Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, dezembro 20, 2005

ARNALDO JABOR A política no Brasil virou ficção inútil

O GLOBO

Quando eu vi o Lula vestido de Papai Noel, foi demais para mim. Tive a "náusea", pura, sartriana, e fugi para a arte. Coloquei "Colossus" no som, o genial CD de Sonny Rollins, e depois outra peça genial, o encontro entre Thelonious Monk e John Coltrane, raro, recentemente editado. Queria esquecer o Lula, o Gushiken, todos mentindo na mídia.

Abri livros de pintura, fugi do horror do mundo para a arte contemporânea, mas, aí, parei sem conseguir esquecer da vida, pois não vi, na arte de hoje, bálsamo algum. E tive a dor inapelável e cruel: na arte atual não há esperança. Isso mesmo: sem esperança. Vivemos diante de um futuro que não chega e de um presente que nos foge sem parar. Isso nos faz saudosos do presente como se ele fosse um passado. Há qualquer coisa de podre na arte contemporânea. Rosnem de ódio, netinhos de Duchamp, gritem "militantes imaginários", uivem instaladores de nada, mas há uma terrível ausência, um grande vazio em museus e bienais.

Vivemos a dor de uma transição dos tempos do Sentido para uma era indefinível, como uma mudança de pele, sem saber se vamos para uma Renascença ou uma Idade Média. Todas as reflexões ficaram céticas, deprimidas, descrevendo impossibilidades e becos sem saída. Antigamente, mesmo nas obras de encomenda de duques e cardeais do século XVI, feitas por empregados dos poderosos, havia um fervor religioso ou meramente fabril, havia uma fé na beleza, nos ventos novos que humanizavam a figura, que criavam a "perspectiva", uma idéia de tempo, de progresso, longe da platitude medieval. A genialidade de artistas como Tintoretto não buscava mais a representação estática de uma imobilidade submissa, mas a captação de um momento de agonia ou de triunfo, um exemplo de grandeza a se atingir.

Na arte moderna, o entusiasmo se desenhava no início do século XX, a arte era uma militância por uma beleza construtiva, o olho humano sendo enriquecido, no desejo de que a vida se aperfeiçoasse, unida às grandes utopias do século XX, como o socialismo e até mesmo o fascismozinho do futurismo italiano. Nos artistas modernos, mesmo quando a postura era depressiva, havia na forma e na atitude um desejo visível de mudança para melhor.

Só que depois do 11 de Setembro, principalmente, ficou claro que o mundo é hoje muito pior que qualquer representação desesperada. A destruição que vemos na vida, a sordidez mercantil, a estupidez no poder, o fanatismo do terror, a boçalidade da indústria cultural, o beco sem saída do racismo e do fundamentalismo, a destruição ambiental, em suma, toda a tempestade de bosta que nos ronda está muito além de qualquer "denúncia" artística. O mal é tão profundo que denunciá-lo mecanicamente, destruindo a própria arte como uma "prova do crime", está virando uma ociosa cumplicidade.

Nos anos 60, com a arte pop, todo o desespero crítico ou parodístico tinha um alvo construtivo. Havia esperança na angústia. Hoje, sobrou apenas a psicose como bandeira crítica de uma vida sem solução. Mesmo no absurdismo dos anos 40-50, havia uma esperança de liberação individual — no existencialismo, no marxismo reformado — mas hoje caímos numa afasia que os pensadores tentam transformar em sabedoria do nada. O absurdo deu lugar à melancolia.

Claro que há os talentos de exceção sempre, mas o clima geral dos estilos é uma visão de terra arrasada, o uso de materiais brutos e sujos, desarmonia, assimetria, uma busca deliberada da feiúra, uma visível vergonha de ser "arte", vergonha de provocar sentimentos de prazer. A fruição poética é impedida, por ser "burguesa", como se a beleza fosse uma coisa reacionária, "alienada", ignorando o "mal do mundo". Tudo bem que a arte tem de acusar o golpe do mundo imundo, tudo bem, mas há uma inércia, uma facilidade, um oportunismo nesse desespero. O bode preto virou um pretexto para picaretagens construtivas e destrutivas e para a justificação ideológica da falta de talento. Talento aqui como algo que, mesmo na feiúra da morte, seja uma exaltação da vida. Nunca esqueço da frase de Stravinsky: "A obra de arte deve ser exaltante ". Não se trata de uma cegueira complacente com o erro, mas uma ação exaltante da existência humana.

Sobrou para os artistas uma atitude geral masoquista, se mutilando na body art, se furando, querendo recuperar uma importância que tiveram nos tempos do modernismo, nem que seja pela destruição de si mesmos. Aceitar o efêmero da arte é vivido como a aceitação da morte. A morte da "aura" da arte está mais difícil de aceitar do que se pensava. Assim, o artista se vê como um profeta abandonado, e ele mesmo passou a usar a luz da "aura", passou a ter "aura", como um halo, como uma coroa de espinhos para sua solidão. O artista quer virar a obra de arte. E tudo faz para esquecer seu abandono, mesmo que seja expor seus excrementos numa latinha na Bienal de Veneza.

O problema é que esse desejo de denúncia não deixa um espaço para algo que possa viver, renascer. É como se a própria arte fosse uma babaquice a ser evitada, na linha direta da herança mal-entendida e descontextualizada de Duchamp, o estraga-prazeres dos anos 20.

E aí vemos a verdade: a arte contemporânea está muito aquém da realidade. Digo isso, porque, se o negócio for eventos de destruição e crítica do capitalismo, ninguém é melhor artista que os homens-bomba e o Osama bin Laden.

Pensando essas coisas, voltei desesperançado para a política brasileira. E lá estava no jornal o Lula vestido de Papai Noel.

Entendi então, estarrecido, que a política no país virou uma performance, uma instalação inútil, tão desnecessária quanto a arte niilista de hoje.

E entendi também que uma nova esquerda no país teria de trabalhar com fé e sem esperança, sem saber para onde vai.

E que a arte tem de se mesclar à vida, como queria Nietzsche, virando, também sem esperança, um bailado sem finalidade, mas parindo "estrelas dançantes" que nos tragam uma felicidade efêmera, mas profunda.


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