A notícia econômica mais preocupante, talvez assustadora, no cardápio das possibilidades imediatas ainda é a de um tumulto longo na política da Arábia Saudita. Mas, enquanto se espera que a novidade catastrófica de choque do petróleo (não) venha, é conveniente lembrar de algumas histórias mais amanhecidas e menos incertas sobre o curso do crescimento mundial.
Sobre o petróleo, observe-se ainda e de vez que uma Líbia sozinha não faz um verão de gasolina cara nos EUA, cara a ponto de derrubar o consumo pessoal e as margens de empresas de modo significativo, pelo menos dizem os economistas norte-americanos mais entendidos.
A situação decerto ainda é bem séria, mas o anúncio do Kuait, de que vai colocar mais óleo nos canos, e a sugestão de um encontro dos países petroleiros (Opep) deu um tombo nos preços do barril. No mais, a revolta dos povos árabes parece, no momento, arrefecer.
Enquanto a gente torcia pelas revoluções, os problemas mais tediosos do resto do mundo continuavam seu curso. Ninguém mais lembra da crise da dívida europeia ou menos ainda acredita na seriedade dos seus efeitos, embora o tumulto de Grécia, Irlanda e companhia tenha provocado uma desaceleração na economia mundial nos dois trimestres do meio do ano passado.
Pois então, a Grécia está de novo no bico do corvo. A taxa de juros para financiar o governo grego voltou ao nível recorde, sinal objetivo de que a praça do mercado voltou a acreditar em "reestruturação" da dívida grega -isto é, em um calote organizado. Isso depois de a União Europeia ter arrumado mundos e fundos para tapar buracos nos países endividados, além de induzir seu Banco Central a sustentar ou financiar, indiretamente, a dívida grega.
Ainda na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) avisa que os juros irão subir, talvez já em abril. Não se trata de um terremoto. O efeito disso no crescimento mundial não será, a princípio e de imediato, tão grande -a eurolândia já cresce pouco. Mas entra alguma areia na produção mundial, até porque a Europa é o grande mercado chinês.
Na China, não passa quinzena sem haver medida de controle da inflação, uma daquelas medidas confusas e "heterodoxas" que a ditadura chinesa usa para controlar crédito e preços. Mas controlar inflação implica sempre crescer menos. Na China, isso talvez signifique passar de 10% de avanço anual para 8,5%. Não é pouco, pois o grande diferencial de crescimento do mundo vem da China, da Índia e até do Brasil.
Os americanos são mais pragmáticos do que os fanáticos do BCE. Ben Bernanke, presidente do Fed, o BC americano, diz e repete que a recuperação da economia americana ainda não é forte o suficiente. Logo, nada de mexer em juros tão cedo. Mas o Partido Republicano quer dar um nó no assustado democrata Barack Obama e cortar gastos a fundo, o que pode limitar o crescimento e a ainda fraca, embora surpreendente, recuperação dos Estados Unidos.
Há inflação pelo mundo inteiro, embora quase todo mundo relute em elevar juros, em especial para evitar apreciação da moeda e fluxos de dinheirama especulativa. Mas, ainda assim, se recorre a medidas "macroprudenciais" ou heterodoxas mesmo para controlar preços.
"Hetero" ou "ortodoxas", trata-se de arrefecer as economias.
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