Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, dezembro 22, 2005

DORA KRAMER Assim é porque parece

Assim é porque parece

DORA KRAMER

dkramer@estadao.com.br

Relatório da CPI fala de fatos e remete as negativas ao campo das versões A exaustiva e - por que não dizer - enervante repetição dos bordões "a CPI não provou nada", "o mensalão não existiu", "Roberto Jefferson foi cassado porque mentiu" e outros do gênero parece coisa de gente que, pega em flagrante delito (seja ele qual for), não tem outra defesa a não ser negar as evidências.

É a lógica, por exemplo, do traidor impenitente. Ante a realidade dos fatos, faz do "não é o que parece" seu último recurso, no intuito de levar o traído a duvidar dos próprios olhos e ouvidos. Ou na esperança de, mediante teimosia sem quartel, vencer o espectador pelo cansaço.

É esta a tática adotada pela maioria do PT e pelo presidente da República em particular. Foi basicamente contra ela que a CPI dos Correios resolveu ontem apresentar de maneira sistematizada e didática o rol de malfeitorias descobertas a partir das denúncias de um de seus partícipes, o ex-deputado Roberto Jefferson.

O relator Osmar Serraglio foi até bastante contido na apresentação dos ilícitos: fraudes contábeis, falsificação de dados para direcionar licitações, tráfico de influência, uso de notas fiscais frias, existência de um esquema de financiamento de partidos para aliciar políticos a integrar legendas solícitas ao poder e orientar votações no Congresso.

Ainda antes do relatório final, a CPI apresentou uma peça acusatória da consecução de ilícitos suficiente para reduzir as negativas insistentes à condição de meras versões defensivas sem conexão com a realidade.

Trata-se de uma referência, senão para punições mais graves - dada a óbvia opção do "establishment" social e político pela tolerância -, certamente para a formação de um juízo a respeito da condução dos envolvidos em suas funções públicas ou/e privadas.

Independentemente de escaparem de sanções mais pesadas, nenhum deles será mais o mesmo. Nem Marcos Valério Fernandes de Souza prestará serviços ao poder como há anos prestava, nem o PT poderá tão cedo ocupar espaços de afirmação ética sem incorrer impunemente no pecado do cinismo, nem os prevaricadores sobreviverão incólumes ao crivo da opinião pública, nem o presidente Luiz Inácio da Silva recuperará a confiança e a credibilidade construídas ao longo de uma vida e destruídas não só pela crise, mas principalmente pela sua forma soberba e agressiva de enfrentar a adversidade.

Ameaçada de ter seu trabalho de sete meses de investigação, cruzamento de dados e confrontação de depoimentos desmoralizado no pântano da profusão de meias-verdades e mentiras maquiadas, a CPI dos Correios apresentou ontem sua defesa.

Não chegou, é fato, a resultados perfeitos. Não alcançou a situação ideal do desenho de um mapa completo da corrupção com todas as suas origens, destinos, originários e destinatários.

Foi, entretanto, muito além do esperado quando, no início, o intrincado dos esquemas, a recusa dos envolvidos em contribuir com as investigações, a insistência de autoridades na defesa do indefensável e a insinuada disposição de todos - todos, sem exceção - os partidos para acordos de ocasião indicavam que poderiam ter razão os que apostavam num destino frustrante para a CPI.

A comissão, reconheçamos, fez o que pôde e, em determinadas ocasiões, foi além do pretendido e até do permitido pelas circunstâncias. Mérito da resistência de alguns de seus integrantes, mas mérito maior ainda da opinião pública, que não se deixou convencer por argumentos destinados a atenuar a gravidade dos episódios, enquadrando-os sob o guarda-chuva da vocação endêmica da política à prática do peculato.

Pois muito bem, a CPI mal ou bem fez o seu papel. À sociedade que, em última análise, com seu voto parte e reparte, cabe ter a arte de optar por ficar com a melhor parte.

Boca torta

A louvação à "firmeza democrática" do Brasil, tomando como exemplo o curso de investigações sem interferência explícita dos instrumentos de Estado, é atitude tão recorrente quanto reveladora da fragilidade democrática na representação do pensamento nacional.

Acontece sempre nas manifestações de governantes que se sentem dignos de reverência por não infringirem a lei, aconteceu do novo ontem na apresentação do relatório parcial da CPI dos Correios, nos discursos do relator Osmar Serraglio e do deputado Jorge Bittar.

A despeito das boas intenções democráticas, já seria a hora de o País parar de tratar a normalidade institucional como situação excepcional.

Método

O presidente Lula lança o nome de Dilma Rousseff como possibilidade de alternativa à sua candidatura, sabedor da inexistência de capital eleitoral no patrimônio da ministra.

Estimula a versão de que Ciro Gomes pode vir a ser sua opção, consciente da reprovação eleitoral do então candidato do PPS à Presidência da República em 2002.

Pelo visto, Lula adota o método de confundir no pressuposto de emergir absoluto da confusão.


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