Venezuelanos que brilham
Jovens como Gustavo Dudamel são
as estrelas de um programa que, até
agora, escapou da sanha de Chávez
Sérgio Martins
Fotos Dan Porges, Leslie Mazoch/AP |

Dudamel: elogios de expoentes da regência e contrato com a Deutsche Grammophon |
Entre a nova geração de maestros, não há promessa mais fulgurante que Gustavo Dudamel. Queridíssimo da imprensa especializada, que não se cansa de lhe dedicar reportagens, esse jovem de apenas 25 anos é admirado por expoentes da regência como o italiano Claudio Abbado, o argentino Daniel Barenboim e o inglês Simon Rattle – que o considera "música em estado puro". Dono de um estilo teatral, Dudamel é aplicado e capaz de interpretações repletas de personalidade, que vão muito além do que consta da partitura. Hoje, ele rege os melhores grupos sinfônicos do mundo, como o do Scala de Milão, e mantém um contrato com a mesma agência que cuida da carreira de Abbado e de Rattle. Há cerca de um mês, lançou um disco pelo prestigiado selo Deutsche Grammophon. Talvez o aspecto mais excepcional da trajetória de Dudamel, contudo, seja a forma como esse talento despontou.
O contrabaixista Ruiz: aos 21 anos, titular da Filarmônica de Berlim |
O regente vem de família humilde – seu pai pertence a uma banda provinciana de salsa – e nasceu numa vizinhança barra-pesada de Barquisimeto, a cerca de 260 quilômetros de Caracas, a capital da Venezuela. Muitos de seus amigos de infância foram ganhar a vida no crime. Dudamel acredita que ele próprio teria seguido caminho semelhante, não fosse ainda na infância ter topado com um programa singular: El Sistema, um projeto instituído na Venezuela em 1975 para integrar jovens de comunidades carentes por meio da música (de forma similar à adotada pelo Instituto Baccarelli, entidade que trabalha na favela paulistana de Heliópolis). Financiado em parte pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), El Sistema é uma das poucas iniciativas governamentais venezuelanas que escaparam da sanha mediocrizante do ditador Hugo Chávez. Seu sucesso é tanto, aliás, que nenhum dos seis presidentes que o antecederam teve coragem de pôr a mão no projeto criado pelo educador José Antonio Abreu.
Dudamel é o resultado mais vistoso do programa, mas não o único. Em 2002, ele revelou outro talento: o contrabaixista Edicson Ruiz, de 21 anos, saiu da periferia de Caracas para se tornar titular da Filarmônica de Berlim – a mesma que já foi regida pelo legendário Herbert von Karajan. O mais estimulante no método elaborado por Abreu é sua simplicidade. Jovens com potencial aptidão são recrutados em zonas pobres da Venezuela, recebem aulas de teoria musical e são incentivados a aprender um instrumento. Caso se saiam bem, têm quase garantida a oportunidade de sobreviver como instrumentistas de orquestra, já que o país conta com 212 grupos sinfônicos infanto-juvenis. Dudamel fez melhor: ganhou seu próprio conjunto. Desde os tenros 18 anos, ele é diretor artístico da Orquestra Jovem Simón Bolívar, que considera sua prioridade. "A música salvou minha vida", disse o regente a VEJA. Espera-se, agora, que ele retribua e se mostre capaz de salvar a música da fúria predatória de Chávez.