ENTREVISTA FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Folha de S Paulo
"EUA não têm mais como impor nada para o mundo"
PARA EX-PRESIDENTE BRASILEIRO, OBAMA CHEGA AO BRASIL EM UM MOMENTO QUE 'NÃO DÁ MAIS PARA PENSAR EM TERMOS NORTE-SUL'
ELIANE CANTANHÊDE
COLUNISTA DA FOLHA
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, 79, diz que o presidente Barack Obama chega hoje ao Brasil num novo momento mundial, em que "os EUA vão parar de gritar, vão ter de sussurrar".
Em entrevista à Folha, acrescentou que os EUA precisam mudar com o mundo: "Não dá para ser mais aquele isolacionismo imperial, do "eu quero" e acontece".
Na opinião dele, o abalo nas relações Brasil-EUA na era Lula foi por causa do Irã, mas a presidente Dilma Rousseff não está promovendo guinada, "só ajustes".
Dilma convidou FHC e todos os outros ex-presidentes para participar de um almoço oferecido a Obama hoje em Brasília.

Folha - O que esperar da vinda de Obama?
Fernando Henrique Cardoso - É um sinal importante que ele venha e que venha agora, num momento em que não dá mais para pensar mais o mundo em termos de Norte e Sul. O Brasil olhou os EUA a vida inteira com o complexo de eles serem Norte e nós, Sul. Apesar da retórica, o fato de discriminar os EUA indicava inferioridade. Não precisamos mais disso.
Por que o abalo nas relações Brasil-EUA?
Sobretudo por causa do Irã. Você se meter no Irã sem ter cartas para jogar era e é arriscado. O que você ganha com isso? E com direitos humanos não dá para brincar. O Lula era visto como homem que vinha da esquerda e fazia uma política sensata. Aí, todo mundo se perguntou: "Ele teve recaída insensata?"
E com a Dilma?
Com os poucos sinais que a Dilma deu, as coisas já começam a se desanuviar.
A decisão do Obama de não vir ao Brasil no governo Lula foi um sinal de insatisfação?
Acho que sim. Nem diria de insatisfação, mas de reserva, de cuidado, por causa do Irã. O governo Lula não foi um governo antiamericano. Você pode falar que foi leniente na questão de direitos humanos, mas os americanos também são. Quando é do interesse deles, eles não se preocupam tanto assim com direitos humanos.
O que gerou a cambalhota da balança comercial? De um superavit de quase US$ 10 bilhões com os EUA em 2006 o Brasil passou a um deficit de quase US$ 8 bilhões em 2010.
Nós deixamos de exportar para os EUA, o que é uma coisa grave. Eles são o maior mercado do mundo. Como houve essa supervalorização do Sul... Não que eu ache errada em si, o que está errado é que foi em detrimento do Norte. Não sou contra a relação com o Sul, não. Sou contra é a ideologia Sul-Sul.
No discurso oficial, a cambalhota foi resultado do câmbio baixo. E o viés ideológico?
No mínimo, é um conjunto. E uma boa questão é o que o governo Dilma vai fazer para desvalorizar o real. Neste momento, é impossível. A saída é atacar o custo-Brasil, o custo-transporte, o custo do imposto, a falta de uma reforma tributária, para não falar na trabalhista.
Qual sua opinião sobre a possibilidade de os EUA fazerem compra antecipada do pré-sal, como a China já fez antes, na base do financiamento?
Tem que ir com jeito com os EUA e com a China, porque você está vendendo o futuro e não houve uma discussão profunda sobre o pré-sal.
E a política externa, o sr. está sentindo uma guinada?
Guinada é forte, pode ser ajuste. A Dilma já enviou sinais de ajustes, já avisou: "Eu não posso... pra mim, direitos humanos é universal".
Como o Brasil deve se colocar na polaridade EUA-China?
Há interesse do Brasil e dos EUA em se aliar. Os EUA, sozinhos, já não têm mais como impor nada ao mundo, mas é preciso o Brasil entender que os nossos interesses não se alinham numa só direção. Vamos ver que sinal o Obama vai emitir. Se for de que, em certas matérias, vamos jogar juntos, nós não devemos achar que estamos nos subordinando aos EUA.
Em que matérias?
Em meio ambiente, eventualmente na questão nuclear, na Rodada Doha. Vamos forçar a China a entrar num jogo mais puro para todos nós. E mantém-se a política tradicional nossa, de defesa da democracia e dos direitos humanos, sem incensar ditadores na expectativa de que votem em nós para o Conselho de Segurança.
O sr. apostaria que Obama vai repetir aqui o que fez na Índia e apoiar o Brasil para o Conselho? Se não, a viagem vai ficar carimbada como fiasco?
