Se a inconcebível absolvição do deputado Romeu Queiroz, do PTB mineiro, for transposta para o mundo do crime, ela equivale à Justiça não mais punir as "mulas", as pessoas contratadas pelo tráfico para transportar drogas. Diante da aceitação da defesa de Queiroz de que sacou dinheiro do propinoduto do PT e de Marcos Valério para o partido, sem embolsar um centavo sequer, os advogados das "mulas" podem agora se valer do mesmo argumento para tentar inocentar clientes que não tenham cheirado a própria carga. Seria um absurdo.
Como foi absurda a aceitação da tese pela Câmara dos Deputados, um ato que mancha o Parlamento. Afinal, tanto quanto as "mulas", Queiroz cometeu crime ao conscientemente ser portador de mercadoria ilegal. Não importa se o acusado desviou dinheiro do propinoduto petista para contas privadas ou partidárias, interpretou com acerto o Conselho de Ética da Câmara. Ao ter acesso àqueles recursos, independentemente das cifras sacadas, o deputado foi conivente, sócio do esquema. Deveria ter sido cassado.
Para completar o golpe contra a ética, a sessão que livrou Queiroz da cassação, na noite de quarta-feira, foi palco de pressões descabidas de aliados do deputado para forçar colegas a rejeitar a indicação do Conselho, tendo havido invasão de cabine de votação e até uma irregular distribuição de cédulas já marcadas com o "não" à cassação. A Mesa da Câmara precisa avaliar esses acontecimentos.
Há o grave risco de a absolvição de Romeu Queiroz ser apenas a primeira, se a bancada pluripartidária que agiu para livrá-lo continuar ativa. O deputado mineiro também recebeu ajuda do regionalismo, pois até o governador tucano Aécio Neves agiu, de forma injustificável, para salvá-lo.
A absolvição do deputado significou a descabida concordância com a tese de que caixa dois eleitoral não é crime, e de que não existiu o mensalão — apesar de todas as provas sólidas do fluxo de dinheiro ilegal para aliados do governo. A esdrúxula votação de quarta-feira alerta o país para a possibilidade de tenebrosos conchavos para deixar impune a bancada desse propinoduto. A vítima final será a política e a própria imagem do regime de democracia representativa.