Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, setembro 15, 2006

Luiz Garcia - Os moços e seus carros

O GLOBO
Em toda tragédia o sofrimento poderá ser abrandado se dela se extraírem lições que evitem ou tornem menos freqüente a sua repetição.

Belas palavras. Infelizmente, são de um otimismo panglossiano, indiferente à realidade. Certamente não levam consolo ou alento aos pais das cinco jovens vítimas da tragédia na Lagoa no começo do mês. A idéia de aprender com o sofrimento talvez tenha apenas a solitária virtude de não constituir agressão aos que sofrem.

Como foi o caso da opinião gratuita (porque sem base em qualquer informação concreta a respeito) da juíza Ivone Caetano sobre sua suposta negligência na educação dos filhos.

É óbvio que a tragédia não aconteceria se os jovens estivessem sóbrios e capazes de se comportar com sensata prudência. Mas em que geração, da Antiguidade até hoje, sensatez e prudência foram traços fortes do início da idade adulta? Seja como for, os moços certamente não erraram sozinhos.

O que dizer de quem lhes vendeu bebidas (talvez também drogas) na boate ou na rua? E da falta de presença da Polícia Militar na área? Depois do acidente, houve a tradicional promessa de reinício das blitzes — grosseiramente acompanhada da bazófia de um coronel, afirmando que iria “fazer o papel dos pais”. Aceitam-se apostas sobre quanto durará essa atenção especial. Provavelmente, se valem precedentes, existirá até a comunidade esquecer o tema e começar a cobrar repressão a outro tipo de ilegalidade.

Deve-se reconhecer que o cobertor, na área da segurança pública, é historicamente curto.

Há outra questão indiretamente associada à tragédia na Lagoa que talvez mereça pelo menos ser lembrada: o sonho de consumo de todo jovem da classe média alta, freqüentemente atendido, é aquilo que costuma ser definido com “um carrão”: bonito, caro — e potente. Capaz de alcançar alta velocidade em segundos.

Pode ser que, quanto mais potente o motor, mais aperfeiçoados sejam os dispositivos de segurança.

No entanto, numa pista como aquela da Lagoa, qualquer forma ou grau de proteção automática pouco adianta se o pé do motorista intoxicado pisa fundo no acelerador.

Talvez valha a pena os pais perguntarem a si mesmos: por que o primeiro carro do jovem motorista tem de ser um bólido? No tempo antigo, a juventude ganhava autonomia de rua pilotando fusquinhas e Gordinis. Nenhum dos dois passava muito de cem quilômetros por hora, nem descendo ladeira. Claro, sempre havia oportunidade para a imprudência. Mas tragédias como a da Lagoa eram bem mais raras do que hoje.

Não estou aconselhando coisa alguma, nem tenho direito a isso. Pode ser que antigamente fosse muito mais fácil educar um adolescente. De qualquer forma, admito que seria ridículo dizer aos pais: “Compre para seu filho um carro fraquinho e baratinho — e durma em paz.” Quem sabe, a tragédia deste início de setembro abrirá caminho a novos tempos, de mínimos riscos nos programas noturnos dos jovens, com a PM cumprindo energicamente — e sem data para parar — a promessa de intensificar as blitzes em boates e arredores.

Pangloss certamente acreditaria nisso.

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