Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, setembro 15, 2006

Eleição e democracia (Por Lucia Hippolito)


Eleições são eventos banais na vida das democracias consolidadas. Na maioria dos países, o dia da eleição sequer é feriado. O cidadão vai para o trabalho normalmente, sai um instantinho, vota... E volta para o trabalho.


E isto acontece há muito tempo. Em meados do século XIX, os Estados Unidos envolveram-se numa guerra, em que americanos lutaram contra americanos. A Guerra de Secessão, conflito entre o Norte e o Sul dos Estados Unidos, durou de 1861 a 1865 e deixou um saldo de 600 mil americanos mortos. Mas pôs fim à escravidão.


Pois bem. Em 1864, bem no meio da guerra, o presidente Abraham Lincoln enfrentou uma campanha eleitoral – e foi reeleito. Vários de seus atos foram considerados eleitoreiros pela oposição. Mas não passou pela cabeça de ninguém suspender a eleição.


Lincoln enfrentou a violência – verbal e bélica – da oposição, mas decidiu disputar a reeleição no cargo. Ganhou, acabou com a escravidão e venceu a guerra. Não viveu para consolidar a paz, mas isto não teve nada a ver com o processo eleitoral.


Outro exemplo. Em meados do século XX, o mundo se envolveu na Segunda Guerra Mundial, que durou de 1939 a 1945. Deixou um saldo de 60 milhões de mortos, entre os quais 400 mil americanos. Mas a guerra pôs fim ao nazismo.


Pois bem. Em 1944, Franklin Roosevelt, eleito presidente dos Estados Unidos pela primeira vez em 1932 e disputando então seu quarto mandato, foi reeleito. A guerra só viria a terminar em agosto de 1945, mas não passou pela cabeça de nenhum americano suspender a eleição.


Já muito doente, Roosevelt enfrentou a eleição e conquistou o quarto mandato. Não o cumpriu, porque morreu em 1945, mas sua morte não teve nada a ver com o processo eleitoral.


Isto significa dizer que uma democracia está tanto mais consolidada quanto mais banal for o processo eleitoral. Pode não ser muito emocionante, pode ser meio chocho, como a campanha que estamos vivendo no Brasil, mas pode também ser sinal de amadurecimento democrático.


Os atos de um governante que busca reeleição podem ser considerados eleitoreiros – como o recente pacote da habitação lançado pelo presidente Lula. Mas não deixam de ser atos de governo. Se conquistar votos na arisca classe média, melhor para ele.


Os processos em curso no TCU, dando conta de que o governo Lula tem que explicar o sumiço de R$ 11 milhões e cobrando a responsabilidade do então ministro Gushiken, podem ser considerados atos eleitoreiros – como alega o pobre ministro Tarso Genro.


Mas não deixam de ser R$ 11 milhões, e continuam sumidos. E o governo Lula continua tendo que dar explicações sobre o sumiço do dinheiro. O TCU não é candidato a nada e precisa continuar dando andamento a seus processos.


Tudo isto é natural e corriqueiro numa democracia que se pretende digna do nome.

BLOG Ricardo Noblat

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