Os primeiros efeitos além da esfera política da crise do falso dossiê contra o candidato tucano ao governo de São Paulo, José Serra, começaram a se manifestar no comportamento dos mercados financeiros, traduzindo uma mudança de expectativas dos agentes econômicos, movidos agora pelo pessimismo. É a primeira vez que isso acontece desde o início da infindável série de crises inaugurada pelo Waldomirogate. O que os inquieta não são os desdobramentos imediatos do novo escândalo nesta reta final da disputa pelo Planalto. São as perspectivas de que o chumbo trocado entre governo e oposição a partir da descoberta de mais essa proeza da “sofisticada organização criminosa” que, na definição do procurador-geral da República, se instalou no governo, reduza dramaticamente as chances de as contas públicas serem resgatadas, a partir de 2007, da herança maldita do primeiro mandato do presidente Lula, sobretudo se ele for o seu próprio sucessor, como até agora parece provável.
O cenário de estreitamento das oportunidades políticas para um entendimento destinado a fazer o Estado brasileiro caber na economia brasileira - e é desse imenso desafio que se trata, em última análise - era tudo que o País não precisava. Antes da eclosão da nova lambança concebida pela patota do presidente, o quadro era já desalentador, embora escondido pela campanha eleitoral mais omissa de que se tem notícia sobre os problemas estruturais do setor público federal e seus reflexos sobre os investimentos e a atividade produtiva. De um lado, com a ficção martelada sem cessar por Lula sobre a condição celestial a que teriam chegado os fundamentos macroeconômicos no seu governo: estando tudo no melhor dos mundos e supostamente dadas as condições para um duradouro ciclo de crescimento vigoroso, nenhuma intervenção de fundo nos parâmetros da gestão do Estado se faria necessária.
Na verdade, não há a menor possibilidade de o ritmo de crescimento da economia brasileira se acelerar antes das reformas estruturais drásticas a que nenhum dos principais candidatos teve coragem sequer de se referir. De fato, também o candidato da oposição Geraldo Alckmin calou sobre o que ele, o seu partido e os seus aliados sabem ser imperativo mas impopular: um programa desassombrado de reformas, a começar pela Previdência, a causa primeira das contas que não fecham, sem as quais o naufrágio fiscal do Estado é apenas uma questão de tempo.
Tão sombrio é o quadro que, apesar do expressivo aumento da arrecadação de contribuições, o INSS terminará o ano com um déficit muito superior aos R$ 40 bilhões calculados no início do ano. Mas Lula e Alckmin, com o mesmo medo de desagradar, omitiram completamente o que o eleitor precisaria ouvir, como assinalou ontem neste jornal o economista Rogério Werneck, da PUC-Rio, no artigo apropriadamente intitulado Mundo da fantasia.
A diferença é que o primeiro tem a caneta. Neste ano eleitoral, ele a usou para produzir um apoteótico carnaval de irresponsabilidades: opulento aumento real do salário mínimo, pencas de reajustes a servidores, inchaço da folha de salários do Executivo, ampliação descomedida do Bolsa-Família - uma fatura agregada que tangencia R$ 20 bilhões. Para o ano que vem, a caneta do presidente já escreveu um conto de carochinha: no projeto do Orçamento-Geral da União enviado ao Congresso, antes até, sintomaticamente, da aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), o Planalto incluiu receitas imaginárias para cobrir os custos suplementares de suas bondades eleitorais e projetou um crescimento irrealista da economia. Essa história está fadada a um final infeliz: a economia continuará emperrada pela carga tributária e, se Lula continuar presidente, a tentação do populismo será quase irresistível.
É essa possibilidade mais do que evidente que fez que tanto o mercado brasileiro - que não se abalou nem quando Palocci deixou o Ministério da Fazenda - quanto os mercados internacionais, nos quais o risco Brasil vinha caindo em ritmo inédito em meio às sucessivas crises políticas, desta vez perdessem a calma.
E o pior é que, sendo a provável vitória de Lula a razão desse comportamento, nem uma vitória de Alckmin restabeleceria imediatamente a confiança perdida.
Entrevista:O Estado inteligente
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sábado, setembro 23, 2006
A herança maldita de Lula
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