Entrevista:O Estado inteligente

sábado, setembro 23, 2006

VEJA Gustavo Dudamel

Venezuelanos que brilham

Jovens como Gustavo Dudamel são
as estrelas de um programa que, até
agora, escapou da sanha de Chávez



Sérgio Martins


Fotos Dan Porges, Leslie Mazoch/AP


Dudamel: elogios de expoentes da regência e contrato com a Deutsche Grammophon

Entre a nova geração de maestros, não há promessa mais fulgurante que Gustavo Dudamel. Queridíssimo da imprensa especializada, que não se cansa de lhe dedicar reportagens, esse jovem de apenas 25 anos é admirado por expoentes da regência como o italiano Claudio Abbado, o argentino Daniel Barenboim e o inglês Simon Rattle – que o considera "música em estado puro". Dono de um estilo teatral, Dudamel é aplicado e capaz de interpretações repletas de personalidade, que vão muito além do que consta da partitura. Hoje, ele rege os melhores grupos sinfônicos do mundo, como o do Scala de Milão, e mantém um contrato com a mesma agência que cuida da carreira de Abbado e de Rattle. Há cerca de um mês, lançou um disco pelo prestigiado selo Deutsche Grammophon. Talvez o aspecto mais excepcional da trajetória de Dudamel, contudo, seja a forma como esse talento despontou.



O contrabaixista Ruiz: aos 21 anos, titular da Filarmônica de Berlim

O regente vem de família humilde – seu pai pertence a uma banda provinciana de salsa – e nasceu numa vizinhança barra-pesada de Barquisimeto, a cerca de 260 quilômetros de Caracas, a capital da Venezuela. Muitos de seus amigos de infância foram ganhar a vida no crime. Dudamel acredita que ele próprio teria seguido caminho semelhante, não fosse ainda na infância ter topado com um programa singular: El Sistema, um projeto instituído na Venezuela em 1975 para integrar jovens de comunidades carentes por meio da música (de forma similar à adotada pelo Instituto Baccarelli, entidade que trabalha na favela paulistana de Heliópolis). Financiado em parte pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), El Sistema é uma das poucas iniciativas governamentais venezuelanas que escaparam da sanha mediocrizante do ditador Hugo Chávez. Seu sucesso é tanto, aliás, que nenhum dos seis presidentes que o antecederam teve coragem de pôr a mão no projeto criado pelo educador José Antonio Abreu.

Dudamel é o resultado mais vistoso do programa, mas não o único. Em 2002, ele revelou outro talento: o contrabaixista Edicson Ruiz, de 21 anos, saiu da periferia de Caracas para se tornar titular da Filarmônica de Berlim – a mesma que já foi regida pelo legendário Herbert von Karajan. O mais estimulante no método elaborado por Abreu é sua simplicidade. Jovens com potencial aptidão são recrutados em zonas pobres da Venezuela, recebem aulas de teoria musical e são incentivados a aprender um instrumento. Caso se saiam bem, têm quase garantida a oportunidade de sobreviver como instrumentistas de orquestra, já que o país conta com 212 grupos sinfônicos infanto-juvenis. Dudamel fez melhor: ganhou seu próprio conjunto. Desde os tenros 18 anos, ele é diretor artístico da Orquestra Jovem Simón Bolívar, que considera sua prioridade. "A música salvou minha vida", disse o regente a VEJA. Espera-se, agora, que ele retribua e se mostre capaz de salvar a música da fúria predatória de Chávez.

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