Fiasco eu não diria, mas frusta. E frusta o governo, porque o país nem nota, nem sabe. Acho muito mais vantajoso ter uma ação mais efetiva no G-20, no FMI, no Banco Mundial do que no CS.
Como o sr. imagina os EUA daqui a 20, 30 anos?
O polo mundial se deslocou para os EUA depois que eles ganharam a guerra, porque tiveram capacidade de inventar novas tecnologias e formas de produção. E, agora, a internet, toda essa onda de nova mídia, foi feita lá. A competição estratégica vai ser entre quem vai ter mais capacidade de inovar.
Efeitos da crise?
Eles vão ter de entender que a governança global não se dá mais num diretório fechado. Não dá mais para ser aquele isolacionismo imperial do "eu quero" e acontece.
E o Obama?
Ele entrou num mau momento, pegou uma crise gigante, teve dificuldade imensa em fazer o avanço social e algum ele fez. Se as coisas continuarem assim, pode se reeleger, porque não tem nome forte no outro lado.
E a política externa?
O Obama fez aquele discurso no Egito com uma proposta de conciliação. E daí? Assim como foram surpreendidos pelo fim da URSS, também foram agora com as revoltas no mundo árabe. E ficam atônitos, porque têm essa contradição de apoiar o errado. O chinês só grita quando pisam no calo dele, nós gritamos sem ter calo, e os EUA gritam sempre com e sem calo... Mas vão parar de gritar, vão ter de sussurrar.
Arquivo do blog
-
▼
2011
(2527)
-
▼
Março
(225)
- Combaten con las mismas armas Joaquín Morales Solá...
- Joaquín Morales Solá Un país que camina hacia el a...
- Uma viagem útil :: Paulo Brossard
- CELSO MING Alargamento do horizonte
- DENIS LERRER ROSENFIELD Fraternidade e natureza
- CARLOS ALBERTO SARDENBERG Pouca infraestrutura e m...
- Con amigos como Moyano, ¿quién necesita enemigos? ...
- Otra crisis con la Corte Suprema Joaquín Morales S...
- Gaudencio Torquato A democracia supletiva
- VINÍCIUS TORRES FREIRE
Futricas público-privadas
...
- Um itaparicano em Paris JOÃO UBALDO RIBEIRO
- Tão bela e tão brega
DANUZA LEÃOFOLHA DE SÃO PAULO...
- Ferreira Gullar A espada de Damocles
- Miriam Leitão No mar,de novo
- Durou Caldas Poder autoritário
- Dora Kramer Itamaraty, o retorno
- Nerval Pereira Desafios na gestão
- JAMES M. ACTON Energia nuclear vale o risco
- GUILHERME FIUZA Obama e o carnaval
- Boris Fauto Século das novas luzes
- Fernando de Barros e Silva Yes, we créu!
- Ricardo Noblat Ó pai, ó!
- Luiz Carlos Mendonça de Barros A presidente Dilma ...
- Fabio Giambiagi O mínimo não é mínimo
- José Goldemberg O acidente nuclear do Japão
- Carlos Alberto Di Franco Imprensa e política
- PAULO RABELLO DE CASTRO Sobre os demônios que nos ...
- MAÍLSON DA NÓBREGA Tributos: menor independencia o...
- RUTH DE AQUINO Militantes, “go home”
- CELSO LAFER A ''Oração aos Moços'', de Rui Barbosa...
- YOANI SÁNCHEZ Letras góticas na parede
- MÍRIAM LEITÃO Afirmação e fato
- CELSO MING Perigo no rótulo
- ETHEVALDO SIQUEIRA A segurança está em você
- JIM O'NEILL O Japão e o iene
- VINICIUS TORRES FREIRE Chiclete com Obama
- SUELY CALDAS A antirreforma de Dilma
- FERREIRA GULLAR O trinado do passarinho
- JOÃO UBALDO RIBEIRO Vivendo de brisa
- DANUZA LEÃO Pode ser muito bom
- MARCELO GLEISER Conversa Sobre a Fé e a Ciência
- Riodan Roett: ''O estilo Lula foi um momento, e já...
- Dora Kramer Conselho de Segurança
- Merval Pereira O sexto membro
- Rubens Ricupero Decepção na estréia
- VINICIUS TORRES FREIRE Dilma está uma arara
- Míriam Leitão Cenários desfeitos
- Merval Pereira O Brasil e a ONU
- Guilherme Fiuza O negro, a mulher e o circo
- ENTREVISTA FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
- Nelson Motta -O tango do absurdo
- Míriam LeitãoAntes e depois
- Fernando de Barros e Silva Inflação na cabeça
- Merval Pereira Modelo aprovado?
