A candidatura de Evo Morales, que se as pesquisas estiverem certas será eleito hoje presidente da Bolívia, arrastou o país andino para uma encruzilhada.
O deputado e líder cocaleiro — favorito não só do presidente Hugo Chávez, da Venezuela, mas também de Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil — já anunciou a intenção de nacionalizar as refinarias bolivianas, se for eleito. Para os eleitores, isso é promessa de campanha, que, no entanto, se vier a ser cumprida, não garantirá aos bolivianos um futuro pacífico e risonho. Para a Petrobras, que administra as refinarias, e portanto para os interesses do Brasil, que investiu pesadamente na Bolívia para garantir o abastecimento de gás, é ameaça gravíssima.
Pior ainda, talvez, é a hipótese de Evo, como é universalmente conhecido, vencer nas urnas e não ser confirmado pelo Congresso, como prevê a Constituição. Poderia ser o estopim de uma guerra civil, que para muitos parece inevitável, tendo em vista a polarização das forças políticas e as profundas divergências entre as províncias ricas, com aspirações autonomistas, e as mais pobres, com ressentimentos históricos.
Evo despertou a admiração dos despossuídos do seu país — um dos mais pobres da América Latina — tanto pelas idéias incendiárias como pela biografia de menino sem futuro que se tornou um dos mais importantes líderes políticos bolivianos.
Embora por suas posições radicais ele seja em parte responsável pela instabilidade política, os seguidores acreditam que a chegada à Presidência de um índio aimara representaria o fim de 180 anos de opressão e exploração. Para a elite sua provável eleição é quase certeza de um violento processo de fragmentação nacional. Já a classe média aos poucos se deixa embalar por suas promessas de uma Bolívia menos corrupta e mais justa, vendo em sua liderança a possibilidade de mudanças sem ruptura.
Se Evo for levado pelas realidades da Presidência a deslocar-se para o centro, é possível que as expectativas da classe média se concretizem. Caso persista na rota da radicalização, o Brasil, apesar das simpatias declaradas de Lula, muito provavelmente será chamado a desempenhar o papel de mediador. O partidarismo açodado de Lula será um complicador.