Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, setembro 15, 2006

"A Bolívia vai virar a nova Albânia", diz Zylbersztajn




Folha de S. Paulo
15/9/2006

A decisão da Bolívia de rebaixar as refinarias da Petrobras a prestadoras de serviço -que ontem acabou sendo congelada- é mais um ataque belicoso do governo Evo Morales contra a estatal brasileira de petróleo. A resolução ocorreu no momento em que se reiniciavam as negociações entre os países, paradas depois do decreto da nacionalização, em maio.
Para o consultor David Zylbersztajn, ex-diretor da ANP (Agência Nacional do Petróleo), a Petrobras agiu de forma correta ao repudiar de forma veemente a decisão do governo boliviano. A seu ver, ao endurecer contra o governo de Evo Morales, a Petrobras está, na verdade, dando uma satisfação aos seus milhares de acionistas. O controle acionário da Petrobras é do governo, mas a grande maioria das ações da estatal está na mão de investidores privados.
A mesma reação não se viu, até agora, da diplomacia brasileira, que, desde o início da crise entre a Bolívia e a Petrobras, ainda não manifestou sua posição a respeito desse embate de forma clara. Segundo Zylbersztajn, essa pode ser a primeira grande crise internacional do governo Lula. "A pergunta que se faz é até quando o governo vai suportar não se manifestar formalmente sobre essa situação", diz o consultor.
Aparentemente injustificável e inconseqüente, a resolução da Bolívia, na opinião de Zylbersztajn, só pode ser mais uma jogada de Hugo Chávez, da Venezuela, em sua estratégica para se tornar o grande líder sul-americano. Ele tem estado por trás de todas as decisões de Evo Morales contra a Petrobras. "A Bolívia vai virar uma Albânia, que nem existe mais", diz Zylbersztajn.
Apesar de achar praticamente impossível que a Bolívia corte o fornecimento de gás para o Brasil, Zylbersztajn considera inevitável a redução no abastecimento do produto no país. Dessa forma, ele prevê aumento no preço do gás.
A grande prejudicada será a Bolívia, que dificilmente irá receber investimentos externos, exceto de Chávez. A Braskem, por exemplo, tinha um plano de investir cerca de US$ 1 bilhão num pólo gás-químico, mas o projeto foi e continuará congelado. "Decisões como essa de agora não ajudam em nada o descongelamento do projeto", diz José Carlos Grubisich, presidente da Braskem.

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