Não há nada mais característico desta eleição insossa do que o segundo turno na disputa presidencial depender dos chamados “não-votos”, isto é, das pessoas que não exercerão seu direito de votar, ou por escolha, ou por ignorância. Ninguém está escolhendo Lula ou Alckmin com entusiasmo, por razões diversas. Escrevi aqui meses atrás que Alckmin corria o risco de se transformar em um candidato anulado diante do carisma de Lula, e o que está acontecendo é mais ou menos isso. Ele escolheu fazer uma campanha dita “propositiva”, deixando em segundo plano a politização do ponto fraco do adversário, o flanco moral, que já foi o seu forte.
Diante da força de atração da Bolsa Família e de outras políticas assistencialistas como o crédito consignado e o financiamento da agricultura familiar, não há como propor uma mudança de rumos a uma vasta parcela do eleitorado, especialmente no Nordeste, que se beneficia da atual conjuntura, embora vá deixar de ter os benefícios muito em breve, quando será necessário um arrocho nos gastos do governo para equilibrar as contas públicas depois da farra eleitoral. Mas não é possível propor um pouco de bom senso a quem está tendo reais benefícios no momento.
Como diz o historiador José Murilo de Carvalho, “a opinião nacional, ou popular, vive no mundo da necessidade.
Ela votará, e muito racionalmente, em quem julga capaz de ajudá-la. Ela pode, sim, absolver o corrupto se este a convencer de que pode ajudála”. Além do mais, há uma vasta parte dos antigos eleitores petistas que, mesmo desiludidos, se agarram a qualquer indício de melhora nas condições sociais do país para tentar justificar a manutenção do apoio. Não necessitam de comida, mas de consciência tranqüila.
Mesmo que devessem saber que nada está sendo feito para mudar estruturalmente as condições sociais, e que a distribuição de renda melhorou graças a programas assistencialistas e a uma política de valorização do salário mínimo que não são sustentáveis a longo prazo. Mesmo essa incipiente melhora não é tarefa isolada do governo Lula, é um processo que vem acontecendo desde 2001 e foi possível graças à implantação do Plano Real, que permitiu o controle da inflação.
É claro que o governo Lula vem fazendo na economia, para desespero da maioria dos petistas, um trabalho de continuidade da política econômica que vige há 13 anos, e em alguns casos até mesmo de aperfeiçoamento, e os resultados desse processo vão aparecendo em várias áreas, como nas exportações e na dívida externa. Paradoxalmente, se não fosse o controle rígido da inflação pelo demonizado banqueiro Henrique Meirelles, o Bolsa Família não teria o efeito que está tendo na melhoria de vida dessa camada da população.
Quanto à questão moral, ela foi sublimada também por petistas de alto calibre, que aderiram à tese de que no sistema político atual só se conserva o poder através de métodos intrinsecamente corruptos. A ponto de a escritora Rose Marie Muraro ter tido a coragem de escrever um artigo recentemente defendendo nada menos que a imoralidade e o roubo. Muraro escreveu e assinou a seguinte pérola: “Ser moral dentro de um sistema imoral é legitimar a imoralidade”.
A escritora acha que a “boa novidade” no Brasil foi a eleição de um presidente oriundo das classes dominadas, “de quem não se esperava que transgredisse a lei da honestidade e da moralidade”.
Muraro, no entanto, justifica as transgressões com uma raciocínio tão linear quanto escandaloso: “Quando ele se viu obrigado a jogar o jogo da classe dominante para continuar no poder, houve uma grita a partir da classe média, sinceramente honesta, contra a corrupção e a fraude que este mesmo presidente antes condenava”.
Segundo a escritora, “os pobres, que sabem desde o nascimento que são expropriados de quase tudo, crêem, também sinceramente, que, já que são sempre roubados pelos dominantes, pelo menos darão o seu voto quem reparte com eles alguma fatia desse roubo”.
Se eu fosse Lula, processaria a escritora Rose Marie Muraro, que o está chamando diretamente de ladrão, embora no bom sentido, é claro. Depois da polêmica com o músico Wagner Tiso e o ator Paulo Betti, que até hoje estão tentando explicar suas relações com a moral e a “necessidade” de meter a mão na merda para fazer política, Rose Marie Muraro abre o jogo sem a menor cerimônia.
Esse é um aspecto novo da questão política no Brasil, onde sempre houve a corrupção, mas nunca tão escancarada como agora, nem defendida com tanto ardor.
Nem mesmo Adhemar de Barros, a origem do tipo de político que “rouba, mas faz”, a quem Lula foi comparado pelo sociólogo Francisco Weffort, fundador do PT ex-ministro da Cultura de Fernando Henrique, nunca admitiu oficialmente seus pecados.
Paulo Maluf, mesmo diante das evidências e tendo ido parar na cadeia por um período, nega de mãos juntas que tenha contas no exterior.
Recebo inúmeros e-mails de eleitores petistas defendendo posições as mais escalafobéticas, repetindo o raciocínio capenga com o qual a administração Lula justifica os malfeitos com os malfeitos que apontava e se propunha a combater. Nunca investigaram nenhuma das denúncias, mas se alimentam delas para uma disputa política com o PSDB. Um deles escreveu: “Todos sabemos que o governo FHC foi corrupto nas privatizações caóticas e lesivas ao país, no pagamento de mensalão para ter maioria e para aprovar emenda da reeleição”.
Outro diz que desaprova o mensalão em todos os governos, “mas sem ele nenhum governo consegue trabalhar”.
