O Globo
O Banco Central acredita que o corte de gastos do governo será cumprido à risca. Acredita que as medidas de contenção de crédito são eficientes no combate à inflação. Admite que o IPCA corre risco de estourar a meta no terceiro trimestre, mas aposta que a taxa depois vai recuar. A ata do Copom sugere nova alta de juros, mas também abre espaço para que eles parem de subir, como quer a Fazenda.
Quem acompanha a alta da inflação e também das previsões estava em dúvida ontem se o Banco Central está mesmo comprometido em trazer o IPCA para o centro da meta, que é 4,5%. Muitos economistas acharam a ata fraca diante do risco de a inflação superar o teto de 6,5%. O Banco Central parece conformado em que a meta só seja atingida no ano que vem. Alguns, como José Júlio Senna, da MCM Consultores, acham que o novo BC, sob comando de Alexandre Tombini, possui uma combinação de prioridades: não deixar o PIB desacelerar muito; não deixar a inflação sair do controle; não deixar o real ganhar valor sobre o dólar.
- O Banco Central mostra-se bem afinado com o restante do governo e parece mirar mais de um objetivo. A atividade econômica não pode sofrer desaceleração expressiva, como se houvesse uma espécie de piso para o crescimento; e o real não pode ficar ainda mais forte, ou seja, como se houvesse também piso para o câmbio. Juntamente com um teto para a inflação, o topo da banda, isso compõe um conjunto de três grandes objetivos. E eles não são necessariamente compatíveis entre si - afirmou José Júlio Senna.
Somente nos dois primeiros meses do ano, a inflação acumulada atingiu 1,64%. É mais de um terço de tudo que deveria acontecer em 2011, que é 4,5%. Nos últimos doze meses, a taxa atingiu 6,01%, e está com viés de alta. Como nos meses de junho, julho e agosto de 2010 a inflação ficou zerada, a expectativa é de que o IPCA estoure o teto de 6,5% no acumulado de 12 meses. Na ata, o Banco Central parece, no parágrafo 25, tentar se justificar antecipadamente:
"Neste trimestre e nos dois seguintes, a inflação acumulada em doze meses tende a permanecer em patamares similares ou mesmo superiores àquele em que atualmente se encontra. (...) Entretanto, a partir do quarto trimestre, o cenário central indica tendência declinante para a inflação acumulada em doze meses, ou seja, deslocando-se na direção da trajetória de metas."
Depois de ler o texto sobre a disposição do Banco Central em combater a inflação, o economista Sérgio Vale, da MB associados, acha que se todas as apostas se concretizarem, talvez a inflação volte para o centro da meta daqui a dois anos.
- Se tudo der certo, o governo talvez consiga levar o IPCA para a meta em 2013, mas devemos lembrar que 2013 será ano pré-copa e pré-eleição. Será que o governo será austero nesse momento? Continuamos com a visão de que o governo Dilma optou por aceitar a inflação acima da meta. Mudar isso agora demandará muito esforço, que não parece ser do interesse nesse momento - disse Vale.
A análise de um grande banco de investimento americano é de que a ata divulgada ontem foi "surpreendentemente dócil". Elson Teles, da Máxima Asset, acredita que o texto não vai interromper a trajetória de piora das expectativas de inflação, medidas pelo Boletim Focus:
- A ata foi bem leve mesmo. Mostra um BC bastante confiante no mix de medidas (macroprudencial, consolidação fiscal e alta na Selic) para desacelerar a atividade econômica e trazer a inflação de volta ao centro da meta ao longo de 2012. Não pareceu muito preocupado com as atuais expectativas de inflação, que estão piorando. Em suma, acho que o teor da ata não contribui em nada para ancorar as expectativas - explicou.
A economista Monica de Bolle, da Galanto Consultoria, pondera que o cenário internacional é de muita incerteza e que ele vem mudando a cada três meses, desde a crise de 2008. Isso tem dificultado a ação não só do Banco Central brasileiro, mas também de outros bancos centrais no mundo:
- Eles estão enfrentando uma situação complicada, com o mundo muito incerto e virando de cenário rapidamente. Temos agora neste início de ano um quadro tanto recessivo mundialmente quanto inflacionário, por causa da alta do petróleo.
Ela acredita, no entanto, que parte do problema inflacionário brasileiro foi criado internamente, pelos excessos do governo em 2010. Acha que se o BC tivesse mesmo independência, aumentaria juros até segurar a inflação.
- O governo não quer colocar o pé no freio do crescimento. No crédito público, não parece disposto a fazer nada, inclusive anunciou novo aporte ao BNDES, de R$55 bilhões. Na parte fiscal, anunciou corte sobre um Orçamento inchado pelo Congresso. Esse BC não vai bater de frente com o Ministério da Fazenda e temos que lembrar que ele não tem independência - disse Monica.
No final do governo Lula, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles tinha dúvidas sobre se teria independência se continuasse no cargo. A presidente Dilma não o manteve e nomeou Alexandre Tombini, garantindo que ele teria a mesma autonomia dos antecessores. Mas, ao mesmo tempo, quer evitar o conflito entre BC e Fazenda. Para isso, o mais sensato seria mudar o tom da Fazenda e não o do Banco Central. O relatório de inflação vai esclarecer melhor que tom terá o BC de Tombini.
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