O GLOBO
Maus policiais existem em toda parte e em qualquer tipo de estrutura montada para defender lei e ordem. No Estado do Rio, o problema tem característica particular: aparentemente, são mais comuns e mais violentos os crimes brutais cometidos por policiais militares.
Nos últimos anos, os episódios mais chocantes foram as chacinas da Candelária (oito meninos de rua assassinados, em 1993), de Vigário Geral (21 inocentes mortos para vingar a morte de quatro PMs), do Morro do Borel (quatro homens sem antecedentes criminais mortos em 2003) e de Niterói (cinco pessoas, das quais quatro menores, executados por quatro PMs).
É claro que isso não espelha o caráter e o comportamento da maioria da corporação, e a Polícia Civil também tem suas maçãs podres, mas aparentemente registra mais casos de corrupção do que de brutalidade extrema.
Não há explicação conhecida para isso. A repressão existe, e é aparentemente rigorosa. Mas também não se sente no ar e nas providências punitivas grande esperança de que as chacinas não se repetirão.
O problema obviamente afeta as relações entre policiais civis e militares. É prova disso episódio recente: policiais civis apresentaram à imprensa um rapaz detido numa favela usando, por ordem deles, um uniforme da PM, com um fuzil nas mãos. Pode ter sido um recado deliberado — ou seja, uma provocação — ou apenas um acesso de estupidez de quem armou o cenário sem pensar nas conseqüências. Em qualquer hipótese, é sintoma de divergência, atrito e desconfiança entre as corporações.
Na cúpula, o comando é um só. Dois ou três níveis abaixo, parece ser cada um por si e pior para nós.
Há países onde a separação de policiais civis e fardados em corporações e carreiras diferentes funciona. Em outros, como os Estados Unidos (como vemos nos filmes e na literatura policial, fontes absolutamente confiáveis para o leigo aqui), o agente fardado pode subir na vida sem abdicar do uniforme, mas também pode passar de guardião das ruas a investigador à paisana. O sistema em si não garante honestidade nem uso racional e contido da força, mas pelo menos não parece estimular o relacionamento quase adversário e certamente contraproducente do sistema brasileiro.
O nosso policial militar (falo principalmente do Estado do Rio), pelo soldo que ganha honestamente, é forçado a viver perto demais de quartéis-generais da distribuição de drogas. A tentação de aderir ou o medo de não fechar os olhos pode ser irresistível — e a culpa é do sistema. O mesmo sistema, é bom lembrar, que jamais criou condições que permitissem ao praça da PM não ser vizinho de bandido. Quem perguntar a uma mulher de PM se tem coragem de pôr a farda do marido para secar no varal do quintal começará a entender um pouco do problema. Em outras palavras: o índice de corrupção nas PMs é detestável. Mas talvez quase inevitável.
Para virar o jogo, talvez seja necessária uma frente única, de alto a baixo. Não duas corporações sob a mesma cúpula, lá no alto. Mas um só sistema policial, em que a vigilância nas ruas e a investigação de crimes tenham mais do que um comando unificado. E seja um organismo com as mesmas raízes e em que cada indivíduo tenha iguais chances de subir na vida — em alguns casos, usando a farda ao longo de toda a carreira, em outros, passando da farda para a roupa civil. Sem que isso implique rivalidade, mas especialização. E estimule a camaradagem de irmãos em armas, todos entendendo que prevenção e repressão são duas frentes do mesmo combate.
Seria longo processo — talvez parecido, mas não cópia de experiências de outros países. Dar ao PM condições para não ser vizinho de traficante pode ser um bom primeiro passo.
Mais adiante no caminho, talvez um policial civil pensasse duas vezes antes de vestir de PM um bandido vagabundo para exibi-lo aos fotógrafos.