- Roberto Freire Todo cuidado é pouco
- Celso Ming Não à inflação
- Dora Kramer Boa vizinhança
- Fernando Gabeira Obama no Brasil
- Rogério Furquim Werneck Instrumentos adulterados
- Energia - a chance de discutir sem soberba- Washin...
- Míriam Leitão Sol levante
- Merval Pereira A janela de Kassab
- Dora Kramer Pela tangente
- Celso Ming -Mudar o paradigma?
- Alberto Tamer Japão tem reservas anticrise
- Roberto Macedo Um filme ruim só no título
- Adriano Pires O monopólio da Petrobrás no setor el...
- Eugênia Lopes Jetom de estatais faz ministros esto...
- Carlos Alberto Sardenberg Eles vão sair dessa!
- Demétrio Magnoli A maldição do pré-sal
- Fábio Giambiagi A lógica do absurdo
- O presunçoso gerente de apagões veste a fantasia d...
- VINICIUS TORRES FREIRE Síndrome do pânico e do Jap...
- Yoshiaki Nakano Para aprimorar o sistema de metas
- Merval Pereira Acordo no pré-sal
- Celso Ming Mais incertezas
- Dora Kramer Inversão de culpa
- Paul Krugman Fusão macroeconômica
- Rolf Kuntz Emprego, salário e consumo
- José Nêumanne A caixa-preta da Operação Satiagraha...
- Vinícius Torres Freire-A importância de ser pruden...
- Míriam Leitão-Efeito Japão
- Raymundo Costa-A força do mensalão no governo Dilm...
- Fernando de Barros e Silva -Liberais de fachada
- Merval Pereira Começar de novo
- Celso Ming - Risco nuclear
- Dora Kramer Em petição de miséria
- José Serra Cuidado com a contrarreforma
- José Pastore A real prioridade na terceirização
- J. R. Guzzo Beleza e desastre
- Paulo Brossard Orçamento clandestino
- Marco Antonio Rocha Só indiretamente dá para perce...
- DENIS LERRER ROSENFIELD Falsas clivagens
- GUSTAVO CERBASI O melhor pode sair caro
- CARLOS ALBERTO SARDENBERG Tolerância com a inflaçã...
- Os EUA podem entrar arregaçando na Líbia? O mundo ...
- Fúrias e tsunamis - Alberto Dines
- BARRY EICHENGREEN A próxima crise financeira
- VINICIUS TORRES FREIRE Economia, o império do efêm...
- GAUDÊNCIO TORQUATO Maria-Fumaça e a 7ª economia
- MARCELO GLEISER Teoria de tudo: fato ou fantasia?
- FERREIRA GULLAR Se a História tem lógica...
- CELSO MING Controle de capitais
- SUELY CALDAS A proposta Palocci para desonerar a f...
- MERVAL PEREIRA O difícil consenso
- DORA KRAMER Nas próprias pernas
- DANUZA LEÃO Cemitério virtual
- AMIR KHAIR Crescimento e inflação
- PEDRO S. MALAN Dilma, lidando com ''o pós-Lula''
- MÍRIAM LEITÃO Dois mundos
- La campaña y las batallas de la Presidenta Por Joa...
- El modelo de Cristina y el modelo de Perón Por Mar...
- JOÃO UBALDO RIBEIRO O novo carnaval no boteco
- Míriam Leitão Megaeventos
- Celso Ming Divergências sobre o euro
- Gaudêncio Torquato O fóssil corporativista está vi...
- Merval PereiraSem proteção
- CESAR MAIA - Presidentes, PIB e política
- LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Os sinais que vêm...
- VINICIUS TORRES FREIRE - Sob nova administração, d...
- FERNANDO DE BARROS E SILVA - Segurança em xeque
- JOÃO MELLÃO NETO - Quem está certo?
- MERVAL PEREIRA - Passado condena
- MÍRIAM LEITÃO - Tom do novo BC
- CELSO MING - Pontas soltas
- PAULO R. HADDAD - O Nordeste sem ilusões
- Ignácio de Loyola Brandão Scliar se foi numa madru...
- Nelson Motta Carnaval bem-comportado
- VINICIUS TORRES FREIRE - O fim do "relax" american...
- MÍRIAM LEITÃO Silêncio conveniente
- MERVAL PEREIRA Distorções eleitorais
- CARLOS ALBERTO SARDENBERG A Constituição para algu...
- Até quando? O Estado de S. Paulo-Editorial
- Alberto Tamer Petróleo fica em US$ 105?
- Rolf Kuntz O lado político da crise
- Celso Ming - Não há bala de prata
- ROBERTO DaMATTA - Carnaval & cinzas
- Vinicius Torres FreirePetróleo, choques e faíscas
- Evolução da renda no Governo Lula: Conclusões defi...
