que a "Dama de Ferro" tem coração de mãe.
Pressa, só em ano eleitoral
No ano passado, a Secretaria Municipal de Saúde anabolizou a campanha do prefeito candidato à reeleição com um concurso muito bem-vindo: dezenas de médicos, psicólogos, enfermeiros e outros especialistas seriam contratados para socorrer um sistema marcado por carências estarrecedoras. Em janeiro deste ano, o concurso foi homologado. Com Cesar Maia reeleito, o ritmo entrou em desaceleração. O preenchimento das vagas, iniciado em novembro, avança no compasso de guichê da Previdência Social. Ao detestável sistema de saúde do Rio falta virtualmente tudo: faltam médicos, falta bom senso às autoridades e falta pressa ao prefeito (cujos desígnios de Cesar, como os de Jânio Quadros, são sempre insondáveis). Cansados de esperar, os aprovados estão recorrendo à Justiça para conseguir o que já lhes pertence.
Esse tem a cara do Rio
Para o Rio, as eleições de 2008 têm mais relevância que as do próximo ano. Depois de tantos equívocos e desenganos, a cidade merece um prefeito que saiba amá-la. E que capte a essência da alma carioca forjada no imaginário popular. Esta é a patriazinha, patriaminha, patriamada da gente de bem com a vida, imaginosa, alegre, cordial, atrevida, bem-humorada, inventiva, risonha, musical. Se o Rio não é exatamente isso, já pareceu assim. Só será com um prefeito muito singular. Nada a ver com Cesar Maia ou com os Garotinho. Esses não gostam de praia, odeiam o morro, são avessos ao mar desprezam montanhas. Pouco importa onde tenham nascido: são forasteiros fundamentais, incapazes de remover defeitos ou realçar virtudes. Nenhum tem a cara do Rio. O deputado Fernando Gabeira, por exemplo, esse tem.
Iolanda nas mãos de Lula
Uma advogada talentosa e sensível localizou o caminho legal para a rápida libertação da quase octogenária Iolanda Figueiral, doente terminal de câncer condenada a quatro anos de cadeia por suposto tráfico de drogas. Recolhida ao anonimato por motivos éticos, a advogada entregou a solução do drama ao engenheiro Germano Auler, leitor do JB. Basta a compaixão de Lula, que pode conceder a Iolanda o "indulto humanitário". A lei não estende o perdão presidencial aos punidos por tráfico de drogas. Mas permite, por questões humanitárias, a concessão do indulto ao "condenado acometido, cumulativamente, de doença grave, permanente, com incapacidade severa, com limitação de atividade e restrição de participação, exigindo cuidados contínuos" . Como Iolanda. Indulte a velha senhora, presidente Lula.
Supremo cria outra pastoral
Primeiro foi a Pastoral Parlamentar, criada pelo Supremo Tribunal Federal para providenciar socorro imediato a parlamentares em risco. Agora chegou a vez da Pastoral Previdenciária, concebida para impedir a exumação de esqueletos suspeitíssimos enterrados nos fundos de pensão. Os assistidos pelas pastorais conhecem o bê-a-bá da impunidade. Assim que surge em seu caminho a placa com a sigla CPI, o malfeitor deve pegar o atalho das liminares. Em tese, liminar é um instrumento jurídico que paralisa o processo até que um ministro (ou o STF inteiro) decida se o pedinte tem razão. Na prática, não passa de um truque para adiar ou confundir o avanço das investigações. Graças à Pastoral Parlamentar, bandidos zombaram das CPIs. A Pastoral Previdenciária protege os baús de horrores dos fundos. É estranho.

Prêmio sai aos pedaços
Um tema e três frases: "Marta deu o calote" (José Serra, em entrevista) "Serra deu o calote" (Marta Suplicy, em entrevista). "Marta e Serra deram calote" (diretoria do Sindicato da Indústria da Construção Civil, em carta aos jornais). O júri do Yolhesman partiu em pedaços o troféu e premiou todo mundo.
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