Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Sobre o mal, os culpados, o arrivista e o ditador Por Reinaldo Azevedo

PRIMEIRA LEITURA



Recomendei num texto n'O Globo deste sábado que vocês comprem Sobre o Mal, de Santo Tomás de Aquino (1225-1274), publicado pela editora Sétimo Selo. É o primeiro de quatro tomos. Trata-se do mais importante pensador da Igreja Católica e filósofo de primeiro time. Como escrevo lá, "é um conforto saber que a Igreja nem sempre foi pautada pela teologia zoológica de Leonardo Boff (A Águia e a Galinha) ou pelo cristianismo marxista de Frei Betto."

Quando escrevi o artigo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não tinha tido o "Surto de Garanhuns", que, recomendo, passe a ser internacionalmente catalogado como doença psíquica. Os acometidos de tal mal perdem o contato com a realidade, sofrem ataques de megalomania, superestimam os próprios feitos e se tornam paranóicos. Se forem presidentes da República, aproveitam a oportunidade e metem o nome da própria mãe numa escola pública, transformando em emblema a falta de limites entre o público e o privado.

Coquetel simbólico
Antes que eu avance, quero me deter um pouco nesse aspecto. Não sei qual foi a contribuição da Dona Mãe de Lula à educação. Que eu saiba, nenhuma. Seu feito mais notável foi parir o filho ora famoso. Simbolicamente, ela ascende à história, assim como a Virgem aos Céus, porque teria sido uma escolhida, teria tido o ventre precocemente marcado pela promessa do Advento. Eu sempre desconfiei que Lula visse em si mesmo um novo Cristo. Um cristo (e este vai em caixa baixa, à diferença do Outro) bem mundano, é verdade, que jamais pensou numa Última Ceia como símbolo do auto-oferecimento em holocausto.

Ao contrário: o repasto estava programado para durar mil anos, num gozo ininterrupto, sem fim, garantido pelas tetas do Estado. Seu Deus-pai era o Estado patrão. Imaginem os apóstolos dessa mesa macabra: Delúbio Soares, José Genoino, José Dirceu, Silvio Pereira, Marcos Valério, João Paulo Cunha, Antonio Palocci, Vladimir Poleto... Isso não é a Santa Ceia, mas o elenco de um filme de Martin Scorsese! Só faltou escalar Robert De Niro, Ray Liotta, Joe Pesci e Paul Sorvino.

Observo que Lula repete a história de Paulo Maluf, que deu o nome da mãe a uma obra pública: "Complexo Viário Maria Maluf". Ora, se o outro pode, por que ele não? Lula, afinal, não veio para mudar os maus hábitos, mas para reivindicar o direito de também praticá-los. Tudo muito interessante à luz da psicanálise. O pai, não a mãe, é a figura que responde pelo superego, pela censura. Se o ente masculino é fraco ou desaparece precocemente, sem que outro o substitua com eficiência, há o risco de o sujeito perder as noções de limite, meter os pés pelas mãos e viver num permanente estado de autojustificação. Sua moral se torna lassa, elástica, pronta a acolher qualquer transgressão como uma fatalidade, jamais uma escolha. Reparem como Lula nunca se diz responsável por nada, nunca tem culpa de nada, nunca sabia de nada.

Esse cristo de araque não é o cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo, não é a oferenda expiatória. Nada disso! Ele é, ao contrário, o bode da exultação, aquele que repete ad nauseam que, "nunca antes neste país", fez-se isso ou aquilo. Precisa, permanentemente, piorar o passado para que encontre uma razão de ser para o seu presente. Lula ganha até uma pensão permanente do Estado por um martírio pelo qual ele nunca passou: é aposentado como vítima da ditadura militar, o que é um acinte à história, à inteligência e à moralidade.

E, como se viu em Garanhuns, esse papo de cruz não é com ele. Quer ser o filho parido em ventre santo, mas a sua metafísica é só a do gozo: "Se eu entrar na disputa, vai ser para ganhar". Isso é o que diz o Lula de agora, evidenciando o quão falso era o Lula de antes, aquele das três derrotas (quatro, caso se considere a disputa pelo governo de São Paulo, em 1982). Um dos traços da personalidade perturbada deste senhor era acreditar que, de fato, era Lula. Nem ele aposta mais nisso; nem Lula finge mais acreditar em Lula.

