Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Abaixo os telhados, a chuva é do povo! Por Rui Nogueira


PRIMEIRA LEITURA

Não sei quanto o leitor está acompanhando, no detalhe, as eleições presidenciais na Bolívia, mas sinto-me no dever de chamar a atenção dos que não sabem o que estão perdendo. Se, até hoje, você não conseguiu entender o que vem a ser o "perfeito idiota latino-americano", então preste atenção no que vem dizendo o candidato cocaleiro, Evo Morales, de um partido intitulado MAS (Movimento ao Socialismo).

Santo Deus! Quando ouço Morales dizer "o gás é nosso", em 2005, no terceiro milênio, regrido mentalmente à virada dos anos 60/70. A melodia da Cantata de Santa María de Iquique invade meus tímpanos. É aquela cantata, do grupo Quilapayún, que todo o violeiro exilado latino-americano tocava nas praças européias à espera de uns trocados, contando a história da repressão e morte de mineiros chilenos, em 1907, na escola da vila que dá nome à composição musical. Todo manifestante latino tinha o bolachão da cantata.

Padecendo de um estatismo grotesco, financeiramente arrombada e tecnicamente velha e esculhambada, a indústria boliviana de gás e petróleo chegou ao fim dos anos 90 mais empobrecendo do que enriquecendo a sociedade. A Petrobras, entre outras empresas, mais ela mais do que todas, foi fundamental para transformar uma indústria apodrecida na única indústria eficiente que hoje move a economia e o PIB bolivianos.

Foi a Petrobras que comprou, em 1999, as refinarias de Chochabamba e Santa Cruz de la Sierra e transformou sucata em estruturas produtivas. Nunca uma indústria produziu tanto e pagou tantos impostos, numa situação que faz parecer que a Revolução Industrial começou agora a desembarcar na Bolívia. Agora, Morales prega como meta nacionalisteira "recuperar as nossas refinarias". "Os hidrocarbonetos são nossos, precisam voltar às mãos dos bolivianos", berra!

O perfeito idiota latino-americano revela-se por completo quando olha para o parque industrial montado pelos brasileiros e diz: "Se for necessário pagar [para o Estado boliviano tomar as refinarias], isso será feito depois de um estudo". No apagar do ano 2005, a América Latina hospeda um dilema eleitoral deste porte e põe os bolivianos diante da perspectiva de um "vitorioso" regresso ao início do século passado, quando o mundo operário, socialista e de nacionalistas afins achava que deveria derrubar os telhados porque a chuva era do povo.

Era o tempo em que perdíamos mais tempo protegendo as "nossas riquezas" do que estabelecendo uma estratégia comercial para explorá-las da maneira mais produtiva possível, vendendo-as pelo melhor preço a quem quisesse comprá-las. Evo Morales quer o gás nas mãos do "povo" da Bolívia? Acho que sim, que os bolivianos devem dormir em colchões de gás, comer gás, estocar gás nos fundos das casas, presentear as crianças com balões a gás, construir um grande museu do gás, montar uma indústria do turismo pirotécnico movida a efeitos especiais gasosos e sei lá mais o quê à base de gás.

O mais incrível é que, no século do Estado de Direito, o provável presidente boliviano acha que a indenização dos investimentos da Petrobras em refinarias, gasodutos e postos de distribuição de combustíveis, algo que só à partida exigiu mais de US$ 200 milhões, pode ser tomado a custo zero. Isso só não é mais incrível porque Morales esteve no Planalto, no dia 18 de novembro passado, disse a Luiz Inácio Lula da Silva que ia mesmo tomar as refinarias da Petrobras, se eleito fosse, e o presidente brasileiro ainda saiu elogiando o operário boliviano. Lula achou-o o melhor dos candidatos.

Mancada diplomática à parte, Lula cometeu, isso sim, uma torpeza com o país ou compactuar com as intenções de Morales. Deveria ter vindo a público dizer dos propósitos do cocaleiro e defendido os negócios brasileiros na Bolívia. Se nem para os bolivianos Morales é o melhor, pois está lhes oferecendo um futuro politicamente enganoso e econômica e socialmente gasoso, o que ele disse a Lula para que o presidente brasileiro o tenha julgado um bom candidato?

Vai ver que o sonho de Lula para um segundo mandato espelha-se no jeito e nas crenças Morales de governar.

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