Outro ainda diz que não vê “nenhuma exceção ao estado geral de corrupção ineficiência, como não existiu nos governos anteriores”.
Mais outro: “Não votaria nunca nesse bando do PFL PSDB (em sua maioria) por saber exatamente o que fizeram com o dinheiro público enquanto permaneceram no poder”.
É a vitória da não-política.
Diante da força de atração da Bolsa Família e de outras políticas assistencialistas como o crédito consignado e o financiamento da agricultura familiar, não há como propor uma mudança de rumos a uma vasta parcela do eleitorado, especialmente no Nordeste, que se beneficia da atual conjuntura, embora vá deixar de ter os benefícios muito em breve, quando será necessário um arrocho nos gastos do governo para equilibrar as contas públicas depois da farra eleitoral. Mas não é possível propor um pouco de bom senso a quem está tendo reais benefícios no momento.
Como diz o historiador José Murilo de Carvalho, “a opinião nacional, ou popular, vive no mundo da necessidade.
Ela votará, e muito racionalmente, em quem julga capaz de ajudá-la. Ela pode, sim, absolver o corrupto se este a convencer de que pode ajudála”. Além do mais, há uma vasta parte dos antigos eleitores petistas que, mesmo desiludidos, se agarram a qualquer indício de melhora nas condições sociais do país para tentar justificar a manutenção do apoio. Não necessitam de comida, mas de consciência tranqüila.
Mesmo que devessem saber que nada está sendo feito para mudar estruturalmente as condições sociais, e que a distribuição de renda melhorou graças a programas assistencialistas e a uma política de valorização do salário mínimo que não são sustentáveis a longo prazo. Mesmo essa incipiente melhora não é tarefa isolada do governo Lula, é um processo que vem acontecendo desde 2001 e foi possível graças à implantação do Plano Real, que permitiu o controle da inflação.
É claro que o governo Lula vem fazendo na economia, para desespero da maioria dos petistas, um trabalho de continuidade da política econômica que vige há 13 anos, e em alguns casos até mesmo de aperfeiçoamento, e os resultados desse processo vão aparecendo em várias áreas, como nas exportações e na dívida externa. Paradoxalmente, se não fosse o controle rígido da inflação pelo demonizado banqueiro Henrique Meirelles, o Bolsa Família não teria o efeito que está tendo na melhoria de vida dessa camada da população.
Quanto à questão moral, ela foi sublimada também por petistas de alto calibre, que aderiram à tese de que no sistema político atual só se conserva o poder através de métodos intrinsecamente corruptos. A ponto de a escritora Rose Marie Muraro ter tido a coragem de escrever um artigo recentemente defendendo nada menos que a imoralidade e o roubo. Muraro escreveu e assinou a seguinte pérola: “Ser moral dentro de um sistema imoral é legitimar a imoralidade”.
A escritora acha que a “boa novidade” no Brasil foi a eleição de um presidente oriundo das classes dominadas, “de quem não se esperava que transgredisse a lei da honestidade e da moralidade”.
Muraro, no entanto, justifica as transgressões com uma raciocínio tão linear quanto escandaloso: “Quando ele se viu obrigado a jogar o jogo da classe dominante para continuar no poder, houve uma grita a partir da classe média, sinceramente honesta, contra a corrupção e a fraude que este mesmo presidente antes condenava”.
Segundo a escritora, “os pobres, que sabem desde o nascimento que são expropriados de quase tudo, crêem, também sinceramente, que, já que são sempre roubados pelos dominantes, pelo menos darão o seu voto quem reparte com eles alguma fatia desse roubo”.
Se eu fosse Lula, processaria a escritora Rose Marie Muraro, que o está chamando diretamente de ladrão, embora no bom sentido, é claro. Depois da polêmica com o músico Wagner Tiso e o ator Paulo Betti, que até hoje estão tentando explicar suas relações com a moral e a “necessidade” de meter a mão na merda para fazer política, Rose Marie Muraro abre o jogo sem a menor cerimônia.
Esse é um aspecto novo da questão política no Brasil, onde sempre houve a corrupção, mas nunca tão escancarada como agora, nem defendida com tanto ardor.
Nem mesmo Adhemar de Barros, a origem do tipo de político que “rouba, mas faz”, a quem Lula foi comparado pelo sociólogo Francisco Weffort, fundador do PT ex-ministro da Cultura de Fernando Henrique, nunca admitiu oficialmente seus pecados.
Paulo Maluf, mesmo diante das evidências e tendo ido parar na cadeia por um período, nega de mãos juntas que tenha contas no exterior.
Recebo inúmeros e-mails de eleitores petistas defendendo posições as mais escalafobéticas, repetindo o raciocínio capenga com o qual a administração Lula justifica os malfeitos com os malfeitos que apontava e se propunha a combater. Nunca investigaram nenhuma das denúncias, mas se alimentam delas para uma disputa política com o PSDB. Um deles escreveu: “Todos sabemos que o governo FHC foi corrupto nas privatizações caóticas e lesivas ao país, no pagamento de mensalão para ter maioria e para aprovar emenda da reeleição”.
Outro diz que desaprova o mensalão em todos os governos, “mas sem ele nenhum governo consegue trabalhar”.
Outro ainda diz que não vê “nenhuma exceção ao estado geral de corrupção ineficiência, como não existiu nos governos anteriores”.
Mais outro: “Não votaria nunca nesse bando do PFL PSDB (em sua maioria) por saber exatamente o que fizeram com o dinheiro público enquanto permaneceram no poder”.
É a vitória da não-política.