- Fernando Rodrigues A banalização do mal
- Míriam LeitãoFim do carnaval
- Celso Ming 60 dias duros
- Rodrigo Constantino O Custo da Burocracia
- CELSO MING Reservas para investir?
- Vinicius Torres Freire Depois que o Carnaval passa...
- Rubens Barbosa Visita de Obama e visão de futuro
- Wilson Figueiredo Oposição e arte de perder tempo
- Marco Antonio VillaO Congresso virou um balcão
- Moacyr Scliar:Literatura feita de vida e amor
- Paulo Brossard Depois da festa, a conta
- GAUDÊNCIO TORQUATO O fóssil corporativista
- Roberto Pompeu de Toledo O fascínio do ão
- Suely Caldas Investimento: a má notícia do PIB
- Celso Ming As PPPs não decolaram
- Foi Carnaval JANIO DE FREITAS
- VAGUINALDO MARINHEIRO Dinheiro sangrento
- FERREIRA GULLAR A obra necessária
- DANUZA LEÃO Evoé momo
- JOÃO UBALDO RIBEIRO Enlouquecendo as mulheres
- Míriam Leitão Baile de máscaras
- Clóvis Rossi Nunca antes? Nada disso
- Alberto Dines Ruptura e alianças
- Rubens Ricupero Fim das ditaduras?
- Fernando Henrique Cardoso Silêncios que falam
- Falsos confetes por Daniel Piza
- Cristina, entre la obsecuencia y la moderación Por...
- CESAR MAIA - Ópera popular
- FERNANDO VELOSO O milagre chinês
- ROBERTO ROMANO Futebol e reforma política
- FERNANDO DE BARROS E SILVA PindaLeaks
- MÍRIAM LEITÃO O risco da bolh
- CELSO MING Continua solta
- MIGUEL REALE JÚNIOR Era carnaval
- Nelson Motta Carnaval politicamente correto
- ROBERTO FREIRE A presidente imperial
- MERVAL PEREIRA Bom, mas nem tanto
- MARCO ANTONIO VILLA Governo Dilma não tem vida pró...
- VINICIUS TORRES FREIRE O jeitinho do PIB brasileir...
- MÍRIAM LEITÃO Um novo FMI?
- MONICA BAUMGARTEN DE BOLLE A insustentável não lev...
- FERNANDO DE BARROS E SILVA Camelô de cátedra
- DIOGO MAINARDI O BRASIL EXPLICADO PARA “COELHINHO...
- Dora Kramer Tom pastel
- Luiz Garcia Mais uma
- Celso Ming Maior que as pernas
- Mansueto Almeida As compras da Petrobras: controle...
- Fernando Gabeira Brasil, Líbia e os outros
- Rogério Furquim Werneck Malabarismo na Fazenda
- CARLOS ALBERTO SARDENBERG A bolsa é para a escola
- VINICIUS TORRES FREIRE - O governo morde e assopra...
- Míriam Leitão Nova dose
- Merval Pereira Sempre pode piorar
- Dora Kramer PDB mostra sua face
- Alberto Tamer - Juro ajuda mas não segura a inflaç...
- Celso Ming Estabilização cambial
- Roberto Macedo O shop-shop de turistas brasileiros...
- Demétrio Magnoli Na tenda de Kadafi
- Moacyr Scliar, o mestre da ironia - Felipe Fortuna...
- Hisham Matar "Líbios estão redescobrindo o que sig...
- MARTHA MEDEIROS - Bicicletas levadas a sério
- Míriam Leitão Os sinais do painel
- Fernando de Barros e Silva Dá o pé, Dilma
- Merval Pereira Morde e assopra
- Celso Ming Mais incertezas
- Dora Kramer Janela indiscreta
- Newton Carlos O visitante Barack Obama
- David Kupfer Entrando nos trilhos
- Jacques Rogge O grande perigo
- Roberto DaMatta De que lado está o Estado?
- José Nêumanne Copa de 2014: crônica do mico anunci...
- Rolf Kuntz A dignidade do orçamento
- Celso Ming A tesoura do governo
- Dora Kramer Orientação programática
- EROS ROBERTO GRAU Um panfleto anticlerical
- VINICIUS TORRES FREIRE "Eu acredito em duendes"
- ARTHUR VIRGÍLIO A conta da gastança
- Míriam LeitãoTesoura e Tesouro
- Wilson FigueiredoEmpurra que pega
- Merval Pereira Credibilidade
- Celso Ming - Trato é trato
- Dilma decide afastar diretoria de Furnas Raymundo ...
- Dora Kramer A falência da elite Dora Kramer
- Adriano Pires Dilemas de Dilma no pré-sal
- José Pastore Avanços nas relações do trabalho
- Ilan Goldfajn A volta do dragão