Ao que se saiba, o presidente Lula não fez psicanálise nem antes nem depois de ascender ao Planalto. Tivesse feito, o terapeuta decerto teria oportunidades de sobra para levar o paciente a perceber a sua propensão para uma operação mental que não chega a ser propriamente rara, mas quando repetida em excesso sugere que a pessoa padece da neurose de escassez de autocrítica e de percepção enviesada da realidade que o cerca. A operação consiste em atribuir aos outros atos condenáveis de autoria própria. No caso de Lula, ou disso se trata ou é caso de má-fé política. Dias atrás, em um evento no município pernambucano de Ipojuca - o lançamento da pedra fundamental de uma refinaria da Petrobrás em parceria com a sua homóloga venezuelana - e talvez sob efeito da caudalosa oratória do presidente Hugo Chávez, Lula investiu contra a oposição e a imprensa com redobrada dureza. Responsabilizou-as pela crise de corrupção que fez desmoronar os seus índices de popularidade e suas chances reeleitorais a ponto de levá-lo a afirmar que só disputará o segundo mandato se tiver certeza da vitória, a esta altura uma hipótese para lá de duvidosa. Falando depois de Chávez - cuja arenga de 53 minutos só não durou mais porque o povo fê-lo perceber que não agüentava mais -, ele como que culpou a oposição pelo seu continuado deslizamento nas pesquisas diante dos tucanos José Serra e Geraldo Alckmin. "No Brasil o clima é pré-eleitoral", diagnosticou. "A oposição está nas ruas gritando há alguns meses." Ora, nem os lulistas de quatro costados, se tiverem um mínimo de honestidade intelectual, negarão a verdade chã de que "na rua gritando" está o presidente - e não há alguns meses, mas há quase três anos, desde a sua posse. Da imprensa, a sócia da oposição no golpismo em marcha - segundo as fantasias fabricadas pelo aparato petista para não assumir as culpas que até alguns companheiros julgam inaceitáveis e imperdoáveis -, Lula mais uma vez disse cobras e lagartos. Naturalmente, sem a mais remota preocupação com os fatos à vista de todos ao longo desse mais de meio ano de denúncias sucessivas. Se, em discurso anterior, a oposição foi comparada à entidade empresarial venezuelana Fedecámaras, que já tentou derrubar Chávez pela força, agora a imprensa brasileira é que foi comparada à sua congênere do país vizinho. Governantes autoritários abominam os portadores de más notícias. Na Antiguidade, os potentados matavam os mensageiros cujas mensagens os enfureciam. No mundo contemporâneo, os líderes de formação democrática reagem com filosófica resignação ao que consideram injustiças dos meios de comunicação. Lula, nem pensar. Afirma que está ocorrendo no Brasil "algo semelhante" à Venezuela, onde, segundo a sua interpretação, Chávez tem sido vítima de propaganda e ofensas pessoais que ele, Lula, jamais teria imaginado que pudesse acontecer num país democrático. Falso. No Brasil, desde quando partiu da imprensa a iniciativa de vincular o PT e o governo ao esquema de corrupção disseminada que veio a ser resumida no termo mensalão? Não foi a mídia que apurou que o partido no poder comprava políticos. Foi o então deputado Roberto Jefferson. Não foi ela que acusou o PT de ter caixa 2. Foi o então tesoureiro Delúbio Soares quem confessou o repasse de "recursos não contabilizados", para não ter que confessar o suborno de deputados. Não foi a imprensa que inventou os milionários empréstimos do publicitário Marcos Valério. Foi ele. Não foi ela que descobriu que o marqueteiro Duda Mendonça abriu uma conta clandestina no exterior para receber do partido por serviços prestados. Foi ele mesmo quem contou. Os eventuais exageros e impropriedades da mídia na cobertura e avaliação dessas e outras maracutaias não foram nem sequer proporcionais à rede de mentiras costurada para desmentir o indesmentível e às tentativas do Planalto para sufocar no nascedouro a CPI dos Correios - enquanto Lula jurava e tornava a jurar que o governo queria que tudo fosse apurado e os culpados, punidos, mesmo que isso significasse "cortar na própria carne". E alguma vez ele ouviu ou leu um texto de responsabilidade de meio de comunicação pregando o seu impeachment? Vá ao divã, presidente. Poderá lhe ser útil.
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Entrevista:O Estado inteligente
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terça-feira, dezembro 20, 2005
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