BLOG: Ricardo Noblat
" A prestação de contas da CPI dos Correios apresentada ontem não traz boas notícias para o governo.
Em primeiro lugar, tornou-se muito mais concreto aquilo que se afirma em Brasília desde o início da crise: o mensalão existiu mesmo, ao contrário do que afirma até hoje o presidente da República.
E as provas estão aparecendo. Coincidências entre pagamentos a deputados e votações na Câmara, repasses de verbas para partidos da base aliada, financiamento de troca de legendas por deputados, pagamento de dívidas de campanha.
O documento do relator Osmar Serraglio chega a identificar pagamentos ao PTB concentrados em maio de 2003, período de forte mudança de deputados para o partido.
Só para lembrar, o PTB elegeu 26 deputados federais em 2002. No dia da posse do presidente Lula o partido já contava com 40, que rapidamente se transformaram em 52 deputados. Ou seja, o PTB dobrou a bancada em cinco meses. Agora a CPI está demonstrando como e por quê este milagre aconteceu.
A mesma coisa em relação ao PP, que recebeu vultosos recursos entre janeiro e fevereiro de 2004, quando vários deputados se transferiram para o partido, também da base governista.
Mas o relatório identifica ainda algumas fontes públicas dos recursos que jorraram nas contas de Marcos Valério: Banco do Brasil, Eletronorte, Ministérios do Trabalho e do Esporte e Correios, além de secretarias estaduais e fontes privadas.
Portanto, está criado o impasse. Se aprovar o relatório, a CPI estará afirmando que a base governista cometeu crimes de sonegação fiscal, improbidade administrativa, formação de quadrilha, desvio de dinheiro. Sem contar o crime político de compra de bancadas partidárias para votarem com o governo. Grossa corrupção, enfim.
Isto tudo envolve o partido do governo e seus aliados e, portanto, envolve o próprio presidente da República, que já declarou que é sua a responsabilidade política, como primeiro funcionário público do país e responsável maior pela ética pública.
Se não aprovar o relatório, a CPI vai enfrentar o inevitável desgaste político, e tudo vai passar a depender do Ministério Público.
Mas se não incluir também o uso de caixa 2 e as andanças de Marcos Valério na campanha tucana de 1998 em Minas Gerais, o impasse será ainda maior.
Agora, o pior dos mundos certamente vai acontecer se o relatório final simplesmente não for votado, como aconteceu com os relatórios das CPIs do Banestado e do Mensalão.
Será o último ato para a completa desmoralização do Congresso Nacional e da classe política em geral. E tudo isto às portas das eleições gerais de 2006.
Vai ser um Deus-nos-acuda."