De volta ao mal
Depois desse coquetel mítico, quero voltar ao meu Santo Tomás e suas considerações sobre o mal. Vejam aqui: "Pois se diz em Mateus, VII,18: 'Não pode uma árvore boa dar maus frutos.' O fruto se diz efeito da causa. Logo, o bem não pode ser causa do mal. (...) Além do mais, o efeito tem semelhança com sua causa; pois todo e qualquer agente atua semelhante a ele. Ora, a semelhança do mal não preexiste no bem. Logo, o bem não é causa do mal. (...) Além do mais, aquilo que pertence às coisas causadas preexiste substancialmente nas causas. Logo, se o mal é causado pelo bem, o mal preexiste substancialmente no bem, o que é impossível."

Ah, o conforto do bom pensamento! Aquele Lula do "Surto de Garanhuns" é, sem dúvida, vítima de um mal psíquico, mas também é conseqüência de um profundo mal político. O que pode levar um presidente da República a atacar, ao lado de um ditador como Hugo Chávez, a imprensa (que foi e tem sido generosa com ele como jamais) e o Congresso? Ambos só são adversários de seu projeto político no que este tem de comum com seu parceiro de palanque. Como foi que chegamos a tal ponto? Como é possível que tenhamos de ouvir isso do chefe máximo de um partido que, quando menos, movimentou R$ 55 milhões de origem desconhecida — uma vez que a versão dos empréstimos já está mais do que desmoralizada? É fato que ele próprio, Lula, e seu partido não são os únicos culpados.

A culpa dos analistas
Culpados são também muitos analistas políticos, por exemplo. E aqui não me refiro aos petistas travestidos de pensadores isentos. Falo daqueles para quem, ainda hoje, "o mal pode ser fruto do bem". O que quero dizer com isso? É insuportável ler colunas de jornal em que se acusa o PT de se ter desviado do caminho, como se o Lula que se negou a ir ao Colégio Eleitoral, que se negou a homologar a Constituição, que fez uma central sindical que não se distingue do PT, que infiltrou seus partidários nos Três Poderes da República e em todas as instâncias públicas estatais e paraestatais e que jamais fez oposição propositiva na vida fosse coisa boa, positiva, virtuosa. Ora, então o mal presente não estava já naquilo que se queria antes um bem? Não deriva o mal do bem.

A culpa do empresários
Culpados são os empresários brasileiros, pelo menos uma boa parte deles, que jamais se ocuparam de cuidar dos valores — refiro-me aos valores democráticos — que são precondição para a livre iniciativa. Muitos, durante a ditadura, haviam dissociado seu trabalho da política, colaborando com um regime de força, coonestando-o. Quando falo em "dissociação", não ignoro, evidentemente, o quanto o ainda minguado capital brasileiro é obrigado a sujeitar-se ao Estado, o grande ente da economia, para sobreviver. Sei dessa intimidade, imperiosa às vezes. Mas, Santo Deus!, onde estavam e estão os nossos liberais, antes como agora?

A facilidade com que essa gente se rendeu ao PT é assustadora. Tirem Roberto Jefferson da equação e sua entrevista concedida à Folha no dia 6 de junho deste ano, e onde estaríamos hoje? Um partido político seria, a esta altura, nada menos que o virtual dono de uma banco (lembram-se disso?), cujos fundos teriam origem nos impostos obrigatórios que o Estado arrecada de trabalhadores e empresas. Era o que estava em curso. A lei já faculta à maquina político-sindical um poder imenso nos fundos de pensão, que constituem fatia importante do mercado financeiro e da poupança brasileira.

Quantos foram os que olharam para o modelo petista, que se desenvolvia debaixo de seus respectivos narizes, e concluíram: "Isso não é bom"? Muito ao contrário. Apelando ao que chamariam "pragmatismo", ocuparam-se de se fazer parceiros da máquina político-sindical. Talvez tenham pensado algo como: "Nossa função é ganhar dinheiro; a política que se dane". Alguns se quiseram e se querem até convertidos ao petismo... Oferecem seus salões de iguarias para Lula fazer seus discursos contra as elites. Trata-se de uma piada patética.

A culpa dos mercados
São culpados os tais mercados. Muitos, nesse setor, não têm constrangimento de se considerar uma espécie de urubu da cadeia econômica, limpando as carcaças em nome da suposta salubridade do sistema. "Vamos ganhar apostando em Lula ou contra Lula". Bem, desde que ele faça tudo aquilo que esperam que faça — e ele faz! —, apostar contra por quê? Só não se pode ter um governo considerado "antimercado", ainda que, eventualmente, esse mercadismo signifique abolir, vejam só!, as regras de mercado, atuando contra a própria racionalidade do sistema. Foi o que fez o Banco Central nas últimas rodadas em que decidiu a taxa Selic. Não foi "conservador" apenas porque quis e, de fato, é. Mas porque fez, sempre faz!, o que lhe pediam e lhe indicavam os tais mercados.

