Entrevista:O Estado inteligente

sábado, setembro 16, 2006

Merval Pereira Vento a favor

O GLOBO
Os fatos estão a favor de Lula, e dificilmente ele deixará de vencer a eleição presidencial no primeiro turno.

A pesquisa do Ibope divulgada ontem mostra que a principal dificuldade do candidato tucano Geraldo Alckmin é subir às custas de tirar votos de Lula. Só assim ele teria alguma chance de levar a decisão para o segundo turno e tentar reverter o quadro, que é francamente favorável à reeleição do presidente, mesmo no segundo turno. É claro que a reversão de expectativas criará um clima psicológico favorável a Alckmin, uma situação muito diferente, por exemplo, da de José Serra em 2002, quando em nenhum momento houve a sensação de que ele poderia virar o jogo. Ir para o segundo turno já foi sua vitória.

Alckmin, ao contrário, está marcado para morrer no primeiro turno, e tem pela frente um adversário muito vulnerável eticamente, o que pode dar um tom diferente ao segundo turno. Mesmo assim, é muito difícil uma virada, e para Alckmin, hoje, ir para o segundo turno significa muito mais uma sobrevivência política do que uma possibilidade concreta de virar presidente.

Indo ao segundo turno, Alckmin se iguala em força política a José Serra em São Paulo, e poderá se tornar representante de uma ala importante dentro do PSDB, especialmente se se aliar ao governador de Minas, Aécio Neves.

Sendo derrotado de cara, Alckmin não terá a menor importância política interna, e terá que recomeçar da estaca zero, candidatando-se a prefeito de São Paulo em 2008, por exemplo, isso se o atual prefeito Gilberto Kassab, do PFL, aliado de Serra, deixar, o que é improvável.

Mas, como também em política enquanto há vida há esperança, os tucanos apostam suas poucas chances no crescimento maior nas classes mais escolarizadas e com maior poder aquisitivo, entre os que, nessas faixas, ainda estão com Lula, para ultrapassar a primeira barreira, a do primeiro turno. Mas os fatos estão a favor de Lula, como a pesquisa Pnad divulgada ontem pelo IBGE, que mostra que em 2005 o rendimento médio real de trabalho cresceu 4,6%,o maior crescimento desde 1996.

É um bom número para se divulgar às vésperas da eleição, e certamente não haverá nenhum ministro para contestar o IBGE, como Luiz Marinho, que tentou desqualificar outra pesquisa do mesmo instituto, que mostrava o crescimento do desemprego.

Até mesmo um detalhe importante da pesquisa Pnad ficará sem o devido realce: o rendimento de 2005 ainda está 15,1% abaixo do rendimento auferido em 1996, no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, com o Plano Real em pleno efeito de melhoria da distribuição de rendas.

Da mesma forma, o IBGE mostra hoje que o rendimento continuou a se desconcentrar, num círculo virtuoso cujo defeito é ser lento demais e sujeito a reviravoltas. De 1994 a 2005, o índice de Gini, que mede a concentração de rendas do trabalho — e quanto mais próximo de zero, melhor — apresentou tendência de declínio permanente.

Esse indicador estava em 0,585, em 1995, atingiu 0,566, em 2001 e passou para 0,544, em 2005, o mais baixo resultado desde 1981.

Quer dizer, em dez anos apresentou queda de 7,0%.

Outros fatos favoráveis ao governo estão para acontecer, como a entrega ao presidente Lula do título de “estadista do ano” pela ONG Americana conservadora Appeal of Conscience, em Nova York, onde ele também discursará na abertura da ONU. O prêmio homenageia o lado conservador de Lula, “por sua resposta aos desafios políticos e econômicos que enfrentou no Brasil, além do construtivo exemplo que a sua liderança representou para a América Latina e o mundo emergente de maneira geral”, explica, na carta convite, Paul Volcker, ex-presidente do Banco Central americano. Na festa, uma mesa custará entre US$ 10 mil e US$ 50 mil, para trabalhos sociais.

O “construtivo exemplo” de Lula na América Latina enfrenta problemas com seus “companheiros” Evo Morales, da Bolívia, e Hugo Chávez, da Venezuela, e essa dupla personalidade impede que Lula tenha uma atuação mais firme em defesa dos interesses brasileiros na Bolívia desde a primeira crise, quando Morales autorizou a invasão da Petrobras por tropas militares.

A frase de Lula: “Se não briguei com o Bush por que brigaria com o Evo Morales?” define bem o antiamericanismo infantil que domina o governo brasileiro.

Mas esse é um problema politico inesperado que pode ser explorado pela oposição na reta final da campanha eleitoral, embora Morales tenha anunciado o “congelamento” da expropriação da Petrobras até que as negociações evoluam ou, mais provavelmente, até que as eleições passem.

Na comparação entre os estudos da série CNI/Ibope, nos últimos dias de campanha eleitoral ocorre uma movimentação intensa nos estratos sociais, mas não suficiente para reduzir o franco favoritismo de Lula. Alckmin sobe e melhora sua posição onde já era mais forte, mas não tira pontos de Lula, que permanece na casa dos 50% das intenções de votos.

Um mês após o início da propaganda eleitoral no rádio e na TV, a pesquisa mostra, ao contrário, uma melhora nos indicadores de avaliação do governo federal e do presidente Lula, atingindo quase todos os segmentos socioeconômicos.

A expectativa é mais positiva em relação ao futuro do cenário econômico. O nível de aprovação do governo atingiu a segunda melhor taxa, retornando aos níveis do primeiro ano de governo, perdendo apenas para a marca de 51% registrada em 2003, três meses após a posse do presidente Lula.

E, para seu deleite, na comparação com o governo de Fernando Henrique, Lula ampliou sua vantagem, obtendo o melhor percentual desde que essa questão passou a ser formulada pela pesquisa.

Nada menos que 61% dos pesquisados afirmam que o governo do presidente Lula é melhor.

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