O mercado voltou a apostar em queda de apenas 0,25 ponto percentual nas últimas duas reuniões do Copom no ano, mas isso tem mais a ver com o que os analistas acreditam ser o comportamento do Banco Central. Necessidade mesmo de reduzir o ritmo de queda dos juros não há. Como a inflação também caiu, desde que a Selic começou a ser reduzida, os juros reais permanecem altos.
O gráfico abaixo mostra a queda tanto da inflação acumulada em 12 meses quanto da taxa de juros decidida pelo Copom. Olhando as duas linhas, o que se vê é que a inflação caiu mais que a Selic. Desde setembro do ano passado, quando o BC começou a cortar os juros, a taxa nominal caiu 5,5 pontos percentuais. Porém, fazendo a conta do juro real ex-post, a taxa real caiu 2,92 pontos; bem menos que os 5,5 nominais. E, desde março, que essa taxa real ronda os 10%. Assim, ainda que o Banco Central fale sempre que a taxa já caiu muito, na prática, a queda dela foi muito mais sutil. Isso significa que os juros poderão cair ainda mais, não apenas nas duas reuniões de 2006, como nas quatro reuniões do primeiro semestre do ano que vem. Se as taxas caírem 0,5 ponto percentual na próxima reunião e 0,25 nas próximas cinco reuniões, elas chegarão, em meados do ano que vem, em 12,5%; ainda bastante altas.
Para quem teve a história que o Brasil teve de hiperinflação e décadas de superinflação, é preciso sempre cuidado com qualquer risco inflacionário, mas, no momento atual, o pior risco que o Brasil corre é a mediocridade do crescimento e a frouxidão fiscal do governo Lula.
O crescimento do PIB continua oscilando entre 2% e 3% em todo o período em que o mundo acelerou. O Brasil terá que se esforçar mais para crescer num cenário bem mais adverso do que o que se viveu nos últimos quatro anos.
“As autoridades dos mercados emergentes precisam se ajustar ao ambiente mais difícil se preparando com cuidado para responder de imediato a qualquer tensão que surgir”, disse ontem Rodrigo Rato, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional.
No melhor momento da economia mundial, o Brasil teve crescimento medíocre e taxas de juros reais astronômicas. Isso leva a temer que o desempenho piore numa conjuntura menos favorável.
Portanto, a cautela do Banco Central não deve ser contra riscos no momento inexistentes, mas os riscos reais de crescimento medíocre. Se a inflação está sob controle, se está bem abaixo do que se esperava, por que ter tanta parcimônia na queda das taxas de juros?
O que o Banco Central não explica é que ele não pode reduzir fortemente o aperto monetário porque o quadro fiscal se deteriorou nos últimos meses. O quadro para o ano que vem não é nada confortável, principalmente porque o governo superestimou o crescimento, projetando receitas maiores do que poderá recolher. Por outro lado, pesarão em 2007 os aumentos de salário do funcionalismo, o aumento dos gastos aprovados por razões eleitorais, o aumento do salário mínimo. No Orçamento, está previsto um aumento de 3% real no salário mínimo para 2007. Normalmente, quando o Executivo propõe um aumento, ele fica maior quando passa pelo Congresso.
O problema do salário mínimo é o impacto na Previdência, que já está com um déficit de R$ 42 bilhões e poderia ser muito maior.
— Houve quem previsse R$ 50 bilhões de déficit e, na verdade, no ano que vem, ele será R$ 45 bilhões. Várias medidas que tomamos estão dando certo, como, por exemplo, é o caso do auxílio-doença, que conseguimos estabilizar — disse-me o ministro da Previdência, Nelson Machado.
O auxílio-doença pulou de R$ 3 bilhões por ano, em 2002, para R$ 12 bilhões anuais em 2005. Em 2006, está fechando em R$ 13 bilhões. O governo Lula culpa o governo anterior pelo aumento, afirmando que foi a terceirização da perícia médica que produziu isso.
— Puseram a raposa tomando conta do galinheiro — comentou o ministro.
Para resolver isso, o governo Lula contratou nada menos que três mil médicos, apenas para fazer a perícia.
— E acho que não é suficiente — afirmou Nelson Machado.
O risco real é o fiscal, como se vê. As soluções dadas para aumento de gastos podem significar mais aumento de gastos. É aí que moram as razões para a cautela da política monetária. Se olhasse apenas para a inflação, o BC nada teria a temer. Mas a política monetária não pode resolver o problema da política fiscal. Esse é o dilema.