É o que explica que se possa fazer um seminário em Nova York para debater a sucessão no Brasil e apontar como característica eventualmente preocupante de um candidato — no caso, José Serra — o fato de supostamente ele ser muito "pró-indústria". Nenhum economista ou teórico conseguiria explicar o que isso teria de negativo, é claro, uma vez que a indústria é sempre o primeiro sinal de aquecimento ou desaquecimento da economia — e, pois, do ambiente favorável aos negócios e ao próprio capitalismo.

A culpa dos intelectuais
São e não são, a um só tempo, os maiores culpados. Em parte, eu os absolvo porque, no geral, não sabem o que dizem. Se estão contaminados pelo mal; se, como quer Santo Tomás, "aquilo que pertence às coisas causadas preexiste substancialmente nas causas", estão, então, impedidos até mesmo de saber o que não sabem. Tornam-se meros prosélitos de uma ordem estabelecida ou pela qual anseiam. Boa parte é dotada daquela inocência dos tolos. E há, evidentemente, os que acreditam piamente que, com Lula, avançam sempre um pouco rumo à sua utopia.

Mas também os condeno. Eles não têm capital, eles não financiam ninguém, eles caberiam quase todos numa Kombi (ainda existe?), mas são formadores de opinião, exercem influência, põem valores para circular. Durante quase um quarto de século, transformaram a universidade numa espécie de trincheira de resistência. E seu alvo principal era o Estado burguês que os financiava. E seu público era justamente uma fatia daquela burguesia e de setores médios que se queriam dotados de um novo iluminismo. O que se produziu foi mistificação, obscurantismo. Não foram nem o Voltaire nem o Robespierre de Lula. Nem fizeram nem cortaram cabeças. Silenciaram em sua obsolescência.

Então...
Chegamos aqui. Chegamos ao ponto em que o homem que ocupa o cargo máximo do país diz, em companhia de um ditador de quinta categoria, que "não estava escrito e previsto na sociologia que um retirante nordestino e torneiro mecânico chegaria à Presidência". Lula não é só ignorante. É obscurantista também. E injusto com os que lhe puxam o saco. A sociologia brasileira, com raras exceções, o que fez foi preparar o terreno intelectual para a chegada de alguém como ele. É óbvio que não sabe o que diz. A sociologia brasileira, seguramente dos anos 1940 a esta data, o que faz é descer o sarrafo nas ditas elites, discurso cuja rabeira Lula mimetiza porque lhe foi soprado aos ouvidos, já que ele não lê nem gibi, pelos "intelectuais petistas" (cada vez mais, um oxímoro!).

Um dos mártires intelectuais do petismo é justamente Florestan Fernandes, maître à penser por excelência do socialismo nativo e teórico da revolução brasileira. Ao contrário: a sociologia brasileira se comportou, ao longo de décadas, à feição desses malucos que se reúnem à espera de discos voadores. Muitos de seus estudiosos viveram as duas décadas que separam, oficialmente, a posse de Lula do fim da ditadura como um tempo de espera, em que a "verdadeira democracia" estaria em gestação: tudo preparado para o poso da nave. De dentro, surgiria o Salvador.

Em vez disso, sai Lula. E o que ele diz? Não se vê nem mesmo como um caudatário dessa sociologia. Comporta-se como a múmia daquele filme trash: maltrata seus anunciadores e revela aquilo em que foi se transformando: um arrivista, sem ideologia, sem convicções, sem formação, sem idéias, sem nada. Os adoradores de demiurgos da universidade acendiam suas velas teóricas para um Tirano de Siracusa e toparam com Zé Mane, um chefete da nova classe social, interessado apenas em garantir e reproduzir as condições materiais que sustentam a sua boa vida e a dos seus.

E, então, retomo Santo Tomás. Tudo isso estava escrito na estrela: "Se o mal é causado pelo bem, o mal preexiste substancialmente no bem, o que é impossível." Se é impossível, então o PT nunca foi o Bem. Ou não teria gerado o Mal, que tem o topete de dar os braços a um ditador para atacar as instituições democráticas. E isso em plena democracia!

[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 18 de dezembro de 2005.

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